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Ó gente boa

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Ó gente boa, fado de sorte que eu tenho com as pessoas.
E pensar que tudo começa aqui.
Numa rede social, numa fotografia, num texto, o envio de um email, uma troca de palavras, um acerto de valores e uma data. Um encontro às cegas que se enche de luz.
A maioria das vezes não se adivinha na linguagem formal de um email as pessoas que espreitam do lado de lá. E ainda que revele deste meu lado, este meu centro, há tanto ainda por adivinhar que cada encontro, é um momento de sorte ou azar.
Não sei se as palavras que escrevo e a forma como me dou, filtram as pessoas que me procuram. Se assim for, manterei a receita, porque a colheita tem sido a melhor.
Adorei esta nossa sessão na Gulbenkian. Daniela e Pedro já vos disse o quanto gostei da nossa sessão. E reforço aqui, o que vos disse lá, que quero alinhar os meus chakras dançarinos nesse palco de gente boa, de olhos vendados ao som de uma batida forte. Gosto dessa forma não convencionada de estar na vida, dos valores que passam ao vosso filho e da cumplicidade que têm como casal.
E agora, bora bailar?

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Oficialmente de fim de semana

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Entramos oficialmente de fim de semana.
Amanhã de manhã ainda fotografo, depois, aeroporto para buscar o pai e aula de cross-fit à tarde com a mana, só para ver como é dar no duro com os duros.
No domingo arranco a seguir ao almoço para as Casas do Côro, lá para os lados da Marialva, para escrever (com o Côro dorido, vem bem a calhar).
Vou sozinha.
O moreno fica bem e a saudade é fermento na relação.
Vou só eu, o meu portátil, os meus livros e o meu cabelo novo…ainda não partilhei aqui mas virei morena à séria:)
Preciso de estar uns dias sozinha com as minhas palavras, a namorar o rascunho do meu livro e a sentir o tempo a vazar devagarinho. São 4 dias, sem limite de caracteres, mas cheia de vontade de me prostar junto de uma lareira de boca grande, a ver os dedos frenéticos a desenharem palavras.
Vou comer bem e dormir como um recém nascido de filme. Quando me apetecer. Sempre que me apetecer.
E se me apetecer mesmo, não faço nada, que é prática que não assino mas pressinto que me fazia bem.
E agora, agora mesmo, vou dar corda aos sapatos e preparar o jantarzinho das loiras, que estão com o estômago tão colado ao coração com a chegada do pai, que ficam cheias à primeira garfada! E bem a propósito de tudo, vou abrir um tinto, para comemorar a aproximação da vida aos sonhos.
Sempre super agradecida!

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Estupidamente perfeito (ponto)

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Há muito tempo que dizia, já só de mim para mim, para que a descrença não causasse fissuras no sonho, que queria viver das palavras.
Que o meu corpo magro é um repositório imenso de substantivos, adjectivos, advérbios, pronomes e verbos.
Que sonho com os dias em que as palavras são a única refeição que me alimenta e a única a quem me dou.
Que quero uma janela embaciada pelo vapor do Outono, uma lareira acesa à escala de um Inverno profundo, uma manta felpuda sobre o par dos pés e um copo de tinto, sem pressa de virar uva outra vez.
Que quero escrever. Escrever muito e escrever tudo. Sem o assombro do tecto do tempo, das contracções do dinheiro e do vício secular da perfeição.
Que quero fazer das folhas dos meus cadernos, um encontro romântico, estupidamente perfeito, entre a memória intermitente e o presente.
E que quero que as minhas palavras alcancem a serenidade do papel, mas que se imponham, na certeza, que só assim se fazem ideia.
E queria muito que o cálculo acidental do meu português, o somatório ébrio das minhas palavras sãs, a culpa isenta da minha decisão mais inteira e o rebuscar dorido das minhas memórias, criasse “quiçá” um livro. O meu. O meu livro.
E assim anuncio que à excepção de alguns compromissos já assumidos e demais conspirações, e por tempo indeterminado, pouco mais farei que dar atenção aos mesmos caracteres, com que hoje escrevo este texto.
Agradeço desde já à Papelaria Fernandes que me lançou o desafio de viver prazerosamente soterrada entre blocos e canetas. Os mesmos que vou levar comigo nas minhas alienações, lado a lado, com os meus compêndios de inspiração, os meus dicionários, os meus livros sagrados, os amores da minha vida e as minhas reservas de tinto.
E que o resto seja apenas o rascunho permanente do que é estupidamente perfeito: a dedicação àquilo que se ama (ponto)

