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Estou lixada contigo.

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Estou lixada contigo.
Quando avanças pelas letras, tropeças nos números. Quando levas o equipamento da ginástica, deixas para trás a lancheira.
Se comes a sopa, não tens fome para o arroz. Se tomas banho sozinha, não te queres vestir. Quando queres ler, não te consegues deitar. Quando acordas não te apetece comer.
Quando estou cansada, queres estudar. Quando te peço para fazer os Tpc´s estás cansada. Queres passar a vida na rua, mas quando te visto o casaco dizes-me que gostavas de ficar hoje em casa….
Às vezes acho que preciso de vitaminas extra para lidar contigo.
Um copo de tinto não chega para me apaziguar.
Também sou balança de signo, mas se oscilasse da mesma forma já tinha entornado a bandeja.
Não está fácil conduzir-te na escola e hoje percebi que esse interesse súbito pelo Afonso, tem um segredo:
É por ele que copias os Tpc´s de Matemática.
Toda a gente elogia a tua falta de travões: a facilidade com que comunicas o que queres, a tua gargalhada alta e a destreza com que te desembaraças entre adultos e pequeninos.
Não te quero cortar o barato balancinha, adoro gente desembaraçada, mas todas as grandes conquistas da vida dão trabalho, carecem de tempo, investimento e dedicação. A mesma com que me faço a ti, todos os dias, na qualidade de mãe.
Sei que às vezes chumbo no teu teste. Mas não me importava nada que começasses a copiar um bocadinho de mim:).

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Sorte: uma merda.

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Dizem que tenho sorte. E eu fui procurar a definição no dicionário, para saber em bom português, exactamente o que tenho.

Dentro das 13 hipóteses que me dá o dicionário da Língua Portuguesa, houve duas que me chamaram a atenção: 9. Lote de Fazendas. 10. Sorteio militar para determinar, de entre os mancebos apurados, aqueles que serão efectivamente incorporados. Todas as outras (destino, fado, ventura, felicidade) são propriedades que não nego, com excepção feita à fortuna (se por fortuna se entender o dourado das moedas, porque se for o ouro dos cabelos das minhas filhas, sou bilionária).

E o que é que eu sei da sorte que tive, o mesmo que me diz o Senhor Zé da leitaria, Trabalho. A mesma sorte que só no dicionário é que chegou ao pódio antes do suor.

Como não gosto do discurso da vítima, filha menor da família disfuncional, como sei que a tristeza de uma história predispõe para a clemência, e da clemência à brandura, perde-se logo a bravura.

Prefiro dizer que a sorte que tive, se é sorte que é, tem tudo a ver com a forma como encaro, e como me faço à vida. Essa “filha da mãe” indomável que nos diz ao ouvido que podemos ser tudo, e depois não parece dar-nos tudo o que precisamos para sermos exactamente o que queríamos. Talvez um dos bons legados que posso deixar às minhas filhas seja a forma fermentada com que fiz dos meus fracassos a sombra dos meus dias felizes. Talvez lhes possa contar como fui teimosa em escorraçar a tristeza, e talvez lhes possa dizer que nunca me apoderei de nenhuma história do passado, que nunca a embrulhei em trauma, e que nunca a servi como aperitivo antes de mim. Que a maior lição que aprendi veio do sorriso, de fugir da água morna dos dias tristes, das pessoas tristes e das histórias tristes. O que me ensinaram as pessoas que passaram pelas histórias mais tristes foi a esperança que lhes valeu, os dias em que foram felizes e a força que tiveram para o resgate desses dias.

O segredo talvez seja fazer do facto mau, o adubo possível do que é bom. Não é o excremento que fortifica a terra?

E a Sorte? Uma merda.

 

 

 

 

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As tuas melhoras, pá!

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Estou doente. Não no sentido metafórico, de quem se sente indignado pela ineficácia de um estado democrático, nem pelo uso abusivo que em Portugal se faz das expressões “temporário”, “medida”, “preventivo” ou “coação”. Estou doente.
Estou com gripe. Uma gripe tão dura, que nem o arrebitar lento da justiça me desentope. Tusso com frequência, mas nem por isso me consigo libertar dos vírus da descrença, de que tudo o que se vê, é pouco para o que por cá se faz. Dói-me o corpo. Sinto-o corrompido pela vontade de se prostrar no sofá.
Quero branquear as minhas dores.
Sinto-me responsável. Sistémica. Tenho os ouvidos tão entupidos. Só queria puder libertar o meu capital de dor, e pô-lo a render lá fora, numa off shore. Longe do meu corpo, longe de mim.
Sinto o pescoço pesado, como se tivesse estado 72 horas num interrogatório sem puder usar os cotovelos. Tenho fome. Mas não consigo fazer pausas legais para comer. Só queria sair daqui para o sudoeste asiático num avião descaracterizado, a uma hora qualquer. Podia fazer disto segredo. Fingir que estou bem. Mas disseram-me que “xiuuuuu” é uma metáfora sibilina que se usa, antes de se contar. As tuas melhoras, pá!

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