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Hoje estou estupidamente feliz.

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Estes dias têm sido tão velozes, que nem tem dado tempo, para dar aos momentos, o que eles merecem.
Hoje estou estupidamente feliz. As miúdas têm os últimos testes (não me canso de o dizer) e para mim, começa um reinado de tranquilidade, outro tipo de tranquilidade, já que as loiras rondarão o pedaço em busca do que fazer. Mas cada coisa no seu dia. Para ser feliz, é preciso saber reagendar preocupações. Mas não era nada disto que eu queria partilhar. Só não me contenho de alegria. (hoje é Burger king para toda a gente e o melhor reserva tinto para os crescidos). O que eu queria mesmo é dar os Parabéns à Rita da fotografia. A cozinheira dos cozinhados que fotografei para um livro delicioso que já está nas bancas deste Portugal. Disse na apresentação do livro, que quando a Rita me contactou por email estava longe de achar ser, a pessoa indicada para um roll de fotografias de alimentação saudável. Eu, rainha obstinada das tábuas de enchidos, discípula de Baco e devoradora de gomas. Mas é no contraste que se ganha definição e demo-nos como melão e presunto.
Obrigado miúda do Sul por me teres confiado o norte das tuas fotografias. E por teres sublinhado com este projecto que as calorias da amizade são as que mais nos engordam de vida. Que mantenhas sempre esse teu açúcar.
http://ritasmessykitchen.blogspot.pt/

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COM TODOS OS DENTES

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Raramente se ouve a expressão “homem maduro”. Madura é normalmente a fruta e a mulher. Desde que me lembro, que oiço as pessoas dizer que as meninas são mais maduras que os rapazes, numa idade em que tudo o que deviam ser era fruta verde. Depois crescemos, de meninas passamos a mulheres e o epíteto de madura, ganha a forma de uma pessoa densa.
Não sei se quero ser madura. Não, sem antes perceber se madura é como a fruta macerada que ganha manchas acastanhadas do calor e da apalpação. Preferia quando me portava bem e as tias “maduras” me diziam apenas:
– Estás uma menina crescida.
Dessa maturidade marcada que vem do uso excessivo não gosto. Mas adoro o pressuposto da mulher vivida, embora quase todas estas expressões remetam para um universo relacional cheio de peripécias e meios finais. No fundo, acho que não gosto de ambas as expressões: “mulher madura e vivida”, soa-me logo a alguém de casaco com borbotos, ombros curvos, muita base, olhar demorado sobre o chão e o infinito.
E quando oiço dizer ela é muito mais madura do que ele, penso que isso deverá reflectir 99% das relações que conheço.
Talvez tenha dado jeito à economia forreta das relações, que as mulheres sejam maduras há muito mais tempo que os homens. Talvez dê jeito, ao desmazelo fantasioso de alguns habitats partilhados, acreditar que todo aquele tempo se viveu com o Peter Pan. Mas isso não faz da mulher madura um Capitão Gancho, faz nos pesadas, complexas, empedernidas.
Eu não quero ser mulher madura, quero ser a Windy descalça no parapeito da janela, pronta a voar na leveza dos sonhos que não envelhecem. Eu não quero ser mãe de filhos e de marido.
Essa maturidade camuflada em competência, eu dispenso.
Até porque consta, que para ser dispensada, basta apenas não crescer. Então talvez eu prefira a solidez altiva da fruta verde, à maça caída sobre o chão. Mesmo que isso signifique que numa só trinca venha o fim de toda a dentição.
Porque a verdade das boas relações é que elas se querem vividas com todos os dentes.

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FALHEI MUITAS VEZES

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Mães trabalhadoras e a carreira profissional? Será mesmo reconhecido o nosso esforço, pela sociedade, família ou amigos, ou na verdade, dizem-se coisas bonitas, mas todos pensam “tiveste-os? Agora, desenrasca-te”. (Um comentário que me deixaram há meses num post e que foi o mote para este texto)

