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E AGORA? COMO É?

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Uma das minhas melhores amigas separou-se há umas semanas, nesse dia ligou-me a dizer que tinha consumado a decisão com uma conversa directa e assertiva. Não hesitou, não vacilou e a voz não lhe tremeu. O seu discurso emanava na velocidade o “cagaço” óbvio da decisão. Deixei-a falar, deixei a discorrer sobre os motivos, revendo-os, como se reforçasse para sí mesma a certeza da sua acção. Quando lhe começaram a escassear as palavras, quando a voz cansada se enramelou de dor, senti-a respirar profundo e soletrou: – E agora? Como é?…
Não gosto de conselhos vagos em situações difíceis. A amizade compadece-se das melhores verdades. E agora?
Agora vai ser difícil. Vai ser diferente. Mas vais conseguir. Como eu consegui.
Nos próximos tempos vais rever muitas vezes os motivos, vais ser atravessada pela incerteza de tudo o que deixas para trás. Vais ter medo. E vais te sentir irremediavelmente sozinha, mesmo quando tiveres rodeada de todos os que gostam de ti.
Mas tu estavas sempre tão bem disposta…?
Parecia eu sei. Mas sabes, convém fazer uma certa cerimónia com a dor. Dá-lhe espaço de manobra para o teu próprio crescimento, mas lembra-la sempre, que quem comanda o rumo das coisas és tu. E que a decisão que tomaste tinha como Norte, ser mais feliz.
Sabes que a separação, faz-me sempre lembrar o pânico que nos assalta quando mudamos de casa, e nos encontramos sozinhas entre os caixotes espalhados pelas divisões. Parece tão titânico o esforço, que a vontade de abraçar a nova morada é substituída por uma vontade súbita de ir dormir para um hotel. Os caixotes têm escrito o que contêm, foste tu que os arrumaste, lembras-te? Parecem muitos, demasiados e és só tu. Os teus braços e os teus olhos só alcançam o esforço de tudo o que há para fazer. Não faças nada hoje.
Deita-te entre os caixotes, no colchão improvisado da tua decisão. Amanhã quando acordares e começares a desembrulhar devagarinho, os despojos dessa guerra, parecer- te-ão as primeiras tábuas da ponte que mandaste construir. E devagarinho a ordem normal das coisas que conheces, dar-te-á a confiança que precisas para enfrentar o que ainda não conheces.
E agora?
Agora chora um bocadinho. Que não se muda uma casa sem se lavar o chão.

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Atestada de amor

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O pai das loirinhas está fora por um mês.
Acima da boa diplomacia, uma franca amizade, e como era trabalho, e não uma escapadela furtiva as ilhas Fiji, condescendi (se bem que sou sensível ao argumento das viagens furtivas e não havia propriamente outra mezinha).
O que significa que a custódia partilhada passa a ser total, por 30 dias úteis e inúteis.
Tenho a certeza que o pai das loiras já sabe que vou exercer esse crédito em igual desproporção:) Ainda não sei se vou permutar por 2 meses na Índia* ou por idas semanais ao SPA.
Até lhe disse, ao jeito de brincadeira, que ele não me podia fazer isso, porque eu corria o risco de me afeiçoar.
Afeiçoada eu já estou. A elas e aquela pausa negociada que nasceu do fruto da nossa separação. Devia respirar compassadamente, mas estamos a meio da “experiência” e eu já arfo.
A respiração ordeira dos primeiros dias, os gestos delico-doces, o gosto das primeiras fichas de férias e o leito partilhado a três é intervalado com doses intermitentes de impaciência.
É certo que vocês sabem que eu vos amo incondicionalmente, daí a corrupção ao desvario deste meu lar. Quando entro em casa ergo logo as mãos ao jeito de rendição e quando vos beijo antes de dormir, adormeço os meus desejos no prolongamento do vosso sono. Tenho tentado ser ambos, safa-se, mas não safa tão bem.
Dar-me-ia uma certa soberania sobre a tarefas se vocês não andassem sempre atrás de mim como os filhos de uma pata.
Deve ser reflexo óbvio da falta do Pai Pato.
Quando falamos com o “daddy” por Skype tenho vontade de as empurrar para dentro do monitor. E tenho a certeza que o olhar enternecido do progenitor, se faria real, se as pudesse receber do outro lado.
Isso consola-me e segura-me.
Ainda não lhes perguntei esta semana se sou boa mãe.
Não vou arriscar a demência da culpa de tentar ser tudo.
É o amor. Ninguém disse que era incólume.
Esta é a vossa mãe. Meio avariada, meio desvairada mas atestada de amor.
E sim pai, elas sentem muito a tua falta.
E creio que a mãe Pata também.
P.S:* India, já decidi:)

