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FALHEI MUITAS VEZES

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Mães trabalhadoras e a carreira profissional? Será mesmo reconhecido o nosso esforço, pela sociedade, família ou amigos, ou na verdade, dizem-se coisas bonitas, mas todos pensam “tiveste-os? Agora, desenrasca-te”. (Um comentário que me deixaram há meses num post e que foi o mote para este texto)

No dia em que decidi ser mãe, não sabia a extensão da minha decisão.
Nunca, enquanto lhe fantasiávamos as feições ou decorávamos o quarto, falámos de forma detalhada do impacto real que o nascimento da nossa filha, teria nos vários quadrantes da nossa vida.
Pensámos sobre isso como faz toda a gente na iminência de uma grande mudança. Mas nunca quis esmiuçar numa folha de Excel os prós e os contras de um filho.
Queria ser mãe, queria tê-la nos meus braços, nos nossos braços e na nossa vida.
Atirei-me para frente, com a confiança, que nunca achei ingénua, de que o amor ajuda sempre a responder às questões que ainda não sabia levantar.
Se calculasse o índice de conforto, a logística e o desgaste financeiro das principais decisões da minha vida estava lixada.
Como já fui mãe duas vezes, posso dizer que já vivi a maternidade em circunstâncias de carreira completamente opostas: Enquanto assalariada, desempregada e enquanto trabalhadora independente.
E foi nesta última condição, que me separei (e não o motivo), a passar recibos verdes, à rasca que o pouco rendimento recolhido, me lembrasse constantemente da inconsciência das minhas escolhas.
O caminho é ainda mais difícil que a escolha. E nada se faz inteiro, só porque se quer segurar na mão as duas metades:
A dedicação a um trabalho que nos realiza e o colo certo a um amor que nos amarra. Falhei muitas vezes em cada uma das metades. E aprendi a ver nas falhas uma forma de amor.
Só assim é possível continuar a tentar, a cair e a erguer. Ainda não somei tudo o que ganhei, na subtracção das certezas que também perdi. Mas há uma coisa que eu sei:
Nunca conseguiria ser a mãe que sonhei, se deixasse de acreditar na mulher que sonhei para mim.

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#NÃO AO MEDO

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#NÃO AO MEDO

Devia escolher esta imagem para ilustrar um momento mais feliz, mas não dá para sobrevoar o que está a acontecer…e continuar planando sobre o ar quente dos dias, só porque o bafo que nos sustenta teve a sorte aleatória da melhor hora, do local certo e da circunstância boa.
E não dá para querer cortar as asas de quem sonha voar para longe de um chão que não o deixa crescer, poisar sequer, ou semear.
E menos ainda, desconfiar de quem quer ser livre, só por quem nunca sentiu antes, a asfixia da liberdade.
Nestes dias, em que ficamos com poucas certezas, encontro na forma como as educo, a minha pista de descolagem.
A consciência da sua dimensão na dimensão do mundo. A importância das suas acções na condução do seu destino. A crença na humanidade. O amor aos outros. A luta pela liberdade. A defesa da igualdade. E o amor à terra. E se der para ir mais longe no meu vôo de mãe, quero muito, que os seus sonhos tenham a força de duas asas e que nunca tenham receio de se elevarem por aquilo em que acreditam.
Porque o céu não tem arame farpado, o sol não é uma estrela privada e o medo não ganha à força da Liberdade.

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Os sonhos são meus

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Nunca quis ou desejei, ter uma filha que se parecesse com aquilo que sou, ainda menos, com aquilo que ainda não sou.
Ou dito de outra forma, com aquilo que sonhei de mim para mim.
Nunca projectei ao redondo da minha barriga a execução plena dos projectos que vou deixando em stand by.
Os sonhos são meus.
Cabe-me a mim a divisão árdua do tempo e o risco de decidir como me quero fazer pessoa. Não me passa pela cabeça deixar sobras dos meus talentos na esperança de as colher maduras num filho. Nem me lembro de alguma vez ter olhado para as minhas filhas à procura das parecenças nas coisas boas que admiro em mim. Quando elas despontam, despontam. Como a graça de um raio de sol num dia carregado de nuvens. Ou os pingos de chuva numa tarde tropical. Ou uma máquina fotográfica a tremer na mão pequena. Ou um poema ritmado escrito com erros repetidos.
E outras graças hão de despontar nelas, que nunca nasceram em mim.
Não ignoro a influência que tenho, sobre o mundo que sonham e a forma como se moldam a partir de mim. Sou fotógrafa e gestora e escritora e conspiradora, mas o que eu gostava mesmo é que elas conseguissem ver a vida sem filtros, que amassem as pessoas inteiras, com todas as suas linhas, desalinhas e imperfeições. Gostava que amassem o belo, sendo a verdade das coisas a beleza na sua essência mais sólida. Gostava que conspirassem muito, para alargar a visão dos factos, para além dos factos em sí. Gostava muito que soubessem construir com as palavras certas, as metáforas que mais se ajustam às suas vidas. E gostava muito, que um dia, quando tivessem filhos, se assim o desejarem, se lembrem que ninguém faz de alguém, alguém, sem se fazer a si primeiro.
E o Mundo precisa disso, de pessoas inteiras. Para os sonhos não virem às parcelas, só porque nos fizemos pequeninos para sonhos maiores.
Mas isto é só um sonho.
E os sonhos são meus.

