Blog Archives

CARAÇAS PARA AS LOIRAS!

12622491_1300401216652179_1658288246643611810_o

Ajuda, não ajudando, que as crianças das fotografias sejam um bem passageiro, de desfrute imediato e sorriso congelado para a a doce recordação.
Já as minhas loiras….caraças!
Parecem duas bolas de fogo em colisão com a terra. A mais velha desafia-me com enredos semânticos, com olhares pontiagudos e amuos súbitos, só passíveis de serem justificados, ao abrigo de uma cláusula que não me recordo de ter subscrito. Argumenta com um vocabulário tão rico, que às vezes, dou por mim, arrependida por todo o estímulo que fiz à leitura. E é de tal forma insistente, que me drena a motivação para o diálogo, que é uma proteína rica em mim.
Talvez me tenha demorado demasiado a viajar ou talvez esteja ainda mais demorada a aterrar.
A mais nova também é herdeira de boa sintaxe, mas como é bera, prefere a força acutilante das expressões mais curtas. Nunca vi ninguém trancar-se tão rápido. Às vezes penso que o melhor seria dar-lhe palmadas nas costas para desprender o cadeado. Rosna na mínima contrariedade e acelera o passo de braços cruzados e andar à soldado, assim que lhe dou um comando, que não se ajusta ao seu espaço sideral.
Não lhe querendo dar uma dimensão interplanetária, vou amaciando para mim mesma, a tese de que tudo, não passa de uma fase, que elas não terão encravado numa constelação qualquer, que as estrelas continuam a brilhar e que a terra gira todos os dias à volta do sol, mesmo quando ele se disfarça de lua.
Teria ajudado à minha missão que o transporte destes sorrisos de São Tomé aterrasse em solo mais acolhedor.
É curioso, mas hoje, sinto-me um astronauta cuspido à pressa da nave mãe.
Os movimentos parecem fluídos, quase etéreos, mas às vezes demora anos de luz, até que os pés se detenham novamente no chão. Resta-me a certeza que a gravidade do Espaço não permite que as lágrimas caiam, diminuindo a ironia da gravidade de tudo o que se passa na terra.
E daqui de cima a vista é maravilhosa! heart emoticon

Comentar

AS ESPINHAS DO OFÍCIO

12465784_1294937960531838_5925029320643777982_o

Tenho um tremendo respeito pelos pescadores, admiração será melhor palavra. Respeito, tenho por todos aqueles que se atiram a remover a terra e ao mar revolto em busca de um sustento.
Mas há uma sensibilidade fina mascarada de rudeza em cada aldeia de pescadores. Há uma timidez feita de cal e esforço que suspende o sorriso fácil. Há muita marca no corpo a lembrar o desfecho de uma história que se quis diferente.
No emaranhado das redes adivinham-se as correntes da vida.
E em cada nó apertado da linha prende-se a fome, a vontade e a incerteza.
Comecei por lhes pedir se podia fotografar as mãos.
As mãos de um pescador são os seus olhos.
Deram-me um “sim” rouco e continuaram a costurar de pé, com os pés descalços sobre uma cordilheira de redes coloridas, como se fossem costureiras apressadas antes do baile final.
Há muita poesia na pesca.
As aldeias de pescadores têm o perfume das escamas, misturado com as entranhas do mar a secar na areia, mas a mim encantam-me. E nada me constrange no seu silêncio, porque eu sei que por dentro, todos trauteiam na mesma canção.

