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Devo estar a envelhecer (bem).

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Às vezes fico olhar para ti de costas enquanto te afastas, a medir o comprimento das tuas pernas, o teu balançar, num “galanço” tão espontâneo, que se não fosse de mãe querida, era de homem descarado.
Às vezes dizes: – Ó mãe para!
Desculpa-me, por me deter muito tempo fixa no teu rosto.
Amnistia as minhas mãos por se demorarem a sentir o diâmetro pequenino dos teus braços. Perdoa-me se te pego ao colo e se elevo como uma criança pequena, só para ter a certeza que ainda me sobra força para te carregar.
É tão engraçado, porque eu sempre fui rabugenta com as contemplações demoradas de familiares, enquanto exprimiam as mesmas frases:
– Está tão crescida!
– Pareces mesmo a tua mãe.
– Vai ter o nariz do do pai.
– As mãos são iguais às da avó Margarida.
Sempre resmunguei, de mim para mim, que esse comportamento era revelador da idade avançada de quem o proferia.
E dizia para mim mesma, que quando crescesse nunca o faria.
Com o tempo, também eu aprendi, que envelhecer traz o custo dos caldos e das ramelas nas palavras. E se, quando era criança, eu condescendia, era porque havia em todos eles um universo de referências, que me pesava e me afligia. Por isso, quando dou por mim a observar-te de forma demorada e a exprimir de forma antiquada, não é só porque envelheço em caldos e em palavras, mas porque encontro no teu balançar de menina, a criança que eu já fui.

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Os Filhos dos Outros

Os filhos dos outros
Quando casei tinha a honestidade dos sonhos de uma relação eterna.
Tinha por nobre intenção a criação das minhas filhas no seio de uma família inteira que iria inteira até ao fim. Se estava pouco preparada para uma separação, ainda mais estaria para tudo o que vem a seguir. Uma nova construção, uma nova família. 
Perdi muito pouco quando me separei. Cultivei uma amizade tão boa com o pai das minhas filhas que ainda hoje estrutura tudo o que temos.
E as minhas filhas?
As minhas filhas são minhas.
Nunca foi difícil amá-las mesmo quando a equação da liberdade me subtraiu. São minhas e serão minhas até ao fim. Mas já sou menina crescida. Era normal que me reinventasse, que voltasse a amar e que voltasse a sonhar com uma família. Mas nesse mesmo mundo, ao mesmo tempo e na mesma época, alguém que me era destinado a afeição, encontrava nas mesmas circunstâncias, as mesmas batalhas e os mesmos fins. Não brifei o criador com o meu “wanted man”. A vida não se dá a esses luxos. Acontece o que acontece. E de repente, estamos frente a frente com alguém que traz no cabaz da vida a mesma doce criação. 
Eu tenho filhos, os meus. Tu tens filhos, os teus. 
Ainda pensei que talvez fosse mais fácil estabelecer uma relação com alguém que não tivesse descendência, disponível para amar o que era meu. 
É egoísta, sim, realista também. Mas não foi assim.
De repente, a somar ao amor às tuas filhas, vês-te arranjar espaço para acomodar o amor pelos filhos do outro, que é teu também. Vês-te a dividir, a rachar, a arranjar tempo e circunstância, para que essas crianças que nunca existiram na tua vida, até esse momento, façam parte dela.
Sentes-te mal, porque em consciência não o querias, não o desejavas, e no ímpeto mais cruel e honesto, talvez não deixasses, se a vida te permitisse ser déspota sobre o que te dá.
Mas é o que tens. Na tua vida encaixam-se os filhos do outro, esse outro que a vida não permitiu que atalhasses a tempo de o impedir de ter filhos com outra, que os ama também.
É difícil. Mesmo no coração escancarado de uma mãe, abrir com a mesma força com que se abraça o que é nosso e desejado por nós, abraçar o que veio, sem desejo ou vontade nossa.
O coração é um órgão que ama, mas é um órgão que bomba. É elástico mas falível, e parte de um corpo humano. Não dá para lhe exigir tudo de uma só vez.
Não dá para o amarrar à culpa de não ser o primeiro a render-se à novidade. 
E não é só porque se é mãe, que se é capaz de acolher qualquer cria com a mesma santidade de uma irmã de Calcutá.
A primeira culpa a morrer é a de sentir.
Talvez o único segredo na ampliação desse amor que já tens ao que é teu, é a percepção da importância que esse acolher tem para a pessoa com quem estás e para as crianças que acolhes. 
Ninguém se importará que não enchas as suas caras de beijos com a mesma sofreguidão com que lambes os teus filhos. Bastar-lhe-ás apenas a atenção de quem recebe com carinho o que o outro ama.
Os filhos dos outros não serão teus filhos. A não ser que a circunstância da vida os faça tão presentes que o passado se ajuste como uma história sobre a tua.
E não interessa sofrer pelo que idealmente seria, porque a realidade é implacável sobre o que é.
E o único mal que fazes quando sonhas com o que não tens, é o de desaprender a amar o que já tinhas.

