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Não sou filha de um microondas mas quase.

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Não tive a sorte de crescer na sanidade simples de uma aldeia.
Menos, tive a sorte, de ter parentes próximos que me recolhessem todos os anos para me devolverem, ainda que por breves instantes, à singularidade da vida de uma pequena comunidade rural.
Nem fui bafejada com a tradição do saber antigo, da lavoura, do ferro, do pastoreio ou dos artesãos. Não sou filha de um microondas mas quase.
Nasci na cidade, mas vivi numa casa grande com jardim, onde aprendi as artes de ser criança. Não tive a chaleira em brasa sobre o carvão quente, nem dormi sobre as ameias, nem aprendi os nomes dos peixes no barco, nem os nomes das plantas comestíveis, como algumas avós das minhas amigas, que partiam nas férias para a “terra”.
Quando vim pela primeira vez a São Tomé, e parei num destes rios escavados na floresta pejados de pessoas, de roupa e de espuma branca fiquei encantada. Centenas de mulheres e crianças lavam diariamente as roupas coçadas nas pedras do rio. Os mais pequenos distraem-se nus brincando entre as pedras. Os homens não participam deste ritual (acho que em geral os homens do mundo nunca foram grandes fãs na arte de lavar a roupa) e as mulheres vão conversando entre elas, de costas tombadas sobre à água fresca do rio.
Se seguirmos o curso da água, vamos desaguar na praia, mas não sem antes, percorrer uma auto-estrada imensa de roupa estendida. Como se aqueles pedaços de roupa estivessem ali dispostos, só para abraçar a natureza.
Respeito as mulheres e as crianças que trabalham e vou trocando palavras e sorrisos. Sei o que lhes custa no corpo, e devolvo-lhes a minha pasmada admiração pela forma serena com que se entregam ao inevitável com um sorriso.
Não gosto de fazer máquinas de roupa, ainda menos de a estender e tão pouco me apraz engomar. Mas nesta selva imensa de floresta humana e manual centrifugação, descubro de novo as saudades da “terra” onde não vivi.

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Não sou gaivota

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Uma das coisas que me dá mais saudade são os passeios por Lisboa.
De Alfama, e sem ser de barco, chegava ao Castelo em minutos e punha a mão no Tejo em segundos. Sem falar da vista, que o alcançava em todas as janelas. E o que eu gostava daqueles cruzeiros estacionados no beiral da minha janela, com aquelas luzinhas amarelas e toda a gente em pé, no convés da chegada. O que eu adorava a percepção da sombra gigante a anunciar a partida. Tinha sempre poesia de todos os ângulos, quer fosse o trânsito dos navios, o voo paralisado das gaivotas contra o vento ou o tejo cinzento e amuado nos dias em que chovia. Este ano que aí vem vou procurar nova morada. Talvez não recupere o Tejo na minha janela, talvez tenha a sorte do rio desaguar num mar ainda maior, ou talvez abra a porta para um jardim esverdeado, permutado sem esforço à calçada lisboeta. Seja o que for e onde for é de ir. Gosto de fazer morada em várias moradas. E nunca me assustou a mudança, o que me assusta sempre é a paralisia lenta de ir permanecendo igual sabendo que não sou gaivota.

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Um dia destes mudo-me novamente.

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Um dia destes mudo-me novamente.
Sinto saudades da Baixa e do rio.
Perdi-me de Alfama.
Onde acordo agora, chego a todo o lado, mas não vejo o rio.
Não vejo os barcos atracados, os navios a rasgar estrada, nem consigo que os olhos abracem a outra margem de mim.
Onde vivo, há muitas artérias e caminhos mas poucos lugares.
As pessoas têm pressas, até delas mesmas.
Onde habito, há demasiados escritórios e consultórios. Tenho um elevador que nos leva, mas poucas coisas há que me elevam.
Perdi-me de Alfama.
Onde as deito a noite cai deserta. Não há almas a passear nas ruas, nem namoricos sob a luz embaciada dos candeeiros.
Nem o canto rouco do bêbado conhecido.
Onde vivo há supermercados, farmácias e correios.
Mas ninguém nos conhece os gostos, as dores e as moradas.
Onde vivo se ficar doente, desço ao primeiro andar. Mas tenho a ingratidão das saudades, a chorar por uma constipação a olhar o rio.
Onde moro é tudo muito engomado. Tão contrário ao desapego de ti. Um dia destes mudo-me novamente.
Só porque tenho saudades do encosto entre as pessoas, das conversas de rua e de mim, ali.
Talvez me tenha perdido de Alfama.
Talvez isso me ajude a compreender o que se ausenta em mim.
É mentira se disserem que não gosto do aqui. Embalei tudo o que tinha.
E mesmo do rio, eu trouxe um bocadinho de sal para dar Tejo às minhas lágrimas. Maldição seria se a felicidade não fosse tão nómada como as coisas que mais amo neste vida.
Não desgosto de onde moro, só não te namoro da mesma forma e não me acostumo a viver sem ti.
*Shooting for Buenos Aires | http://www.buenosairesworld.com/

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