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Preciso de me encostar por quinze dias.

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Preciso de me encostar por quinze dias.
Eu, que nunca consegui ficar quieta no paraíso, já só sonho com água mole e areia amaciada.
Um trópico qualquer, onde eu possa despojar o meu esqueleto e praticar o desapego. Talvez esteja na hora de fazer rodar o globo. Impor-lhe a tirania do meu contra relógio e empacotar a roupa de algodão em montinhos finos.
Está na hora de fazer o marcador do livro galopar sobre as trincas da palinha ao sol. Derreter-me a ver o gelo fazer o mesmo no meu copo, e dormir sem o sobressalto da hora marcada e do atraso permanente.
Preciso mesmo de me encostar.
Antes que os “com licença” da vida me forcem a desviar.

*Shooting Milão | Cristina

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EU QUERIA…

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Fazia lá ideia do tipo de mãe que ia ser.
Nunca pensei muito como é que iria educar uma criança.
Talvez tenha ajudado à equação, ter sido ainda muito criança quando resolvi ter uma.
E para falar na mais pura das verdades, não me lembro de ter lido um livro só que fosse sobre a matéria, com medo de me ter que virar ao contrário e ficar com a etiqueta de fora.
Para elas, tinha sonhos iguais aos que se efabula quando colocamos o olhar sobre um terreno imaginário onde vamos edificar uma casa.
Queria que fossem soltas como o vento quente, que não tivessem medo das pessoas, que aprendessem que a vida é um diálogo fabuloso que se constrói entre os sonhos e a realidade, queria que ousassem muito, como se em cada fim houvesse um começo de alguma coisa nova. Queria muito que se sujassem, que experimentassem os arrepios de andar descalças sobre o cru da vida, queria que vivessem mais do meu sol, que do consolo da minha sombra, queria que se invadissem sem pedir permissão, que utilizassem o corpo como a materialização imperfeita das suas metas, queria que amassem e perdoassem, com a espontaneidade com que respiram, que curtissem as diferenças que o mundo lhes oferece, sem nunca desconfiar das cores que ainda não conhecem, queria que se sentissem senhoras de si, antes de querem ser donas de outra coisa qualquer.
E queria que percebessem a sorte que têm de ter ao lado quem sonha tudo isto para elas.
E sim, queria que fossem filhas da mãe, na gargalhada, na força com que defendem os sonhos, na garra com que lutam pelo que lhes escapa e na forma como defendem os que ama.
E queria que à noite dormissem sempre tranquilas e que a respiração apenas lhes lembrasse, que tudo o que ainda não foi hoje, pode vir a ser amanhã.
Assim como eu faço quando adormeço, com tudo o que ainda sonho para elas.

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Um mês intensivo de loiras

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E agora que estou na recta final de um mês intensivo das loiras o que é que me apraz dizer? Sem filtros e com toda a honestidade que devo à minha existência singular, aleatória e privilegiada nesta terra: – Estou estafada…Já não tenho imaginação para conceber refeições diferenciadas, já esgotei o meu repertório de histórias de embalar, já drenei a minha capacidade de montar kits matinais e de andar à procura de sapatos solteiros, de dar banhos, secar dos banhos, despiolhar, pentear, amaciar, dar de jantar, planear as lancheiras, separar os almoços, descascar fruta, comprar manhãzitos, estrelitas e chocapic´s, como quem vai viver para um abrigo nuclear. Estudar, mimar, dar, estar, preparar, salvaguardar, ir buscar e levar, e todos os outros verbos irregulares que fazem da mais nobre actividade de mãe, a mais cansativa delas. Estranhamente, e com saudades depuradas da minha semana alternada, superei-me. Consegui manter a minha integridade e a das crianças. Arrisco dizer que me descobri no domínio de faculdades e competências que ou eram inexistentes ou estavam adormecidas. E mesmo naquelas noites em que tudo o que sonhava era com o vosso sono, eu acordava no dia seguinte, com toda a energia reposta para ser vossa mãe outra vez.
O amor que vos tenho é um filho da mãe, fibroso e resiliente. Resmunga como um velho chato, reclama com a histeria de uma donzela “apanicada”, esperneia como uma criança apertada, mas supera-se, na sua ousadia cresce, nas minhas costas fermenta e para meu espanto suplanta-se.
E a cobro do desejo mais insólito de provar a minha incapacidade para o exercício, e sem cair no exagero de dizer que nasci para isto, descubro na constância do vosso amor, a inconstante certeza do meu.

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