Blog Archives

Tenho saudades

13346295_1419970471361919_4448869708273732810_o

Do andar de baixo numa avenida nova, chega-me um cheiro. Detenho-me, pauso-me nas escadas, encosto-me à porta. Há um conforto neste odor, como a almofada amassada do dia em que partiste. Como aquela camisa que amachuca no chão a saudade. É cheiro de mar na grelha, de gordura salgada sobre o carvão, é cheiro de Alfama. É cheiro a Santos. Está me na alma, entranhou-se me na memória, acorda-me os sentidos, puxa-me, recupera-me, exalta-me. Habito numa avenida nova com um cheiro que é velho para mim. Sento-me no patamar das escadas, indiferente a quem passa, acordada apenas pelo sentido do olfacto. E deixo-me transportar como uma quadra que se enterra com força no jarro de um manjerico. Tenho saudades dessa morada onde me achei. E tenho ternura por essa memória que se colhe num cheiro, como o ramo tosco que a criança dá à mãe. Estou aqui sentada. Mas é lá que o cheiro faz sentido.
Tenho saudades tuas Alfama. E não me tenho feito convidada desse olfacto, nem parte desse colectivo de narizes que te inala nesta quadra. Talvez me proteja um pouco da saudade, como um fado morno que se escuta atrás da porta.
Vou deixar passar a festa grande e o corrupio. E quando o cheiro ficar mais perdido, sei de coração, que te vou encontrar, nesse mesmo patamar de saudade onde hoje me sento.

Comentar

NÃO, NÃO ANDO A FAZER M*A.

13320947_1413490595343240_8373285599554191375_o

Hoje publiquei uma frase na cronologia do Pedro a dizer: “Saudades tuas”.
Recebi dois telefonemas: Uma amiga que perguntava se o Pedro estava fora e outra, que com ironia sarcástica (que só a a amizade longínqua permite) comentava: – Deves andar a fazer m*a para tanta declaração de amor.
Ri-me. Não. Respondi. Ando a “fazer bonito”. Estou crescida, rematei.
Sei que nunca fui pessoa de grandes declarações públicas de amor, com excepção honrosa ao sangue do meu sangue, nas pequeninas pessoas das minhas filhas. Mas o tempo passa, sabes. Vamo-nos tornando mais senhoras da nossa vida, proprietárias orgulhosas das nossas conquistas, soberanas no que sentimos, orgulhosas por dar, vaidosas de puder estender a partilha aos que gostamos. Ao principio, revia com desconfiança as frases, tudo parecia excessivo, meloso, até falso. Mas ao primeiro “Enter”, é como o lacre numa carta ida. Sabe tão bem, que chega a virar vício. Não me interessa quem diz que não ha pachorra para isso. O que já não tenho mais mesmo é pachorra para viver por menos. Não sei o dia de amanhã, nem me angustia que as palavras lançadas hoje possam perder sentido nas coisas que lho retiram. Hoje amo, hoje gosto, hoje sou e hoje sinto. E sem qualquer eminência que o passar do tempo condene o que o hoje dita, lanço-me sem filtros ao amanhã.
Não, não ando a fazer m*a. Repito.
A mesma com quem já feri, quem um dia esteve uns passos largos de confiança à minha frente.
E não me venham com histórias. Nada é mais falso que acreditar que a verdadeira juventude da vida esteja na rebeldia dos erros.
E se assim for, que venham daí todas as rugas da verdade. Porque hoje, tudo o que me parece excessivo é o que guardo sentido sem o dizer. “Saudades tuas”.

Comentar

Eu sei.

13247903_1401819926510307_2704038330915376915_o

Dizem que às vezes te trato como se fosses um bebé. Eu sei.
Quando estou na sala, e te dá o sono e a manha, arrasto-te pelos braços até à porta e quando somos só as duas, pego-te ao colo. Não me interessa o que pesas e o que medes, pareces-me sempre incrivelmente bochechuda e pequenina. Não tenho saudades de um bebé pequeno, porque tu és o mais pequenino que tenho de mim. Quando fazes birras, que ainda fazes, e me zango contigo, mostras-me os dedos papudos que confirmam o que ainda tens de redondo. Depois pego-te nos dedinhos carnudos e beijo essa concha húmida de mão com beijinhos demorados. Dizem que já a sabes toda. Talvez seja verdade. Porque essa toda sou eu. A mãe magrinha que arredonda no olhar a tua forma só para te ver pequenina.

Comentar

O tempo passou.

13217523_1396556480369985_4728143971581185249_o

O tempo passou. As coisas não complicaram. Ficaram diferentes. Parecia tudo mais pequeno, mais íntimo, mais controlável.
E de repente o mundo ficou enorme, o meu colo ficou pequeno e as vossas pernas esticaram. O amor que sinto por vocês alarga na mesma proporção com que tudo parece fermentar à nossa volta. Mentia se dissesse que não tinha saudades. Mas há um mundo inteiro à nossa espera.