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“QUASE” UM BOCADO

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O pai das loiras fez ontem anos e nós estávamos a banhos numa piscina interior num hotel fabuloso em Montargil e não fomos muito efusivas….
A verdade é que estávamos demasiado entretidas a expulsar os casais românticos da água quente.
Ainda lhe cantamos os Parabéns, mas os perdigotos de água, não lhe deram o compasso necessário para que ficasses convencido da sinceridade do nosso esforço.
Fiquei a pensar nisso.
O Viber também não ajudou e a rede nas planícies alentejanas é tão escassa como a juventude. E na viagem de volta, quando já parecia dar, viemos a conciliar o sono, com a paisagem pardacenta e a digestão das migas de espargos.
Como não te dissemos grande coisa ontem, dizemos-te agora, nesta carta aberta de Saudade, escrita a três mãos:
“Pai, tenho saudades tuas. Promete que quando voltares vamos brincar uma semana inteira. A mãe diz que está quase. Mas ainda falta “quase” um bocado” Camila
“Pai, ontem sonhei contigo. O Eugénio (o padrinho) tinha ido buscar o pai ao aeroporto e feito uma surpresa. Quando abri os olhos e vi o pai, fiquei tão feliz. Depois acordei e percebi que era um sonho. E fiquei tão triste. Tenho saudades do Pai. Muitas. E não quero dizer mais nada. Quero que volte.” Caetana
“Gonçalo, Muitos Parabéns! Sei bem o que te custa passar o dia de anos sem as miúdas. Elas têm muitas saudades tuas.
Mas o bom disso é saber que só sentimos muitas saudades das coisas que nos fazem muita falta. Volta rápido e bem.” Isabel

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Não vivo sem…

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Não vivo sem tempo.
O tempo que vive acima dos ponteiros do relógio, aquela medida unitária que faz parelha com o destino que me compete cumprir.
O tempo dos meus sonhos, das palavras encavalitadas no bico da minha caneta, das imagens que projecto na lente para as minhas memórias futuras.
Não vivo sem sentir o vento a empurrar-me contra os obstáculos de que me faço vida.
Não vivo sem amor desprendido, sem abraços apertados, sem poder dizer aos que gosto o quanto me fazem falta e sem sentir a falta que me fazem os que gosto.
Não vivo sem o desembaraço primário de achar que a vida é uma aventura mascarada de rotina.
Não vivo sem Liberdade, a mesma que dá prazer ao pé descalço, a mesma com que vejo de mãos dadas o tempo fluir, a mesma que me acorda em sobressalto para me lembrar que posso ser tudo.
A liberdade que me engasga os deveres e me acorda os sentidos para todos os momentos de prazer.
Não vivo sem o presente, aquele que é o agora sem a culpa do que poderia ter sido, e sem os complexos de tudo o que já foi.
Não vivo sem canetas, blocos, máquinas, bonés e as bugigangas que se estendem sobre os meus membros com a aspiração de serem tentáculos de mim.
Não vivo sem o colo do copo de vinho onde naufrago a minha poesia, nas noites em que sonho ser escritor. Nem sem os livros que me amarram a 1000 vidas que não conheci.
Não vivo sem música, sem a pauta curvilínea dos acórdãos que fazem banda sonora onde me encontro, onde vou, onde sonho e onde me faço pessoa.
E não vivo sem viagens, aquelas que vão ao fundo de nós, dos outros e do mundo.
Não vivo sem pessoas, os cofres máximos de inspiração, transpiração, fontes com a mácula máxima da vida, cortesãos da minhas letras.
E não vivo sem gargalhadas porque são o compasso mais saudável de existir.

