Talvez me mates…

…mas faz um ano que tirámos estas fotos e estamos a celebrar a vida.
Já falei que chegue da tua história.
Agora consumo-te apenas como grande amiga, meia irmã, meia filha, meia minha mãe, meio metro que me falta, meia metade minha.
É tudo o que me basta. Mas sabes miúda? Gosto mesmo que os outros saibam que és um ser humano gigante e que o facto, de me teres procurado quando soubeste da tua doença, sem que nos conhecêssemos muito bem, elevou-me como pessoa. São as pessoas com quem nos rodeamos que fazem de nós quem somos. Nunca fui mulher insegura, nem houve um segundo de hesitação da minha parte, quando depositaste em mim a confiança de ser “a” amiga. Não é todos os dias que nos escolhem. As pessoas depositam demasiada esperança nas relações amorosas. É muito importante, mais do que importante, é bom, se tivermos a sorte de achar a companhia certa para a nossa narrativa de vida. Mas quando tarda e não vem, ou mesmo quando é já presente, não ocupa o lugar amplificado da amizade. E os amigos são o alicerce polvo dos nossos dias. Disse-te na altura que tinhas escolhido mal, que era desregrada, que fumava, que tinha horários loucos e pensamentos múltiplos de múltiplos, que não era muito organizada e que esquecia rapidamente as coisas que não me interessavam. Não queria ser cuidadora tua, quando ainda passava os dias a aperfeiçoar os meus skills incipientes de mãe, levados ao limite por duas criaturas adoráveis mas verdadeiramente turbinadas (que tu conheces bem).
Disse-te que sonhava com o mundo enorme e que voava mesmo de olhos abertos. Esqueceria em dois segundos as tuas fragilidades, levar-te-ia a correr comigo, colocar-te ia em condições onde não haveriam condições. E era exactamente isso o que tu querias, filha da mãe!, alguém que se esquecesse no minuto zero a tua vulnerabilidade, que te falasse, te ouvisse e te vivesse como senão existisse um diagnóstico, um protocolo e um milhão de regras. Não as quebramos todas, acho que nunca te coloquei verdadeiramente em risco…e sabes? Penso muitas vezes nisso, quando solto as minhas filhas e as vejo destemidas a subir telhados e árvores, a atravessar a corrente dos rios, a cortarem coisas com facas ou a cozinharem ao lume em bicos de gás. Mas também penso que não sei ser diferente e que é exactamente aí que somos iguais. O pior e o melhor que temos são de uma honestidade atroz. E há uma coisa que nunca vou esquecer: Quando me contaste tudo estávamos em Belém e começou a chover a potes, eu quis parecer normal, fazer a conversa e o momento fluir, para que tu tivesses a confiança que o mesmo se passaria com a vida. Tu estavas encaixada dentro daquelas bolas ocas de madeira para te protegeres da chuva (temos essa fotografia no nosso Instagram, vale milhões emocionais) eu levantei-me, coloquei me ao teu lado e peguei no telemóvel. Na verdade, eu não queria tirar uma fotografia, eu queria que o tempo me desse uma dica, que não se atrapalhasse no silêncio demorado nem na chuva a engrossar. Ergui o telemóvel com as duas e foquei o rio, olhei de soslaio para ti, sorri, e tu disseste-me com imensa serenidade:
“Nunca mais vou querer nada entre mim e a realidade”.

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