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Este post é para o João Carvalho.

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Este post é para o João Carvalho.
Provavelmente desconheces, mas a minha filha Camila, que já tem grandes dificuldades em concentrar-se nas aulas e nos trabalhos de casa, achou na paixão recente que nutre por ti, um alibi perfeito para riscar todas as folhas dos cadernos com o teu nome.
Hoje fui acordada de madrugada, de um sono profundo, só para validar o coração que te quer entregar no dia dos namorados, e a minha filha nunca foi criança de pensar no longo prazo.
Diz que quer que eu fale com a tua mãe para marcar um encontro e não se importa de partilhar-te com as amigas, desde que sobre um pouco de amor para ela. Todas as frases começam com “Mas o João”, “E o João”, “O João também”. Se antes tinha direito ocasional a um retrato meu, agora é raro, para não dizer inexistente, porque não há marcador, pincel e lápis que não esteja ao serviço da paixão.
Ao principio achei graça, só porque é raro vê-la manifestar um interesse continuado por alguma coisa.
Mas entretanto já passaram 3 semanas e hoje de manhã quando fui buscar-lhe o afia, lá estava o teu nome escrito num dos cantos dobrados do caderno, em formato de segredo.
Tudo bem João.
Estamos habituadas a pragas e somos miúdas de grande paixão.
Mas não me roubes todos os cantos, de todas as folhas, porque quando eu não acho conforto na folha em branco é lá que me aninho.

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Na minha alma #atevelhinhos.

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Pergunta a neta adolescente ao avô:
– Como é que o avô e a avó conseguiram ficar tanto tempo juntos? Responde o avô:
– Porque nós somos de uma geração, que quando as coisas avariavam nós mandávamos arranjar, não deitávamos fora.
O que é que terá mudado assim tanto no tempo, que nos tornou tão intolerantes aos erros dos outros?
O que é que acelerou de tal forma, que não nos deixa pousar com clareza nas coisas já conquistadas.
Porque é que leva tão pouco tempo a arder a paixão por tudo?
O que é que nos tornou tão mais enjoados, estupidamente acessíveis e intrinsecamente egoístas?
Quem nos fez presas fáceis do romantismo de chavão?
Porque é que quisemos ser tão parcos em demonstrações e tão fecundos na exigência ao outro.
Onde é que nos perdemos?
Como é que nos encontramos outra vez?
Dá para pedir para ver o filme do início?
Dá para voltar aquela fracção de segundo, em que uma avaria, não era mais que o despontar da graça preciosa daquele carácter. A pequena utopia que se encontra em quem se ama, e que não se quer nunca mudar, sob pena de estragar tudo.
Dá para reclamar para viver num tempo em que a construção da história é mais soberana que a vivência do momento?
Porque se der. É lá que me quero encontrar.
Sem medo, que uma ponta espigada do meu mau feitio não tenha conserto na tua emoção.
Carregada do meu jeito imperfeito de ser. Desejosa de descobrir nas tuas falhas os recantos da minha paixão.
E gravar a lacre na minha alma #atevelhinhos.

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Venha daí senhor Outono

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Venha daí senhor Outono com esse abanar de ancas, que só faz cair é folha.
Venha daí Senhor Outono acordar a pele ao solavanco dos arrepios e embrulhar as almas em lã grossa.
Venha daí Senhor Outono empurrar os casais para o fundo de um abraço num ninho feito de sofá. Venha daí Senhor Outono resgatar a paixão da leitura aos fins de tarde do Verão.
Venha daí Senhor Outono lembrar que a Saudade é bicho sem pressa. Lembrar às pessoas, que mesmo em chão firme o corpo escorrega. Venha daí Senhor Outono, encurtar o dia para nos lembrar que a noite também pertence ao sono.
E venha sem pressa, porque as memórias de Outono, amparam as saudades do Verão, preparam o corpo para o Inverno e devolvem-nos sempre a sensação que o Senhor Outono anda de caso com Prima Vera.
Venha daí Senhor Outono.
Venha daí.

*Shooting Editorial For CRISTINA | Milão

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.
Ainda não sei bem o que é o que o tempo nos queria dar quando nos juntou. Não percebi o que é que a vida nos quis oferecer, nem o que é que nos tirou. Ainda não sei qual é a lição que vou levar do tempo. Nem por quanto tempo o vou sentir, com esse nome que se dá às coisas sem nome que se demoram em nós.
Não sei se o lucro infindável de tudo o que poderia ter sido, vai ser o melhor trunfo sobre tudo o que realmente foi.
Às vezes confunde-me não ter dor concreta, senão o vazio.
Ás vezes perco-me a recordar, sabendo que a minha imaginação generosa, convida e entrar no caos das memórias, cenas que nunca tiveram espaço, tempo ou circunstância.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Porque a paixão não é amiga dos arquivos, porque as borboletas não fazem ninhos em pastas de computador.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia porque a força do que é agora, não se deixa embebedar pela promessa do que pode ser.
Mas eu não me importo.
Nem me importo das saudades que tenho, porque lhes reconheço um capricho de uma história que não cheguei a viver.
Ás vezes procuro-te no amanhecer, só porque preciso para o meu sono um pouco da nossa escuridão.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.

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– Ó mãe…

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– Os nossos bisavós são aqueles que já morreram?
Pergunta-me a Camila no carro.
– Nem todos os que morreram são nossos bisavós. Mas sim, os bisavós da Camila já morreram.
– Quem eram os meus bisavós? Insiste a Camila.
– São os avós da mãe e do pai. Respondi.
Não sei se as perguntas se ficavam por aqui. Mas quando falou nos bisavós bateu uma saudade das grandes do meu. Eu apanhei o isco e descosi sobre o tema, divagando, como se divaga em paixão na vida, quando alguém nos pergunta sobre alguém que amámos muito (e que já partiu).
– O bisavô da Camila, o meu avô, foi o homem mais importante da minha vida. O meu avô foi o meu pai verdadeiro. O homem que moldou o meu carácter, a pessoa mais boa que já conheci.
A única, cuja a ideia da ausência em vida já fazia doer. O avô foi o homem que me levou à igreja quando casei com o pai. O homem que ensinou à mãe o que é Amor, e que todos os dias me acorda para o lado bom da saudade. O homem que encheu as medidas do meu coração. Tenho muitas saudades do bisavô da Camila, mesmo muitas…
A Camila ficou calada. No silêncio do carro, ganhei consciência que me alongara na adjectivação porque a humildade não deixa na pobreza da linguagem aqueles que mais amamos.
Sorri de mim para mim. E quando já estava a estacionar o carro, a Camila pergunta a medo:
– Ó mãe…eu tenho que gostar das pessoas que não conheci?
– Não meu amor. Nem mesmo de todas a que conhece.

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