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Na mesma posição do “Até já”.

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Disseste-me que ias comprar pão quente. E eu prometi-te 8000 caracteres do livro que estou a escrever. O monte fica longe da senhora que vende o pão. Mas o meu corpo está encostadinho à lareira acesa.
Aos bocadinhos começou a chover lá fora.
Estou na mesma posição do “Até já”.
Tenho o portátil sobre os joelhos e as labaredas a namorarem-me o corpo. Tenho um copo de tinto junto a mim e as teclas escuras pintadas com letras à minha frente.
Acho que não te vais importar, se te disser que me perdi entre o estalar da madeira e as gotas da chuva que lambiam as janelas.
Acho que vais perceber se te disser que o meu corpo cedeu ao escorrega do calor e as mãos afastaram-se, com cuidado, das teclas com que se constroem as palavras que prometi escrever.
Quando chegares vou estar na mesma posição do “Até já”.
Vais perguntar-me pelos caracteres, com o pão quente debaixo do braço. E se eu for esperta, como o calor da lareira acesa, vou te puxar para o conforto de mim para quebrarmos juntos as promessas que te fiz.

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Gente simpática

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Gosto mesmo de gente simpática.
Sempre me rendi a soberania do humor sobre qualquer tipo de inteligência. Até porque, considero o sentido do humor uma das manifestações que mais legitimam a presença de um cérebro.
Não, não fotografo apenas crianças. Fotografo pessoas. E as pessoas que melhor ficam na fotografia são as pessoas felizes.
E o melhor é que a fotografia é apenas a reprodução tímida de um instante, e as pessoas felizes marcam os instantes da vida.
Gostei muito de conhecer estas manas felizes de Setúbal, que chegaram à sessão cheias de cócegas de riso e presentes: Dois terços artesanais e um tinto para a #filhadamãe. Sim, porque se a gente simpática é o “bold” de todas as fontes, a garrafa de tinto garante um certo itálico à sessão.
Foi um prazer:)

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Há quem diga

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Há quem diga que eu tenho uma visão hiper realista da maternidade. Outras há que dizem que toda a gente tem.
Há quem não diga nada.
E há quem diga, por cima de quem diz o que sente, que a maioria mente.
Nos dias maus estou desvairada e arrependida.
Nos dias bons sou a mãe transversal de toda a cria.
Quando me falta a paciência digo mal até mais não.
Depois bebo um trago longo de tinto e toda eu sou perdão.
Culpa? Ninguém a tem. Nasce do ser diferente.
A única cena comum que temos com toda a gente:)

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Respirei Fundo, Só Isso.

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Não gosto de pôr demasiada pressão no último dia do ano. Há uma doce irresponsabilidade nas horas que achamos perdidas, que eu gostava seriamente, que continuasse a banhar o resto dos meus dias.
Estamos a 15 km da costa.
Hoje já fomos da terra ao Mar e do Mar à terra.
Já li os meus desejos para 2014, enquanto comia umas tiras de carne assadas na brasa junto à praia dos Aivados, já bebi um jarro de tinto da casa e comi uma mousse de chocolate. Já fui até praia do Salto brincar com as loiras, já tirei o instagram da praxe ao último pôr do sol. E não é que o criador se esmerou: acentuou os laranjas, reforçou os rosas, desenhou um set perfeito: uma maré baixa de prateados e pôs todas as poças da praia a reflectir o céu. Por uns minutos, as vozes enérgicas das loiras, enrolaram junto com a espuma do mar e eu consegui dar aqueles passeios solitários de 5 minutos à beira mar. Antes, eu achava coisa de velho melancólico, quando os via passar de mãos trancadas nas costas, passos arrastados a olhar o mar. Hoje, acho que já percebo. Um dos segredos da maturidade está sem dúvida na percepção do tempo. Não tive nenhum pensamento profundo nos 5 minutos que o criador fez reinar naquela praia, nas loiras à distância e no pôr do sol a enterrar no mar. Respirei fundo, só isso.
E tive a certeza que estou a crescer.

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As melhores pausas do meu caminho

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Era bom, mas era tão bom. Que ao viver a Vida em pleno, nos fosse dada uma extra.
Na lógica dos jogos de consola isso acontece. É um pressuposto na passagem para outro nível, o bônus de uma vida extra. E como é que isso se faz? Depende do jogo.
Normalmente arrecadamos o maior número de items, vencemos perigos com mestria, contornamos imprevistos, eliminamos os inimigos e mantemos, sempre, o foco no que nos trouxe ali.
Depois, é ver pingar no canto superior direito um coração em formato de vida. Ora se a que nos é dada, tivesse o mesmo enquadramento, tenho a certeza que nos dedicávamos mais a cada um dos níveis. Na impossibilidade de voltar ao cenário anterior, capitalizaríamos todos os nossos recursos na obtenção do maior proveito. O nosso olhar ganharia a clarividência da visão mais aguda, e os sentidos tomariam conta dos poros, para não nos escapar nada, que não fosse apenas, o bom suor da vida.
E quem determinaria o que é viver uma vida plena? Para mim é um somatório máximo de momentos felizes, regado ao expoente máximo do exercício das nossas qualidades, ampliando pelo máximo de pessoas possíveis.
Se para uns, uma manhã de surf é um expoente, para outros é o verter do tinto à lareira, um livro na mão, um almoço de família regado a gargalhada, um passeio de bicicleta no campo arado, um concerto de jazz, um gelado de chocolate, uma paixão recente e um pôr do sol demorado sobre a generosidade dos laranjas.
Não interessa tanto saber o que torna plena a vida de cada um.
O que diferencia cada vida dada, de um jogo de computador, é o foco.
A essência está em saber ao que se vai, mesmo que não se vá lá sempre. A vida custa sempre mais a quem anda perdido.
Mesmo que nunca se chegue à última luz, a segurança de saber que ela lá está, é tudo o que permite as pausas demoradas no caminho. E como por enquanto, e ao que parece, é só esta vida que me calha, são estas as melhores pausas do meu caminho. E não preciso de uma fotografia, para saber que a luz brilha lá atrás.

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