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Não sou gaivota

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Uma das coisas que me dá mais saudade são os passeios por Lisboa.
De Alfama, e sem ser de barco, chegava ao Castelo em minutos e punha a mão no Tejo em segundos. Sem falar da vista, que o alcançava em todas as janelas. E o que eu gostava daqueles cruzeiros estacionados no beiral da minha janela, com aquelas luzinhas amarelas e toda a gente em pé, no convés da chegada. O que eu adorava a percepção da sombra gigante a anunciar a partida. Tinha sempre poesia de todos os ângulos, quer fosse o trânsito dos navios, o voo paralisado das gaivotas contra o vento ou o tejo cinzento e amuado nos dias em que chovia. Este ano que aí vem vou procurar nova morada. Talvez não recupere o Tejo na minha janela, talvez tenha a sorte do rio desaguar num mar ainda maior, ou talvez abra a porta para um jardim esverdeado, permutado sem esforço à calçada lisboeta. Seja o que for e onde for é de ir. Gosto de fazer morada em várias moradas. E nunca me assustou a mudança, o que me assusta sempre é a paralisia lenta de ir permanecendo igual sabendo que não sou gaivota.

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Um dia destes mudo-me novamente.

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Um dia destes mudo-me novamente.
Sinto saudades da Baixa e do rio.
Perdi-me de Alfama.
Onde acordo agora, chego a todo o lado, mas não vejo o rio.
Não vejo os barcos atracados, os navios a rasgar estrada, nem consigo que os olhos abracem a outra margem de mim.
Onde vivo, há muitas artérias e caminhos mas poucos lugares.
As pessoas têm pressas, até delas mesmas.
Onde habito, há demasiados escritórios e consultórios. Tenho um elevador que nos leva, mas poucas coisas há que me elevam.
Perdi-me de Alfama.
Onde as deito a noite cai deserta. Não há almas a passear nas ruas, nem namoricos sob a luz embaciada dos candeeiros.
Nem o canto rouco do bêbado conhecido.
Onde vivo há supermercados, farmácias e correios.
Mas ninguém nos conhece os gostos, as dores e as moradas.
Onde vivo se ficar doente, desço ao primeiro andar. Mas tenho a ingratidão das saudades, a chorar por uma constipação a olhar o rio.
Onde moro é tudo muito engomado. Tão contrário ao desapego de ti. Um dia destes mudo-me novamente.
Só porque tenho saudades do encosto entre as pessoas, das conversas de rua e de mim, ali.
Talvez me tenha perdido de Alfama.
Talvez isso me ajude a compreender o que se ausenta em mim.
É mentira se disserem que não gosto do aqui. Embalei tudo o que tinha.
E mesmo do rio, eu trouxe um bocadinho de sal para dar Tejo às minhas lágrimas. Maldição seria se a felicidade não fosse tão nómada como as coisas que mais amo neste vida.
Não desgosto de onde moro, só não te namoro da mesma forma e não me acostumo a viver sem ti.
*Shooting for Buenos Aires | http://www.buenosairesworld.com/

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