No dia em que decidi ser mãe, não sabia a extensão da minha decisão.
Nunca, enquanto lhe fantasiávamos as feições ou decorávamos o quarto, falámos de forma detalhada do impacto real que o nascimento da nossa filha, teria nos vários quadrantes da nossa vida.
Pensámos sobre isso como faz toda a gente na iminência de uma grande mudança. Mas nunca quis esmiuçar numa folha de Excel os prós e os contras de um filho.
Queria ser mãe, queria tê-la nos meus braços, nos nossos braços e na nossa vida.
Atirei-me para frente, com a confiança, que nunca achei ingénua, de que o amor ajuda sempre a responder às questões que ainda não sabia levantar.
Se calculasse o índice de conforto, a logística e o desgaste financeiro das principais decisões da minha vida estava lixada.
Como já fui mãe duas vezes, posso dizer que já vivi a maternidade em circunstâncias de carreira completamente opostas: Enquanto assalariada, desempregada e enquanto trabalhadora independente.
E foi nesta última condição, que me separei (e não o motivo), a passar recibos verdes, à rasca que o pouco rendimento recolhido, me lembrasse constantemente da inconsciência das minhas escolhas.
O caminho é ainda mais difícil que a escolha. E nada se faz inteiro, só porque se quer segurar na mão as duas metades:
A dedicação a um trabalho que nos realiza e o colo certo a um amor que nos amarra. Falhei muitas vezes em cada uma das metades. E aprendi a ver nas falhas uma forma de amor.
Só assim é possível continuar a tentar, a cair e a erguer. Ainda não somei tudo o que ganhei, na subtracção das certezas que também perdi. Mas há uma coisa que eu sei:
Nunca conseguiria ser a mãe que sonhei, se deixasse de acreditar na mulher que sonhei para mim.

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“SER ALGUÉM”

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Ainda há muitos pais que se dirigem aos filhos utilizando a vulgarizada expressão: “Assim não vais ser ninguém na vida”.
E o que é mesmo ser alguém na vida?
Eliminando a hipótese mais romântica, que “o ser alguém na vida”, seria o “ser a vida de alguém”, o que é que nos resta?
O desempenho de uma séria de profissões socialmente aceites?
Uma educação colegial pautada por “Muitos Bons”, medalhas de mérito, aluno de quadro de honra, campeão das olimpíadas de matemática ou o vencedor do torneio europeu das composições?
Um advogado numa sociedade de renome, um engenheiro com um MBA a liderar uma multinacional ou um cientista bolseiro premiado nos EUA?
Sem desprimor para todo o brio que estes “seres de alguém” serão, e o consequente orgulho paterno-ó-maternal que o depósito frutuoso da nossa educação gera, não é nisto que penso quando desejo muito, que as minhas filhas, não sejam alguém, sejam apenas elas mesmas.
No limite, isto até pode parecer de um romantismo extremo, quase utópico, tipo frase de Instagram. Mas quando acresci ao ser mulher, o ser mãe, a única certeza que tinha era de que não queria impor modelos de sucesso às minhas filhas, que não queria viver obcecada com o “acima da média”, e que não queria repreende-las com advérbios de comparação ou classifica-las num ranking.
Não seria honesta, senão dissesse que me daria, tanto mais jeito que orgulho, que concluíssem o ensino obrigatório sem uma escolta de explicadores. Que me era muito conveniente que os seus hábitos de estudo contemplassem a auto-suficiência e o silêncio, e que adorava ser convocada à escola para ser agraciada apenas pela minha boa genética. Mas o que eu quero para elas, é mais ou menos o que sonhei para mim, que estivessem atentos às minhas capacidades, que me ajudassem a vencer os meus medos e que me aproximassem o mais possível das coisas que me faziam feliz.
E é isso que eu vou fazer com elas.
Dar-lhes as circunstâncias que as potenciem para lá da academia do saber. Dar-lhes todo o mundo que puder na minha disciplina do Estudo do meio. Aproxima-las do português da generosidade, do elogio, da motivação e do perdão. Vou tentar que vejam na matemática da vida a melhor equação, para que os seus denominadores comuns alcancem o melhor dos resultados.
Vou querer que vejam no céu estrelado do monte e nos pés descalços, a ciência mais pura do amor à terra em que vivem, e vou dar-lhes estradas, caminhos, terras e atalhos para explorarem os limites da sua educação física.
Tudo o resto eu deixo para a Escola formal.
Reservo-me o cuidado de regar à noite os sonhos.
Aqueles sonhos em que acredito.
Os que não nos acordam à noite no sobressalto do “sermos alguém”.

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As miúdas, as meninas, as mulheres das ilhas.

