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Bom dia!

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Quando se faz o que se gosta, torna-se difícil explicar às crianças que até chegar a esta fase, tive que levar com um milhão de coisas que não gostava.
Por isso, quando a Camila insiste em dizer-me que o que mais gosta da Escola é o recreio.
Só posso imaginar que vá dar uma excelente vigilante:)
Bom dia!

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Cancro (era uma vez)

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A convite da Fundação Rui Osório de Castro, instituição de solidariedade social sem fins lucrativos que apoia a oncologia pediátrica nas áreas da informação e da investigação científica fui fazer uma foto reportagem de um workshop de moda para crianças ao Atelier do designer Filipe Faísca.

As crianças para o qual tinha sido organizado este workshop eram crianças em ambulatório do IPO. Meninas cuja as vidas já tinham sido atalhadas por uma dose gigante de maturidade e sofrimento que dá pelo nome temível de Cancro.
Nunca privei de perto com a doença, quis a vida que até agora fosse poupada do confronto directo com essa mutação cobarde que não se anuncia, nem se faz esperar. Infelizmente, conheci e conheço como toda a gente, pessoas e famílias que foram violentadas pelas várias faces desta doença. Já assisti a mudanças de rota, de destino, de vida e de carácter. Já percebi, sem um assalto à mão armada, o que estas seis palavras em diagnóstico podem produzir num ser humano, enquanto se reproduzem à revelia nos nossos corpos. Todos temos medo.
Um respeito mudo sobre a doença, que cala muitas das nossas vezes a nossa vontade imediata de chorar sobre quem sofre. Todos desejamos. Sentir no colo firme da Esperança que a ciência corre a galope para nos safar.
Meninas com ou sem cancro, são todas meninas.
Tudo o que uma criança ambiciona, sem ambição que lhe dê esse nome, é ser criança em pleno, sem ter que interromper o recreio da vida para brincar às escondidas com a morte.
Dá pena, dá muita pena.
E não encontro palavra mais verdadeira para tudo o que me toma. Comparo-as inevitavelmente com as minhas filhas, sinto-me abençoada. Quero oferecer parte da sorte que tenho aos seus Pais. Penso neles, parte da minha dor alheia está com eles. Não imagino nada mais cruel que a luta pela vida de um filho. Não imagino os depósitos de confiança e amor que são necessários para acordar todos os dias inteiro para lutar.
Imagino que o que sonham os pais a caminho do ambulatório descreve parte das rotinas de que me queixo. Imagino-lhe as saudades de tudo o que é absurdamente normal. No domingo foi o dia Internacional da criança com o cancro mas estava tão cansada do peso do dia absurdamente normal, que não consegui publicar este texto.
Estamos na época do Carnaval, das máscaras e do faz de conta. E tudo o que eu queria, se fosse fada de condão, era que essas crianças não tivessem que se mascarar de nada, que não fosse apenas o de serem crianças.
E que a palavra cancro fosse apenas um reino longínquo, sem mágoa ou sem castigo de que se falasse ao de leve nos livros do faz de conta.

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No epicentro do recreio

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Fui à escola das loiras à hora do almoço para entregar uma surpresa à Caetana e dar um beijo de saudades na Camila. Cheguei bem no epicentro do recreio, na debandada da hora do almoço. Eram tantas as crianças que não conseguia vislumbrar as minhas, era tanto o barulho que o meu cérebro não conseguia comandar os olhos numa busca e os meus membros estavam tão intimidados que não se queriam mexer. Ingénua, ainda pensei que se me quedasse muda e hirta ia ser descoberta pelas crias, amparada pelos seus abraços pujantes, sacudida pelos beijos da saudade. Passaram-se minutos e nada. Iniciei a busca ocular, movi o corpo por entre os seres pequeninos. De repente, pareciam-me todas loiras, todas elas. Vi uns adultos iguais a mim, quedos e hirtos mexendo o pescoço em cata-vento. Sorri como quem solidariza, não estou só, pensei. Passaram-se mais uns minutos quando ouvi uma voz. – Mãe!
O meu descodificador acusou um laço parental naquela voz, a minha cabeça virou-se e o meu coração deu sinais de impaciência. Uma já cá canta, pensei. Não, não pensei. Abracei-a com exagero, percebi-o no olhar das amigas e no desatar escorregadio dos braços. O recreio é o palco das crianças, demonstrações afectivas sim, mas devidamente enquadradas e com discrição.
Eu respeito. Muito. Também já fui miúda pequena e apesar da minha mãe não ser dada às visitas surpresa na hora do recreio, imagino o meu embaraço se fosse. Aquele abraço exagerado que a mãe aperta com culpa na semana que é do pai. Percebo-te.
Mas tinha saudades tuas. Disse “Olá” às tuas amigas com muita simpatia mas sem grande exagero. Sei bem, que tudo o que tu queres nesta idade é que tudo seja normal. Mãe normal com saudades normais. Despedi-me com um beijo normal, disse que te adorava, como faço normalmente. E parti em busca da cria menor. Quanto mais pequeno mais difícil. Como já estava com a maternidade em red light vi-te logo. Corrias como uma seta atrás de um menino. A tua gargalhada era tão boa que até parecia que os dentes de leite iam à frente do corpo. Estiquei o braço para te agarrar. Percebeste que era eu e travaste o passo. Voltei a descer e abracei-te com força as pernas. Já não fui a tempo de ser normal. E como faço normalmente, disse que estava cheiaaaaaa de saudades tuas. Sorriste sem grande reciprocidade de gesto, a tua cabeça vigiava o movimento dos teus pares. Estavas num jogo da apanhada, mas não para ser apanhada por mim. Dei-te um beijo grande e respirei o cheiro dos teus caracóis. Levantei-me e saí do recreio com um andar normal e um coração saciado. Quando estava quase a dobrar a esquina, oiço a voz da Cria grande: – Mãe!!
Vieste na minha direcção, abraçaste-me as pernas e quando ia curvar a cara para me aproximar da tua cabeça, olhaste-me nos olhos e disseste baixinho, mas com muita força: – Amo-te.
E eu sai do teu recreio anormalmente feliz.

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Houve um tempo

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Houve um tempo em que a minha janela se abria para um labirinto de portas. Em que a vida era toda buffet e eu era toda recreio.
Houve um tempo, em que o tempo era amigo e parecia demorar-se comigo no não ser nada. Nesse tempo, em que o tempo era esquecido de si mesmo, eu era feliz.
Nada era, nada se impunha.
Sem ambição de coisa alguma. Sentava-mo-nos eu e o tempo e o labirinto de portas à nossa frente.
Houve um tempo, em que o olhar demorado sobre a janela não pedia mais nada. Nada mais, que o olhar demorado sobre a janela. Nesse tempo eu existia, respirava, inalava e sentia, sem grande responsabilidade sobre cada uma delas.
E sem pressão de coisa alguma, sem a ambição de ser alguma coisa, eu tinha a estranha impressão de estar sendo, essa janela aberta para um labirinto de portas.

Boa semana* (acho que se nota, que estou a convalescer de um estado febril)

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