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* Cadernos NUUNA | Papelaria Fernandes | Lindos de morrer | Perfeitos para se escrever

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Palavras

Anos Eugénio + Pascoa

Sempre gostei das palavras ditas ao ouvido.
Mesmo quando na sala vazia éramos só nós.
Não guardo rancor do silêncio é nele que cultivo as minhas palavras. E se às vezes me calo e me demoro é só porque me reservo ao cuidado das palavras mais certas.
E quando falho?
Vou vasculhar no silêncio de mim, o sinónimo mais ajustado a tudo o que ainda tenho para dizer.
Dizem que sou a miúda das metáforas.
Sou mesmo. Mas não pelo conforto do duplo sentido.
Só mesmo pelo romance que existe na pintura de cada uma das palavras.

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“Se um dia voltar a casar…”

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Se um dia voltar a casar, vou querer vestir-me de palavras.
Não há nada que bata um bom discurso.
Aliás, deliro até com os maus, desde que na tentativa haja depósito atestado a sentimento.
Poiso sempre a máquina, o olhar e delicio-me nas promessas encaixadas na voz tremida. Perco-me no embaraço comovido da noiva e do noivo. Procuro-lhes as certezas com que as farei minhas.
Imagino-me sempre a mim, de mãos ligeiramente suadas, à procura de um olhar âncora nas mesas e das tuas mãos.
Ensaio às palavras que direi: Aquela metáfora chave, aquele episódio, aquela manhosice nossa, que nos torna um par único num momento ímpar.
Dizem que “as palavras leva-as o vento”, eu levo-as todas para mim.
Todos os casamentos têm o seu protocolo, mas nem todos têm discurso. Aquele momento único que não é passível de ser fotografado de forma generosa, porque a força transparente das palavras, não as faz visíveis aos olhos da máquina.
Eu acho que em todas as celebrações se deviam trocar palavras. Ninguém devia ter medo das baboseiras que sente, num mundo tão carente de expressão. Não levamos quase nada daqui, uma delas é a fortuna acumulada, e outra são as palavras que ficaram por dizer. E o mais lixado é que as palavras também são gramática na relação. Senão se pontua na altura certa, corremos o risco de não fazer sentido mais tarde.
Ilan, o noivo da fotografia, ergue-se, falou alto de perto, e mesmo quando a voz lhe tremeu, tudo parecia tão bem edificado no que queria dizer, que me comovi. E mesmo nas palavras mais simples: “És a mulher que sonhei para mim.” Havia aquele depósito sem fundo de amor e de fé. O mesmo depósito com que se atesta o carro para uma viagem de sonho.
Tenho muitas vezes insónias, mas não conto carneiros, teço discursos, ergo-me, suo da alma e das mãos, e imagino-me assim, vestida com as palavras que não quero guardar para mim.
Falem sff.