Comentar

No Ginásio

12291814_1259341050758196_504432449843383983_o

Hoje deixei as loiras na escola e segui para o ginásio.
Não devia ter levado o telemóvel, com a desculpa da minha playlist, porque recebi uma chamada de uma amiga e fiz 45 minutos de glúteos, que era basicamente a única posição possível para segurar o telemóvel e continuar a fazer qualquer coisa pela vida.
Tive uma hora no ginásio. Desci aos balneários, tomei banho e fui para o meu cacifo arranjar-me. Disse bom dia à rapariga de fio dental que se secava ao meu lado. Não respondeu.
Inquieta-me sempre a não reciprocidade na simpatia.
Mas cada um escolhe como quer viver. Nisto chega uma rapariga gordinha de sorriso rasgado, diz bom dia, eu respondo com um sorriso, o fio dental fica calado.
Concentrada que estava, desvia o olhar de soslaio e continua a colocar o creme. O cacifo da gordinha era colado ao da fio dental. e enquanto arfava a abrir o cadeado e salta-lhe uma fita grossa para cima da miúda calada. Pede desculpa, meio atrapalhada, meio sorridente. Eu sorrio, são coisas que acontecem.
A miúda do fio dental sacode para o chão, a fita que lhe cai sobre o peito. E suspira. Talvez desejasse a tranquilidade de um ginásio só dela, imagino. Debruça-se para fechar as botas, visivelmente apressada, muito provavelmente para se meter na sua nave e fugir ao contacto com a humanidade. Nisto, a gordinha nervosa deixa cair a toalha presa na porta do cacifo, sobre as costas do fio Dental. Baixa-se imediatamente, rindo de si mesma pela sucessão de trapalhadas. Olha para mim em busca de empatia e eu devolvo-lhe um sorriso grande. Há dias em que tudo nos cai. A miúda do fio dental levanta-se, agarra na toalha com a mão fechada, volta a coloca-la sobre a porta do cacifo com brusquidão e diz: – Estou bem aqui?
Não resisti e respondi-lhe: – Acho que só você é que pode responder a isso.
(Suspirei, igualzinho a ela e fui-me embora para a minha nave).

Comentar

MATRIOSKA DA CULPA

A-Matrioska-da-Culpa

É tão fácil encontrar mulheres guerreiras que quase nem damos por elas.

Elas estão ao nosso lado, em todo o lado, afundadas em pressas e pensamentos.

Elas passam por nós, nos corredores das escolas, nas ruas e fintam-nos no supermercado.

Elas conduzem ao nosso lado e às vezes até nos insultam.

Elas entram nas nossas casas como ajudantes, explicadoras, estafetas, amigas, vendedoras, familiares ou mais distantes. Erguem, levam, limpam, trazem, vendem, dão, tiram e fazem. Fazem tanto, todos os dias, que quase não dá para lembrar quando lhes perguntam por tudo o que já fizeram.

Tento olhar o rosto de cada uma delas, quando me dão hipótese sorrio, e se me deixarem falo. Sinto uma dívida tremenda com todo esse corrupio, sinto uma cumplicidade entranhada, na culpa que todas carregamos, dizendo ao alto que é leve, que é bom e que está tudo bem! Vejo-as sair à pressa, vestir à pressa, dormir à pressa, comer à pressa. Sinto-as a esgrimir a culpa do tempo que não lhes sobra e a negociar as sobras com o tempo que não têm. Estas mulheres já nem sabem se respiram. Vivem na dilatação diária das suas tarefas, imersas na imensidão dos papéis que assumiram, sem falas decoradas ou tempos de preparação. Eu sinto-me mal por não conseguir acudir, sacudir-lhes o peso, dar-lhes a nota graciosa do tempo, e a possibilidade de gozarem apenas o compasso da sua respiração.

Ás vezes confunde-me, que me possa ter perdido entre elas tentando o mesmo. Ás vezes penso que a pressa é um refúgio que a consciência dá ao coração, para que não se sofra tanto, por tudo o que não se consegue tentando. Estas mulheres habitam-nos sempre. Como um matrioska da culpa desdobrando-se em infinitas gerações. E ainda que nunca se tenha almejado um exército e ainda menos uma guerra. Não se pode nunca ignorar a quantidade de guerreiras que passam sem respirar.

*http://mariacapaz.pt/cronicas/matrioska-da-culpa-por-isabel-saldanha/view-all/

Comentar