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Cada vez que regresso a São Tomé há um pensamento que regressa comigo. As miúdas, as meninas, as mulheres das ilhas.
É difícil comparar com as nossas miúdas, meninas e mulheres.
Aqui as crianças parecem mais crianças. São-no no estado puro de quem cresce descalço sobre a terra, de quem sorri sem medo para quem passa, de quem segue para a escola a pé, a rir com outras crianças, de quem mergulha nu no mar e participa sem queixume visível da vida em comunidade.
Parecem tão pequeninos para tanto e são mesmo.
Como eu quis, e não consegui, que na mesma idade as minhas miúdas andassem mais descalças, mas consegui que nadassem nuas em todas as praias, não consigo ainda, que vão para a escola sozinhas, mas já consigo que vão à mercearia comprar o pão e as frutas que faltam. Vou tentando, sempre que posso, fintar-lhes os vícios da cidade, das rotinas cómodas, das certezas sem fim. Ambiciono muito para as minhas miúdas, meninas.
Não lhes falta nada. Mas ainda lhes falta muito.
Esse muito que ainda lhes falta é o sacrifício. E nós hoje, ainda pouco fazemos por essa doutrina sã que criou tanto filho bom.
É uma luta quase inglória porque quando há não se retira. Quando se tem não se adia.
Um dos pensamentos que ganha força aqui é a certeza de que vos tenho que dar menos para vos saber dar mais.
E se algum dia tiver receio que me culpem por isso…
Invade-me a certeza que o vosso coração irá mais cheio por cada vazio meu.

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AS ESPINHAS DO OFÍCIO

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Tenho um tremendo respeito pelos pescadores, admiração será melhor palavra. Respeito, tenho por todos aqueles que se atiram a remover a terra e ao mar revolto em busca de um sustento.
Mas há uma sensibilidade fina mascarada de rudeza em cada aldeia de pescadores. Há uma timidez feita de cal e esforço que suspende o sorriso fácil. Há muita marca no corpo a lembrar o desfecho de uma história que se quis diferente.
No emaranhado das redes adivinham-se as correntes da vida.
E em cada nó apertado da linha prende-se a fome, a vontade e a incerteza.
Comecei por lhes pedir se podia fotografar as mãos.
As mãos de um pescador são os seus olhos.
Deram-me um “sim” rouco e continuaram a costurar de pé, com os pés descalços sobre uma cordilheira de redes coloridas, como se fossem costureiras apressadas antes do baile final.
Há muita poesia na pesca.
As aldeias de pescadores têm o perfume das escamas, misturado com as entranhas do mar a secar na areia, mas a mim encantam-me. E nada me constrange no seu silêncio, porque eu sei que por dentro, todos trauteiam na mesma canção.

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Ontem uma amiga morreu.

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Ontem uma amiga morreu. Não há outra forma de escrever isto. Foi-se de uma forma tão inesperada que custa não esperar que seja mentira.
A vida vai continuar por cá. Mas fica um vazio pálido e estranho. Uma responsabilidade absurda por continuarmos todos vivos.
Estava refastelada no sofá a meio de um filme da treta, quando me telefonaste. Fui à varanda para ouvir melhor, falavas tão atabalhoadamente que no meio da morte só consegui perceber riso. Pela forma como falavas, achei que estavas a gozar. Como se alguém gozasse com a morte de alguém. Mas eu estava no sofá a ver um filme ridículo. Desculpa. Mas não consegui passar das pipocas à Morte, e já não consegui regressar às pipocas, quando as palavras se fizeram nítidas e ouvi na tua voz chorada:
– Ela morreu.
Fiquei debruçada na varanda, sem saber como se acode da morte quem já morreu. Naquela sensação estúpida, que o embaraço na busca da palavra certa faz prolongar. Perguntei coisas. Aquelas coisas, que são factos, que pouca interessa à tristeza que se quer chorar. Quando desligaste fiquei assim a olhar para o sofá amarrotado, para um filme em pausa, para a imagem congelada e para a vida que já não estava lá.
Tinhas a minha idade e os teus filhos têm a idade das minhas.
Falamos na quarta-feira e combinamos que íamos jantar um dia destes.
Não fui sincera. Repeti essas palavras na cortesia da promessa de um “Até já”. Como já te tinha repetido todas as vezes que falamos antes por outro assunto qualquer. Não te salvava a vida se te tivesse levado a jantar, mas tinha te dado mais tempo do meu. E vou ter sempre pena por isso.
Sei que só há uma forma inteligente de vingar a morte:
A celebração da vida. Mas é tudo tão retórico neste vazio…
Antes de desligar o telemóvel a nossa amiga disse-me:
– Bebe um copo por ela e faz-lhe um brinde. Tenho a certeza que era isso que ela gostaria.
Fui à cozinha e enchi um copo. Da cozinha fui para a varanda. Estava frio. Olhei para cima. Olhamos sempre para cima quando morre alguém. Sentia-me absurdamente viva. Quis dizer qualquer coisa e não consegui. Ergui o copo ao alto e bebi. Tenho pena que a vida não te tenha dado mais tempo. Aquele tempo que também damos aos filmes da treta segundos antes de recebermos um telefonema triste. A vida vai continuar por cá.
E eu bebi o copo até ao fim.
Até já miúda.