*Enquanto embaixadora da RVCA e a convite da Ericeira Surf & Skate lançarem-me o desafio de escrever sobre o tema “Não vivo sem” ‪#‎naovivosem‬ e traduzi-lo numa fotografia. Falta o presunto:)

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Obrigado eu!

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“Boa noite, Isabel.
Prometo ser breve, não tomar muito do seu tempo. Quero apenas agradecer-lhe pelo que hoje fez, sem saber, por mim. Comecei a ler o seu blog há apenas dois dias. Muito sinceramente, já nem sei como a encontrei. A verdade é que as suas palavras foram o meu motor, o que me levou a por mãos à obra.
Há muito tempo que queria ter um projecto meu; queria começar algo – por as minhas ideias a dar frutos. Planeei mil e quinhentos blogs, entre outras coisas. Finalmente, após dois dias de leitura dos seus textos tão simples e complexos ao mesmo tempo, tão transmissores de calma, comecei finalmente a tratar de tudo. Tenho um nome para o meu blog, ideias, e muita força de vontade e compromisso. Obrigada. Sem saber, a Isabel ajudou-me a dar um passo importante. É isto que me fascina na Internet, nos blogs. Esta capacidade de ajudar sem se saber que é isso que se está a fazer.
Muito obrigada!!!”

Posso não conseguir responder a tempo a todos os emails, posso não ter tempo para responder a todos os comentários, mas acreditem que cada palavra que vocês me escrevem é combustível. E se ando tão positivamente acelerada, tenho que agradecer a cada um de vocês o fabuloso contributo para o meu depósito:) Obrigado eu!

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.
Ainda não sei bem o que é o que o tempo nos queria dar quando nos juntou. Não percebi o que é que a vida nos quis oferecer, nem o que é que nos tirou. Ainda não sei qual é a lição que vou levar do tempo. Nem por quanto tempo o vou sentir, com esse nome que se dá às coisas sem nome que se demoram em nós.
Não sei se o lucro infindável de tudo o que poderia ter sido, vai ser o melhor trunfo sobre tudo o que realmente foi.
Às vezes confunde-me não ter dor concreta, senão o vazio.
Ás vezes perco-me a recordar, sabendo que a minha imaginação generosa, convida e entrar no caos das memórias, cenas que nunca tiveram espaço, tempo ou circunstância.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Porque a paixão não é amiga dos arquivos, porque as borboletas não fazem ninhos em pastas de computador.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia porque a força do que é agora, não se deixa embebedar pela promessa do que pode ser.
Mas eu não me importo.
Nem me importo das saudades que tenho, porque lhes reconheço um capricho de uma história que não cheguei a viver.
Ás vezes procuro-te no amanhecer, só porque preciso para o meu sono um pouco da nossa escuridão.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.