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Cartagena das Índias

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Ainda não tinha idade para ambicionar o Globo e já achava um delírio o nome da cidade “Cartagena das Índias*”, pronunciado de forma lenta e respeitosa. Imaginava uma terra mística, meio pirata, meio selvagem, lá longe num País mal afamado chamado Colômbia. Cartagena é muitíssimo turística e percebe-se bem porquê. Dentro das muralhas fortificadas abriga-se uma cidade colonial absolutamente encantadora. As portas de madeira grossa, as balustradas em madeira, as flores penduradas nas varandas a tentarem tocar as ruas, as carruagens de cavalo à turista (com aquele som fabuloso do casco sobre o chão de pedra), recantos para comer e beber tão acolhedores como casas abertas à rua, uma temperatura constante de 30 Graus e em cada esquina um cantar crioulo.
A cidade é cara, aproveita-se da concentração turística e faz dobrar os preços de Bogotá. Para quem dá valor à beleza das coisas, a verdade é que tem restaurantes saídos da Casa Décor, apetece reservar 3xs almoço e 4xs jantar. Confesso-me cansada dos sabores típicos da Colômbia, faz-me falta o paladar mediterrâneo, por isso, assim que posso e à falta de uma tasca portuguesa, vamos a um italiano do lado dar-lhe na focaccia impregnada de azeite, tomate e sal grosso. Amanhã seguimos para Medellin, terra famosa pela morado do Cartel de Pablo Escobar mas posso assegurar que Cartagena se ergueu acima dos meus sonhos de criança. Será um prazer se a vida me der uma oportunidade de aqui voltar:)
*O centro histórico de Cartagena, conhecido como a cidade fortificada, foi declarado Património Nacional da Colômbia, em 1959, e Património da Humanidade pela Unesco, em 1984.

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Obrigado eu!

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“Boa noite, Isabel.
Prometo ser breve, não tomar muito do seu tempo. Quero apenas agradecer-lhe pelo que hoje fez, sem saber, por mim. Comecei a ler o seu blog há apenas dois dias. Muito sinceramente, já nem sei como a encontrei. A verdade é que as suas palavras foram o meu motor, o que me levou a por mãos à obra.
Há muito tempo que queria ter um projecto meu; queria começar algo – por as minhas ideias a dar frutos. Planeei mil e quinhentos blogs, entre outras coisas. Finalmente, após dois dias de leitura dos seus textos tão simples e complexos ao mesmo tempo, tão transmissores de calma, comecei finalmente a tratar de tudo. Tenho um nome para o meu blog, ideias, e muita força de vontade e compromisso. Obrigada. Sem saber, a Isabel ajudou-me a dar um passo importante. É isto que me fascina na Internet, nos blogs. Esta capacidade de ajudar sem se saber que é isso que se está a fazer.
Muito obrigada!!!”

Posso não conseguir responder a tempo a todos os emails, posso não ter tempo para responder a todos os comentários, mas acreditem que cada palavra que vocês me escrevem é combustível. E se ando tão positivamente acelerada, tenho que agradecer a cada um de vocês o fabuloso contributo para o meu depósito:) Obrigado eu!

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.
Ainda não sei bem o que é o que o tempo nos queria dar quando nos juntou. Não percebi o que é que a vida nos quis oferecer, nem o que é que nos tirou. Ainda não sei qual é a lição que vou levar do tempo. Nem por quanto tempo o vou sentir, com esse nome que se dá às coisas sem nome que se demoram em nós.
Não sei se o lucro infindável de tudo o que poderia ter sido, vai ser o melhor trunfo sobre tudo o que realmente foi.
Às vezes confunde-me não ter dor concreta, senão o vazio.
Ás vezes perco-me a recordar, sabendo que a minha imaginação generosa, convida e entrar no caos das memórias, cenas que nunca tiveram espaço, tempo ou circunstância.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Porque a paixão não é amiga dos arquivos, porque as borboletas não fazem ninhos em pastas de computador.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia porque a força do que é agora, não se deixa embebedar pela promessa do que pode ser.
Mas eu não me importo.
Nem me importo das saudades que tenho, porque lhes reconheço um capricho de uma história que não cheguei a viver.
Ás vezes procuro-te no amanhecer, só porque preciso para o meu sono um pouco da nossa escuridão.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.