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Dias Felizes

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Já foste difícil, tão difícil, que cheguei a dizer ao teu pai, em jeito de brincadeira, que nos concentrássemos apenas na Camila.
Quando estavas confinada à minha barriga, não me fiz rogada, e fartei-me de pedir ao criador que te inundasse de características boas, que te banhasse de qualidades ímpares, que me facilitasse a vida com um ADN propenso à auto-suficiência e muito amor próprio. Tentar não custa. E quando nasceste, quase como castigo, achei-te feia, muito peluda, magra e demasiado chorona.
Amei-te logo, porque se ama sem fronteiras o que é nosso. E ri-me, ri-me de ter sido tão tonta a desenhar-te as feições, a moldar-te o carácter, como se eu fosse alguma oleira de jeito.
O tempo foi passando, foi voando, foi correndo, e tu foste-te fazendo dentro do meu aquário. Com um ano, já eras uma boneca, com uma destreza física tão grande, que se te reclamassem para o circo, cederia como uma dádiva à humanidade. Falaste cedo, andaste cedo e seduzias qualquer criatura que se abeirasse, com uma gramática e um raciocínio tão adulto, que às vezes dava vontade de te desmontar só para te ver por dentro.
Entraste aos trambolhões na 1º classe, rebolaste sobre a separação dos teus pais, e com a mesma destreza com que fazias o pino, ergueste-te sobre tudo o que te doía, com uma força tão grande, que hoje, já acho que és mais alta que eu.
Nunca mais pedi nada ao criador, que não fosse a possibilidade de te amar de perto.
E ontem, quando me mostraste o teu primeiro conto com 6 páginas e 800 caracteres, quando me abraçaste enquanto lia, por entre erros e palavras adultas, e me disseste ao ouvido:
– Quando for grande, quero ser escritora mãe. É isso mesmo que quero ser, escritora.
Fiquei tão orgulhosa de nós e tão grata a vida, que vou inscrever a data no meu calendário dos dias felizes.
E se amanhã, mudares aquário, de sonhos e de ideias, porque a vida é um palco. Acho que sabes, que vou amar os teus desvios e as tuas rectas. E que prometo, manter a capacidade de te LER entre os erros e as palavras adultas.

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Ou vai ou racha

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Não fotografo muitos casamentos.

Nem tenho forma possível, de garantir que os que fotografo duram até ao fim. Sei que se pudesse, incluía no Pack dos serviços um voucher para a eternidade.

Gosto de pensar, falar e escrever sobre o Amor, mas é difícil adjectivar uma palavra, que se auto-define de forma tão hermética, que cada um tem a liberdade certa, de o sentir à sua maneira, sem que esta nunca perca o direito de se chamar assim, Amor.

Hoje num almoço com um grande amigo, trocávamos opiniões sobre o divórcio. O divórcio não vive nos antípodas do amor, mas por norma acontece quando alguém deixa de amar, embora a sequência de acções que o desencadeiam, seja muitas vezes, de índole menos nobre, que a pura escassez do sentimento. Quer eu, quer o meu amigo, somos filhos honrosos da triste estatística. Cada um com a sua valsa, cada um com a sua história, cada um dono da sua narrativa, maestro ou orquestrante do seu fim.

Não se perdoa uma vida sem amor, por isso é tão fácil de encetar uma conversa sobre um relacionamento, copulando-a convenientemente à drenagem do sentimento.

Sou uma liberal, serei sempre uma liberal, no sentido mais moralmente lato da definição. A que permite que o ser humano seja senhor do seu destino, da sua liberdade e da pureza das suas opções, mesmo que algumas sejam inconvenientes à conveniente felicidade dos outros.

Não sei qual é o recheio do amor, tenho sempre medo de o partir, mas tenho a certeza que há um inquilino gigante que vive lá dentro, a Verdade. E mesmo quando a verdade dói, ela é sempre merecida, nem que seja apenas, porque é pura e limpa, como o amor que move os homens, que se movem pelas melhores razões.

Hoje ao almoço, liamos numa estatística da Pordata (INE-DGPJ/MJ) que em 1960, 1% em cada 100 casamentos acabava em divórcio, e que em 2013 esta percentagem disparou para 70,4%.

Com alguma ingenuidade poderia acreditar, que isto só aconteceu porque as pessoas são mais verdadeiras, mas a vida já me lavou os olhos.

Também não acredito na voz monocórdica, do arauto da desgraça, que apregoa o síndrome do egoísmo, os vícios da sociedade moderna e as tentações da era digital. Acho que nunca saberei bem porque é que o amor acaba. Mas é sempre uma morte que me entristece.

Porque é que há casais que se enroscam no enlace narrativo da vida, até velhinhos? E outros, que se desenroscam na primeira curva apertada da vida? O que sei, é que cada vez que vejo dois velhos apaixonados, invejo-os. Mesmo ignorando, que se conheceram numa excursão ao Machu Pichu no verão passado.

O amor não é uma opção, é um sentimento. Não se faz download, nem upload de novas versões. Nem se desinstala, só porque se quer. Ele vem quando quer, e parece que parte da mesma maneira.

E se às vezes não parte, acho que é porque a vida deu a esses sortudos, o engenho do melhor nó da vida, o mesmo com que se amarra uma mãe a um filho.

Um dia, também vou ser uma velhinha agarrada ao meu velho. Também eu, farei as delícias da juventude em turismo, na digestão de um almoço angustiante.

E nessa altura, o peso leve do meu corpo envelhecido, não vai sentir o peso profético da estatística.

Serei só eu e tu, na “insustentável leveza do ser”, com um recheio de verdade, e um nó feito para a eternidade.

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