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Lá fomos nós para a escola de motorista

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Comecei a segunda feira em grande.
A minha mão na mão papuda da Camila. Cabeça de mãe virada para trás, a acompanhar o andar lento, passado e elegante da Caetana que atravessa a passadeira como se pousasse para um anúncio da Donna Karan NY. Ela era madeixa alçada sobre a brisa à esquerda, ela era olhar atirado com desdém à direita e toda uma fila de carros à espera. Ela era a mãe desesperada com as calças de ginástica vestidas, um frio de rachar nos tornozelos e duas mochilas na mão. E o pigmeu da montanha a reclamar: – Não posso chegar atrasada…
Chegamos ao carro, despejamos as loiras e as mochilas lá para dentro. Entro no carro, rodo a chave e nada. Sem tempo para conjecturas sobre a mecânica ou o fim prematuro da viatura, sacam-se as loiras do carro. Abeiro-me da estrada e quando dou por mim, já a Caetana estava dois metros atrás a mandar parar um táxi, com o mesmo jeito nova iorquino da série: Dois dedos no ar, calcanhares levemente erguidos e gémeos em levitação. Entramos com as mochilas da Violetta, os cestos da comida e as loiras. Indiquei a direcção e lá fomos nós para a escola de motorista. No interior da viatura, a Caetana de perna cruzada elogia-lhe o conforto, enquanto a Camila passa as mãos pelo acento do motorista forrado a imitação de lã e diz:
– Que bonito mãe, que fofinho, temos que comprar um igual.
Chegadas à escola. Mochilas nas costas, um cesto em cada mão e um beijo rápido na testa: – Boas aulas filhas da mãe!
Aceno da Camila, resposta da Caetana: – Adeus mãe!
Vou dizer à professora que viemos de táxi.
E eu vim para casa chamar o reboque.

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Respirei Fundo, Só Isso.

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Não gosto de pôr demasiada pressão no último dia do ano. Há uma doce irresponsabilidade nas horas que achamos perdidas, que eu gostava seriamente, que continuasse a banhar o resto dos meus dias.
Estamos a 15 km da costa.
Hoje já fomos da terra ao Mar e do Mar à terra.
Já li os meus desejos para 2014, enquanto comia umas tiras de carne assadas na brasa junto à praia dos Aivados, já bebi um jarro de tinto da casa e comi uma mousse de chocolate. Já fui até praia do Salto brincar com as loiras, já tirei o instagram da praxe ao último pôr do sol. E não é que o criador se esmerou: acentuou os laranjas, reforçou os rosas, desenhou um set perfeito: uma maré baixa de prateados e pôs todas as poças da praia a reflectir o céu. Por uns minutos, as vozes enérgicas das loiras, enrolaram junto com a espuma do mar e eu consegui dar aqueles passeios solitários de 5 minutos à beira mar. Antes, eu achava coisa de velho melancólico, quando os via passar de mãos trancadas nas costas, passos arrastados a olhar o mar. Hoje, acho que já percebo. Um dos segredos da maturidade está sem dúvida na percepção do tempo. Não tive nenhum pensamento profundo nos 5 minutos que o criador fez reinar naquela praia, nas loiras à distância e no pôr do sol a enterrar no mar. Respirei fundo, só isso.
E tive a certeza que estou a crescer.

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Houve um tempo

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Houve um tempo em que a minha janela se abria para um labirinto de portas. Em que a vida era toda buffet e eu era toda recreio.
Houve um tempo, em que o tempo era amigo e parecia demorar-se comigo no não ser nada. Nesse tempo, em que o tempo era esquecido de si mesmo, eu era feliz.
Nada era, nada se impunha.
Sem ambição de coisa alguma. Sentava-mo-nos eu e o tempo e o labirinto de portas à nossa frente.
Houve um tempo, em que o olhar demorado sobre a janela não pedia mais nada. Nada mais, que o olhar demorado sobre a janela. Nesse tempo eu existia, respirava, inalava e sentia, sem grande responsabilidade sobre cada uma delas.
E sem pressão de coisa alguma, sem a ambição de ser alguma coisa, eu tinha a estranha impressão de estar sendo, essa janela aberta para um labirinto de portas.

Boa semana* (acho que se nota, que estou a convalescer de um estado febril)

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