Blog Archives

“Quando eu for mãe”

IMG_0692_6264

As minhas filhas têm diferentes opiniões sobre a maternidade. Entenda-se com isto que não me refiro à forma como as educo ou às questões motivacionais ou emocionais, que estiveram por de trás da sua origem, inquestionável, por razões eco-sistémicas de sobrevivência em família:)
Até porque posso assegurar que o Amor próprio cá por casa, supera o próprio Amor.
Quando falamos de maternidade e são mais elas que eu, é sempre sobre os filhos que elas desejam muito que eu tenha, e os filhos que elas um dia vão ter.
Quando se põe a fantasiar sobre os irmãozinhos e as maninhas usam grandes folhas A4, onde escrevem, em forma de tabela, os nomes dos meus futuros filhos. Partindo sempre do pressuposto generoso de que são gémeos.
A Caetana fala muitas vezes “quando eu for mãe” isto, “quando eu for mãe” aquilo. Imagina a casa, a dinâmica, o marido, as faces das crianças, os nomes, e quando está mesmo muito inspirada, fantasia-lhes o carácter e faz simulações in loco do que seriam as suas reacções às birras, pedidos ou questões, que os seus filhos, com inteligência suprema teriam para lhe colocar.
A Camila por outro lado, que reconhece o seu estatuto de criança, filha e mimada, nutre um profundo temor e respeito por esta santíssima trindade, afirma desde sempre, que não quer ser mãe ou ter filhos de qualquer espécie. É peremptória nesta conversa e não admite qualquer excepção, marketing ou diálogo em torno das virtudes de ser mãe.
Quando lhe pergunto Porque é que não quer ser mãe?
(Sem qualquer objecção à decisão, que entendo, faz parte do uso fabuloso de ser uma mulher livre).
Ela responde-me: – Dá muito trabalho.
Andava eu com medo de a traumatizar como mãe, quando ela já o antecipa no exercício de ser filha.
Toma lá sangue do meu sangue, é para aprenderes:)

Comentar

Não é fado, é feitio

IMG_0729_6301

Não é fado é feitio.
As minhas amigas, não todas, não tantas, mas ainda assim muitas, queixam-se (não no sentido lamurioso e fadista da dor, mas como não encontro melhor palavra: Queixam-se. Enfim numa variante misericordiosa: Falam com alguma pena da incapacidade de improviso e iniciativa dos homens com quem estão. Reconhecem-lhes qualidades imediatas, que elogiam como feitos epopeicos, mas são as primeiras gladiadoras de arena quando se trata de apontar defeitos. Provavelmente eu sou igual. Há uma crueldade tão limpa no discurso de uma mulher que é uma pena depurá-lo. O mais engraçado é que o discurso entre duas mulheres na partilha dos vinagres da relação é mais limpo, que a reclamação em relação, apresentada na hora. Isso não se explica apenas pela combustão do momento, o sangue em espuma quente, que faz de qualquer mulher gaga um líder (numa TED talk). Eu desconfio que a irritação feminina produz um tipo de calor que nos cozinha a gramática no cérebro. Sai o cozinheiro da tasca, entre o Michelin da esquina.
De repente a dor metamorfoseia-se nas frases mais rebuscadas, nas metáforas mais bonitas. Inebriamo-nos na vaidade de nós mesmas. Tornamo-nos cúmulo: Apresentadora e ouvinte. Há uma luz que desce, parece que desce, a voz ganha corpo, parece que ganha, os adjectivos sucedem-se, parece que nascem. Queremos gravar cada frase dita, crescemos em altura, fermentamos nas palavras. O silêncio do outro lado confirma que nos isolamos na margem da meta, agora é o sprint. Fechamos os olhos, erguemos o peito, avançamos a perna, o galope, o compasso, há música na nossa voz. E aqui vai disto:
“Não te sinto. Estás. Mas depois ausentas-te”
“Há uma distância fria entre nós”
“Precisamos de mais poesia”
“Queria sentir-me a voar.”
Torna-se indiferente se o outro permanece, porque a sedução do discurso feminino é uma actuação a solo. O homem pressente uma espécie de prazer egoísta, estanca, queda-se. O espasmo há de passar, crê. Mas quando a luz sobe e a última frase é proferida como selo em lacre, a mulher olha, cala e devolve. E tudo o que oferece ao homem em palco é um pedido de desculpas em forma de aplauso.

Comentar