Comentar

“Bem mais grande”

13131066_1389455654413401_676432047513872731_o

Não te via há uma semana.
Já tens 10 anos.
Não é nada. Eu sei.
Mas não sei se sei tudo o que isso quer dizer.
Pareces-me sempre enorme, “mais grande” como já nem dizes.
Já falas com tanta certeza das coisas.
E já me gozas com piadas próprias.
Rimos juntas de coisas do saber e do que ninguém sabe.
Às vezes queria ser a tua amiguinha dos recados de papel.
Tenho muitas saudades do monopólio do destinatário.
Já tens 10 anos.
Não é nada. Eu sei.
Tens umas pernas compridas e umas ideias que as ultrapassam. Os teus cabelos já se mexem com coreografia e tu já te vestes como se fosses directa para o Instagram.
Escolhes os teus livros, as tuas roupas, as tuas amigas e as tuas ideias. Mas sei que se te dessem a escolher a progenitora me escolhias a mim.
E não tenho qualquer dúvida, que era a ti que te escolhia mesmo quando me sinto a competir com o mesmo mundo grande que te dei a descobrir.
Já tens 10 anos.
Não é nada eu sei.
E o meu amor por ti é sempre “mais grande” como já nem dizes.
Digo eu por ti que já sou “bem mais grande” que 10.

Comentar

“Diz algo sobre esta foto…”

12419078_1293409030684731_5320854463101964411_o

“Diz algo sobre esta foto…”
Digo que no BOMBOM se está no melhor bem bom do Mundo. Que estou a escrever um post para vos mostrar em imagens o que as palavras empobrecem e que estou feliz como uma criança na melhor kidzania ao ar livre, que já me foi dada a conhecer. E digo também que tenho um milhão de saudades das minhas loirinhas e que um dia regressarei com elas, a todos os locais do mundo onde já fui feliz. Podia dizer que parece um sonho, mas é mesmo.

Comentar

Aguenta coração.

12304288_1269005623125072_913029614412294871_o

Aguenta coração.
A Caetana perguntou-me ontem ao jantar se eu estava desejosa que o pai chegasse. Confesso que até fiquei com medo que ela tivesse escutado algum desabafo, desses, que qualquer mãe com discernimento faz quando está pelos cabelos ou prestes a perde-los a todos:)
Disse que não percebia a pergunta. Perguntei-lhe, se estava a querer dizer que eu estava cansada das minhas filhas ou desejosa que o pai chegasse, porque também eu tinha saudades.
Fitou-me. Para não incorrer em conversas desanimadoras do desempenho do meu esforçado papel maternal (e paternal desde há uns meses para cá) rematei: – Eu não estou desejosa que o pai chegue, para me ver livre de vocês (mentirinha). Mas a verdade é que me vai descansar o coração saber que vamos pôr um fim nessa saudade. E sim, também eu tenho saudades do pai.
Um dos melhores amigos da mãe. E os amigos bons nós queremos por perto.
Contente com a minha resposta sorri. A Camila que até então observava, acaba de dar uma garfada no bife, engole e diz:
– Ó mãe, mas eu vou ficar o tempo todo com o pai, todo! Desculpa lá, mas a mãe tem nos o tempo todo, é injusto! Eu quero estar com o pai.
Olho para o Pedro que estava ao meu lado, suspiro, e sai-me um:
– Bitch…
Pergunta a Caetana do canto da mesa:
– Porque é a mãe está a chamar a Camila de Praia?
Meio embaraçada respondi: – Porque vocês às vezes são tão incertas como as ondas do mar.
E pus uma garfada à boca para lançar um parágrafo sobre a discussão.
Haja sempre lirismo em casa e muito amor, pensei.
E venha a mim a minha “bitch”, porque eu estou mesmo a precisar de férias:)

Comentar

Um dia destes mudo-me novamente.

12238056_1255350911157210_1720640783606398697_o

Um dia destes mudo-me novamente.
Sinto saudades da Baixa e do rio.
Perdi-me de Alfama.
Onde acordo agora, chego a todo o lado, mas não vejo o rio.
Não vejo os barcos atracados, os navios a rasgar estrada, nem consigo que os olhos abracem a outra margem de mim.
Onde vivo, há muitas artérias e caminhos mas poucos lugares.
As pessoas têm pressas, até delas mesmas.
Onde habito, há demasiados escritórios e consultórios. Tenho um elevador que nos leva, mas poucas coisas há que me elevam.
Perdi-me de Alfama.
Onde as deito a noite cai deserta. Não há almas a passear nas ruas, nem namoricos sob a luz embaciada dos candeeiros.
Nem o canto rouco do bêbado conhecido.
Onde vivo há supermercados, farmácias e correios.
Mas ninguém nos conhece os gostos, as dores e as moradas.
Onde vivo se ficar doente, desço ao primeiro andar. Mas tenho a ingratidão das saudades, a chorar por uma constipação a olhar o rio.
Onde moro é tudo muito engomado. Tão contrário ao desapego de ti. Um dia destes mudo-me novamente.
Só porque tenho saudades do encosto entre as pessoas, das conversas de rua e de mim, ali.
Talvez me tenha perdido de Alfama.
Talvez isso me ajude a compreender o que se ausenta em mim.
É mentira se disserem que não gosto do aqui. Embalei tudo o que tinha.
E mesmo do rio, eu trouxe um bocadinho de sal para dar Tejo às minhas lágrimas. Maldição seria se a felicidade não fosse tão nómada como as coisas que mais amo neste vida.
Não desgosto de onde moro, só não te namoro da mesma forma e não me acostumo a viver sem ti.
*Shooting for Buenos Aires | http://www.buenosairesworld.com/