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Não é fado, é feitio

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Não é fado é feitio.
As minhas amigas, não todas, não tantas, mas ainda assim muitas, queixam-se (não no sentido lamurioso e fadista da dor, mas como não encontro melhor palavra: Queixam-se. Enfim numa variante misericordiosa: Falam com alguma pena da incapacidade de improviso e iniciativa dos homens com quem estão. Reconhecem-lhes qualidades imediatas, que elogiam como feitos epopeicos, mas são as primeiras gladiadoras de arena quando se trata de apontar defeitos. Provavelmente eu sou igual. Há uma crueldade tão limpa no discurso de uma mulher que é uma pena depurá-lo. O mais engraçado é que o discurso entre duas mulheres na partilha dos vinagres da relação é mais limpo, que a reclamação em relação, apresentada na hora. Isso não se explica apenas pela combustão do momento, o sangue em espuma quente, que faz de qualquer mulher gaga um líder (numa TED talk). Eu desconfio que a irritação feminina produz um tipo de calor que nos cozinha a gramática no cérebro. Sai o cozinheiro da tasca, entre o Michelin da esquina.
De repente a dor metamorfoseia-se nas frases mais rebuscadas, nas metáforas mais bonitas. Inebriamo-nos na vaidade de nós mesmas. Tornamo-nos cúmulo: Apresentadora e ouvinte. Há uma luz que desce, parece que desce, a voz ganha corpo, parece que ganha, os adjectivos sucedem-se, parece que nascem. Queremos gravar cada frase dita, crescemos em altura, fermentamos nas palavras. O silêncio do outro lado confirma que nos isolamos na margem da meta, agora é o sprint. Fechamos os olhos, erguemos o peito, avançamos a perna, o galope, o compasso, há música na nossa voz. E aqui vai disto:
“Não te sinto. Estás. Mas depois ausentas-te”
“Há uma distância fria entre nós”
“Precisamos de mais poesia”
“Queria sentir-me a voar.”
Torna-se indiferente se o outro permanece, porque a sedução do discurso feminino é uma actuação a solo. O homem pressente uma espécie de prazer egoísta, estanca, queda-se. O espasmo há de passar, crê. Mas quando a luz sobe e a última frase é proferida como selo em lacre, a mulher olha, cala e devolve. E tudo o que oferece ao homem em palco é um pedido de desculpas em forma de aplauso.

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Liberdade não filtrada

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Gosto muito da liberdade não filtrada que existe no diálogo de uma criança. Não fosse a minha linguagem, tão extrovertida, como o meu carácter, e tenho a certeza que lhes ficaria a galar as palavras soltas, no soslaio calado dos impulsos contidos. Mas cá em casa, usa-se e abusa-se da palavra solta, mais que à solta, mesmo. Isto tem o custo intimidatório da cerimónia, a perversão de alguns princípios básicos de educação que tento implementar e alguma moléstia pontual no convívio social entre conhecidos, mas à parte disso é tudo saúde. Portanto, não se reprime, repreende-se apenas quando é caso disso. Isto porque sei, que no interior desta selva de sentidos ao desmazelo e de acne gramatical há uma franqueza tão doce quanto crua, que faz com que os preliminares do meu “xiu” sejam uns largos segundos de prazer.
E ontem na cozinha, à hora louca do jantar das crias, fui chamada pela voz rouca da Camila.
– Mãe, Mãe! Mãe!
– Simmmmmmmm! Camila!
– Mãe! Mãe! Mãe! Olhe para o Pedro.
(O Pedro é o namorado da Isabel:))
– Diz Camila, o que é ?! Estou a olhar!
– Mãe! Mãe! Mãe! Olhe para o Pedro.
– Sim Camila, estou a olhar para o Pedro.
– Olhe Mãe, olhe bem!!!
– O que é que ele tem?
– Tem tudo.

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