Blog Archives

RECTA FINAL….

13131612_1395236110502022_4125092960461252896_o

Estamos na recta final do ano lectivo. Percebi isso, pela dificuldade que tive em encontrar um explicador de matemática que elevasse a negativa da Caetana para um Satisfaz. Também percebi isso pela súbita inflação do brio das minhas crias, na realização das tarefas propostas pelas professoras e percebi por acréscimo, que vem aí um tornado de 3 meses de férias….que é um rival à altura da negativa a Matemática. Aliás, não sei se a dificuldade da equação não o suplanta. Sem apoio de retaguarda é uma sensação de semi-pânico pensar em ocupar duas crianças durante 90 dias. Prolonga-las em Atl´s na escola, soa-me logo a namoro prolongado sem a chama da paixão, é preciso muda-las de cenário e pedagogia, afinal de contas, é para lá que regressarão no final da minha pena:)
Arrasta-las comigo é impensável, mantê-las em casa é um cenário de terror. Quando penso nas ocupações de tempos livres imagino-me, no mesmo transfer matinal, só que com menos roupa, se contarmos com a benevolência tardia do verão. E depois, não posso esquecer que há sempre lanches, material obrigatório e um cem número de tarefas para cumprir que fazem de mim uma espécie de mãe escuteiro.
Googlei “campos de férias longe” para ter a certeza que a motorista cá de casa apenas teria que cumprir o ponto de partida e o de chegada, mesmo que elas tenham que sair de casa naquele dia, com o saco de cama, a mochila oversized, o cantil preso no cinto, o casaco de frio atado à cintura e as chinelas enterradas à força no único bolso disponível.
Imagino-lhes logo o sorriso alado distribuído universalmente pelo rosto, a dimensão da aventura, o desbravar de novos mundos, os amigos estreantes, os hinos do campo à volta da fogueira, a roupa suja a acumular num saco e o meu sono, isento de insónias, livre de culpa, carregada de opções, com laivos ligeiros de saudade e muito vinho branco.
Quando era pequenina também tive que andar a sprintar a matemática.
Mas se há uma disciplina, que nunca nos ofereceu dificuldade cá em casa, e que nos lembra que no final de contas (estejam elas certas ou erradas) somos todas filhas da mesma mãe é o Estudo do Meio.
E mesmo que inferiorizado pelos seus pares, a verdade mais absoluta, é que não há Fim que valha, se não tivermos o Meio certo. heart emoticon

Comentar

MATRIOSKA DA CULPA

A-Matrioska-da-Culpa

É tão fácil encontrar mulheres guerreiras que quase nem damos por elas.

Elas estão ao nosso lado, em todo o lado, afundadas em pressas e pensamentos.

Elas passam por nós, nos corredores das escolas, nas ruas e fintam-nos no supermercado.

Elas conduzem ao nosso lado e às vezes até nos insultam.

Elas entram nas nossas casas como ajudantes, explicadoras, estafetas, amigas, vendedoras, familiares ou mais distantes. Erguem, levam, limpam, trazem, vendem, dão, tiram e fazem. Fazem tanto, todos os dias, que quase não dá para lembrar quando lhes perguntam por tudo o que já fizeram.

Tento olhar o rosto de cada uma delas, quando me dão hipótese sorrio, e se me deixarem falo. Sinto uma dívida tremenda com todo esse corrupio, sinto uma cumplicidade entranhada, na culpa que todas carregamos, dizendo ao alto que é leve, que é bom e que está tudo bem! Vejo-as sair à pressa, vestir à pressa, dormir à pressa, comer à pressa. Sinto-as a esgrimir a culpa do tempo que não lhes sobra e a negociar as sobras com o tempo que não têm. Estas mulheres já nem sabem se respiram. Vivem na dilatação diária das suas tarefas, imersas na imensidão dos papéis que assumiram, sem falas decoradas ou tempos de preparação. Eu sinto-me mal por não conseguir acudir, sacudir-lhes o peso, dar-lhes a nota graciosa do tempo, e a possibilidade de gozarem apenas o compasso da sua respiração.

Ás vezes confunde-me, que me possa ter perdido entre elas tentando o mesmo. Ás vezes penso que a pressa é um refúgio que a consciência dá ao coração, para que não se sofra tanto, por tudo o que não se consegue tentando. Estas mulheres habitam-nos sempre. Como um matrioska da culpa desdobrando-se em infinitas gerações. E ainda que nunca se tenha almejado um exército e ainda menos uma guerra. Não se pode nunca ignorar a quantidade de guerreiras que passam sem respirar.

*http://mariacapaz.pt/cronicas/matrioska-da-culpa-por-isabel-saldanha/view-all/

Comentar