Comentar

E TUDO O VENTO LEVOU…

12087319_1235560186469616_1605915227781480981_o

Bom dia!
Mesmo depois de ter começado a manhã a ser expulsa da biblioteca da escola por estar a falar ao telemóvel com a professora da minha filha.
Passo a explicar…Ontem cheguei a casa às 20h. As loiras não tinham tomado banho e era hora de jantar. Estavam serenas no sofá, como se a casa fosse apenas um prolongamento do recreio com mais almofadas. Respirei antes de entrar em casa, e só não suspiro mais alto, porque preciso daqueles segundos de ventilação pulmonar para me fazer à auto-estrada da vida doméstica, com enfoque muito particular, neste belíssimo capítulo da maternidade e seus desafios.
Avancei com o jantar, tomam banho a seguir, pensei. A loira mais velha faz fita porque a sopa está doce, a mais nova resmunga que está quente. Os cabelos misturam-se com os fios de esparguete, entornam-se goles de água sobre o prato fundo. Siga.
Quando finalmente as consigo deitar, liga-me o pai pesaroso a querer matar saudades. Ainda a meio da digestão de tudo, corro para as mochilas. Mãe que é mãe exige e controla. Enquanto não lhes reconhecer responsabilidade suficiente para não ter que encontrar pedaços de carcaça dentro do estojo, vasculho e vasculharei, sem qualquer afeição ao verbo.
Lá estava o caderno de matemática da Camila. Tinha ido ao Apoio de estudo a seguir às aulas mas não havia um exercício que tivesse certo. Olhei para o exemplo de cálculo, habituada às operações matemáticas na vertical, tive dificuldade em perceber o desdobramento das dezenas, para voltar a somar às centenas e finalizar o cálculo. Pensei googlar mas eram 23h e estava podre. Amanhã é outro dia, pensei. Como a última frase da Scareltt O´Hara em “Tudo o vento levou”.
Só que aqui o vento, deixa quase tudo no meu colo.
Chegamos às 8h ao colégio, encaminhámos a Caetana, e seguimos para a biblioteca para tentar terminar os trabalhos, longe da confusão do recreio. Olhei novamente para os cálculos, para a folha esborratada de esforço entre o lápis e a borracha, e achei mais prudente, ligar à professora a pedir auxílio, só para engrenar com uma certa mestria no cálculo da operação.
Calculei mal, porque me esqueci que estava na biblioteca, e embora ciente de que éramos as únicas almas, não se pode falar ao telemóvel, como é óbvio. Fui repreendida com firmeza pela guardiã dos livros. Pedi desculpa, levantei-me e fui para a porta aprender a fazer contas, deixando a Camila no conforto da pausa. Quando me sentei faltavam 5 minutos para o toque. Apeteceu-me tanto fazer por ela. Senti-a completamente perdida. E eu também. Tão esborratada como aquela folha de papel quadricular.
Estava ciente de que ela ia ter teste dentro de uma hora, e não tinha a mínima noção do que ia fazer.
Apertei-lhe a mão com força, beijei-lhe a testa, ajudei-a arrumar o estojo e saímos. A caminho da sala, ajoelhei-me à sua altura e disse-lhe:
– Camila, hoje o teste não vai correr bem. Mas “amanhã é outro dia” e nós vamos aprender a fazer essas contas.
Quando a deixei na sala, já não sei se acreditava na força da expressão do amanhã. Que é o que acontece quando o Hoje nos embate assim.
E tudo a mãe levou…

Comentar

Era agora, era ali…

11807221_1193441494014819_8367818837053993313_o

Era agora, era ali, naquele momento em que desci com as loiras para as entregar ao pai. Ou se calhar foi mais à frente, quando já subia sozinha no elevador cheia de resoluções, de sede de mojitos e de projectos. Ui…aquele momento em que me achei só, no silêncio de mim. Tanto buffet de tempo, tanto sangue em circuito fechado, tanta energia a redundar entre os hemisférios.
E uma culpa manhosa, a querer pegar-se com o bem estar, de só se estar assim. Queria correr entre as hipóteses, esgravatar o fim de tudo, aborrecer-me sem complexos, render-me às insónias cozinhadas por mim.
Hummmm….que se isto é egoísmo, aceito-o. Disposta a dar por permuta outro dos meus defeitos. Não há culpa mais honesta que a saudade de nós. E se o tempo me abraça a fazer doer é porque também ele sabe, que não há maior cumplicidade com a vida, que a viver assim.
Ui…..senão fosse este calor morno, esta culpa fria e este fervilhar de rumos. Porque se o corpo permanece obediente e se eu continuo sentada, a verdade levanta-se e acusa a Saudade.
De, só eu para mim.

Comentar