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O fazer ocupa lugar

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Não tenho dado grandes notícias porque o fazer ocupa lugar.
Mas esta fotografia sintetiza “mais ou menos” o momento que ando a viver. Depois dos dois últimos meses a lutar pela manutenção das rotinas de estudo e da tranquilidade possível da vindima do lar, eis que chega o tão esperado pai.
A mãe alivia o cesto e passa a fermentação das uvas ao progenitor. Acredita que o fruto está podado da melhor forma possível e entrega-se ao cultivo privado do seu talhão: As palavras, as fotografias, as tertúlias, as viagens e o amor.
Estava tão habituada ao cuidado da vinha, que tive alguma dificuldade em largar a faca da poda, em poisar o cesto e olhar só para o meu terreno de cultivo. Não posso negar que este monopólio de mãe-cuidadora produziu um mosto tremendo de saudades das minhas filhas, mas para continuar a vingar no meu processo de autenticidade, preciso de cuidar do meu terroir para me fazer essência e depois vinho. Uma forma de sonho entornada na pessoa que quero ser. O natal está a porta, as uvas regressam ao fermento do lar e eu vou dar mais uns encostos de poda e mimo. Depois, posso lavar os cestos e deixa-las estagiar na barrica do pai enquanto dou um pulinho de mãos dadas ao Equador e deixo o vinho a respirar:)

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No Ginásio

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Hoje deixei as loiras na escola e segui para o ginásio.
Não devia ter levado o telemóvel, com a desculpa da minha playlist, porque recebi uma chamada de uma amiga e fiz 45 minutos de glúteos, que era basicamente a única posição possível para segurar o telemóvel e continuar a fazer qualquer coisa pela vida.
Tive uma hora no ginásio. Desci aos balneários, tomei banho e fui para o meu cacifo arranjar-me. Disse bom dia à rapariga de fio dental que se secava ao meu lado. Não respondeu.
Inquieta-me sempre a não reciprocidade na simpatia.
Mas cada um escolhe como quer viver. Nisto chega uma rapariga gordinha de sorriso rasgado, diz bom dia, eu respondo com um sorriso, o fio dental fica calado.
Concentrada que estava, desvia o olhar de soslaio e continua a colocar o creme. O cacifo da gordinha era colado ao da fio dental. e enquanto arfava a abrir o cadeado e salta-lhe uma fita grossa para cima da miúda calada. Pede desculpa, meio atrapalhada, meio sorridente. Eu sorrio, são coisas que acontecem.
A miúda do fio dental sacode para o chão, a fita que lhe cai sobre o peito. E suspira. Talvez desejasse a tranquilidade de um ginásio só dela, imagino. Debruça-se para fechar as botas, visivelmente apressada, muito provavelmente para se meter na sua nave e fugir ao contacto com a humanidade. Nisto, a gordinha nervosa deixa cair a toalha presa na porta do cacifo, sobre as costas do fio Dental. Baixa-se imediatamente, rindo de si mesma pela sucessão de trapalhadas. Olha para mim em busca de empatia e eu devolvo-lhe um sorriso grande. Há dias em que tudo nos cai. A miúda do fio dental levanta-se, agarra na toalha com a mão fechada, volta a coloca-la sobre a porta do cacifo com brusquidão e diz: – Estou bem aqui?
Não resisti e respondi-lhe: – Acho que só você é que pode responder a isso.
(Suspirei, igualzinho a ela e fui-me embora para a minha nave).

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É com Amor que se vence o medo.

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Os dias regressam, as horas impõe-se, as rotinas exigem.
Mas há neste amanhecer dos dias seguintes uma culpa irresponsável, por continuar a viver, como se nada fosse diferente, sabendo que nunca mais será igual.
Não dormi bem à noite. Levantei-me.
Fui beijar-lhes as caras. Agarrei a mão do Pedro com força.
Ouvia tudo com muita nitidez.
Nunca a minha respiração me pareceu tão forte, como se me quisesse alertar da forma mais crua para a benção da vida.
Obrigado por me teres segurado a noite com um “Amo-te”.
É com Amor que se vence o medo.

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