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Sentir

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Dizes que não percebes porque é que ela não chora quando o pai vai embora. Dizes com voz ferida, que ela não sente. Que quem sente fala, que quem sente, diz. É difícil para mim explicar-te que há pessoas que sentem, mas não falam do que sentem, que choram por dentro, que gritam por dentro, mas que não mostram aos outros. A tua irmã é diferente de ti. Tem a mania que é durona, mas sente, tem a mania que é seca, mas chora. E acredita, que sente igual a ti, a falta que o pai lhe faz. Eu sou das que sente, mas já fui das que cala. Agora deixo o sentimento falar em voz alta, não o filtro, não o travo e não o encomendo. Mas já fui assim, durona. A última a deitar a lágrima. Como se no final fosse receber uma medalha de valentia. E já senti muita inveja de quem chorava com o corpo todo, quem enlameava a cara de lágrimas e não escondia o inchaço dos olhos cansados. Depois aprendi a disfarçar a dor com alegria, tornei-me palhacinha das minha emoções, aquilo que a tua irmã às vezes faz, quando não suporta o peso do que carrega.
Aí maquilha-se a tristeza de piada, exclamam-se frases de motivação, ergue-se o peito para a frente, levanta-se o queixo e desafia-se o medo de sentir.
Tu não. E eu também te adoro por isso, tu choras quando sentes e ris quando tens vontade. Mas não és melhor que ela por isso, és diferente. E nós precisamos uns dos outros, para não nos afundarmos todos num abraço que tem mais de peso que de bóia. Acho que temos sorte cá em casa. Para cada peso, haverá sempre duas medidas. E assim a saudade estará sempre de mãos dadas com um sorriso.

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O amor é fermento mas…

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Sempre ouvi dizer que um dos alicerces das melhores relações é a Admiração mútua. E é das coisas mais bonitas de se sentir, de se ver e de se ouvir. Às vezes esquecemo-nos de o fazer na esperança que a vida compense nas suas várias valências.
Mas um elogio de quem é próximo é como comida caseira.
Vá lá, diga-lhe o quanto está gira hoje. Elogie-lhe as capacidades de fazer acontecer. Tire-lhe uma fotografia espontânea e diga-lhe nos olhos o “gato” que ele é.
O amor é fermento, mas só vai dar pão se for bem amassado.
Parabéns Nuno Neves e Inês Franco, está na cara, o quanto vocês se admiram e na barriga o quanto vocês se amam:)

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.
Ainda não sei bem o que é o que o tempo nos queria dar quando nos juntou. Não percebi o que é que a vida nos quis oferecer, nem o que é que nos tirou. Ainda não sei qual é a lição que vou levar do tempo. Nem por quanto tempo o vou sentir, com esse nome que se dá às coisas sem nome que se demoram em nós.
Não sei se o lucro infindável de tudo o que poderia ter sido, vai ser o melhor trunfo sobre tudo o que realmente foi.
Às vezes confunde-me não ter dor concreta, senão o vazio.
Ás vezes perco-me a recordar, sabendo que a minha imaginação generosa, convida e entrar no caos das memórias, cenas que nunca tiveram espaço, tempo ou circunstância.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Porque a paixão não é amiga dos arquivos, porque as borboletas não fazem ninhos em pastas de computador.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia porque a força do que é agora, não se deixa embebedar pela promessa do que pode ser.
Mas eu não me importo.
Nem me importo das saudades que tenho, porque lhes reconheço um capricho de uma história que não cheguei a viver.
Ás vezes procuro-te no amanhecer, só porque preciso para o meu sono um pouco da nossa escuridão.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.

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Muda tudo Maria

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A minha Mariana nasceu ontem.
E tu Maria, sem que saibas, também.
Ainda não te consegui ver, nem falar.
Mandaste uma mensagem por Whatsapp com a fotografia cortada da miúda e desapareceste para dentro de ti própria, para esse casulo tão monopolizador quanto doce que são os primeiros dias de mãe.
E agora, perguntas tu?
E eu tenho quase a certeza que agora que a vês, já tens parte das respostas que querias para ti. Muda tudo Maria.
Perguntaste-me assim que soubeste que estavas grávida, como é que a vida muda? Toda a gente te dizia que era para melhor Maria. Mas tu estavas desconfiada que a conspiração feminina escondia umas tantas verdades. Muda mesmo muito Maria.
Mas não há nada que te possa acrescentar que não vás sentir.
A Mariana é como todos os filhos um Barco pirata. Vem com magia, traz cor e ritmo, histórias e fantasias, na proa o desejo e um convés carregado de tesouros e especiarias. Vai-te apaixonar, elevar e arrebatar. Sem que notes, vai-te levar o tempo, mascar-te as rotinas de amor, sacar-te liquidez a rodos, a troco de mimo, e tu vais deixar, como eu já deixei também e todas nós deixámos.
Quando deres por ti Maria, o tu que eras na singularidade é hoje um plural de vida, e tudo o que conhecias ganha uma forma diferente de ser. O melhor que muda é a força com que tu vais querer mudar tudo. E mesmo nos dias em que o Pirata pequeno parece o monstro Bojador, tu hás de amá-la acima de qualquer estrofe.
E o que sentes agora por esse ser pequenino que te era estranho, será talvez, a única sensação da vida que te vai ser permanente.
E o resto? O resto é resto.
E muda tudo Maria.

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