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“SER ALGUÉM”

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Ainda há muitos pais que se dirigem aos filhos utilizando a vulgarizada expressão: “Assim não vais ser ninguém na vida”.
E o que é mesmo ser alguém na vida?
Eliminando a hipótese mais romântica, que “o ser alguém na vida”, seria o “ser a vida de alguém”, o que é que nos resta?
O desempenho de uma séria de profissões socialmente aceites?
Uma educação colegial pautada por “Muitos Bons”, medalhas de mérito, aluno de quadro de honra, campeão das olimpíadas de matemática ou o vencedor do torneio europeu das composições?
Um advogado numa sociedade de renome, um engenheiro com um MBA a liderar uma multinacional ou um cientista bolseiro premiado nos EUA?
Sem desprimor para todo o brio que estes “seres de alguém” serão, e o consequente orgulho paterno-ó-maternal que o depósito frutuoso da nossa educação gera, não é nisto que penso quando desejo muito, que as minhas filhas, não sejam alguém, sejam apenas elas mesmas.
No limite, isto até pode parecer de um romantismo extremo, quase utópico, tipo frase de Instagram. Mas quando acresci ao ser mulher, o ser mãe, a única certeza que tinha era de que não queria impor modelos de sucesso às minhas filhas, que não queria viver obcecada com o “acima da média”, e que não queria repreende-las com advérbios de comparação ou classifica-las num ranking.
Não seria honesta, senão dissesse que me daria, tanto mais jeito que orgulho, que concluíssem o ensino obrigatório sem uma escolta de explicadores. Que me era muito conveniente que os seus hábitos de estudo contemplassem a auto-suficiência e o silêncio, e que adorava ser convocada à escola para ser agraciada apenas pela minha boa genética. Mas o que eu quero para elas, é mais ou menos o que sonhei para mim, que estivessem atentos às minhas capacidades, que me ajudassem a vencer os meus medos e que me aproximassem o mais possível das coisas que me faziam feliz.
E é isso que eu vou fazer com elas.
Dar-lhes as circunstâncias que as potenciem para lá da academia do saber. Dar-lhes todo o mundo que puder na minha disciplina do Estudo do meio. Aproxima-las do português da generosidade, do elogio, da motivação e do perdão. Vou tentar que vejam na matemática da vida a melhor equação, para que os seus denominadores comuns alcancem o melhor dos resultados.
Vou querer que vejam no céu estrelado do monte e nos pés descalços, a ciência mais pura do amor à terra em que vivem, e vou dar-lhes estradas, caminhos, terras e atalhos para explorarem os limites da sua educação física.
Tudo o resto eu deixo para a Escola formal.
Reservo-me o cuidado de regar à noite os sonhos.
Aqueles sonhos em que acredito.
Os que não nos acordam à noite no sobressalto do “sermos alguém”.

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O “suposto” espírito Natalício

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Não sou só eu. Todos os pais têm o dever de explicar aos filhos que o suposto espírito de Natal não vem num embrulho. O “suposto” espírito é suposto viver dentro de nós há muito tempo. Não vou discutir o aproveitamento comercial da quadra, porque desde que me lembro que é assim. E há apenas duas alturas do ano em que é inequivocamente assim: No dia de anos e no Natal. Quando era pequenina também eu vibrava com o aglomerado de presentes que se ia avolumando à volta do pinheiro nas vésperas de Natal. Lembro-me como se fosse hoje, do cuidado meticuloso com que aprendi a manusear a fita-cola só para confirmar que o que havia pedido, ser-me-ia dado.
A verdade é que éramos cinco irmãos, por isso não esperava mais do que aquilo que há 11 meses pedira para receber, nem mais, nem menos. E não sofria por causa disso.
Hoje pede-se tudo, de tudo. Cada anúncio é um apontar de dedos, Um “é isto” e um “eu quero”.
As crianças estão tão mal habituadas, que são capazes de não fazer cerimónia com a desilusão senão receberem o que pedem. Um embrulho é pouco e se for pequeno é um drama. Tento contornar os exageros da época mas é uma luta titânica contra uma indústria imensa.
Tenho pena, mas não é aquela pena velha que os idosos têm quando lamentam com saudade a generosa época da sua infância. Tenho pena por elas, pelas crianças, que devoram o Natal com a mesma sofreguidão com que o tempo nos devora a nós. Acho que sem querer tornamos esta quadra contrária ao apregoado. O Natal não é o apogeu da solidariedade, da generosidade e da entrega ao outro. E não é no natal que estes valores devem ser exaltados, sob pena das crianças acreditarem que esse pacote moral também vem num embrulho.
Do Natal aproveito mesmo a presença da família, a refeição demorada e o olhar arregalado das crianças sobre os embrulhos. Mas o meu TPC de mãe vai muito para além do feitiço da quadra. E é meu dever dar-lhes o maior pacote do mundo: Os valores certos, para não viverem a vida como se tudo lhes fosse devido e de preferência embrulhado.

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Os Filhos dos Outros

Os filhos dos outros
Quando casei tinha a honestidade dos sonhos de uma relação eterna.
Tinha por nobre intenção a criação das minhas filhas no seio de uma família inteira que iria inteira até ao fim. Se estava pouco preparada para uma separação, ainda mais estaria para tudo o que vem a seguir. Uma nova construção, uma nova família. 
Perdi muito pouco quando me separei. Cultivei uma amizade tão boa com o pai das minhas filhas que ainda hoje estrutura tudo o que temos.
E as minhas filhas?
As minhas filhas são minhas.
Nunca foi difícil amá-las mesmo quando a equação da liberdade me subtraiu. São minhas e serão minhas até ao fim. Mas já sou menina crescida. Era normal que me reinventasse, que voltasse a amar e que voltasse a sonhar com uma família. Mas nesse mesmo mundo, ao mesmo tempo e na mesma época, alguém que me era destinado a afeição, encontrava nas mesmas circunstâncias, as mesmas batalhas e os mesmos fins. Não brifei o criador com o meu “wanted man”. A vida não se dá a esses luxos. Acontece o que acontece. E de repente, estamos frente a frente com alguém que traz no cabaz da vida a mesma doce criação. 
Eu tenho filhos, os meus. Tu tens filhos, os teus. 
Ainda pensei que talvez fosse mais fácil estabelecer uma relação com alguém que não tivesse descendência, disponível para amar o que era meu. 
É egoísta, sim, realista também. Mas não foi assim.
De repente, a somar ao amor às tuas filhas, vês-te arranjar espaço para acomodar o amor pelos filhos do outro, que é teu também. Vês-te a dividir, a rachar, a arranjar tempo e circunstância, para que essas crianças que nunca existiram na tua vida, até esse momento, façam parte dela.
Sentes-te mal, porque em consciência não o querias, não o desejavas, e no ímpeto mais cruel e honesto, talvez não deixasses, se a vida te permitisse ser déspota sobre o que te dá.
Mas é o que tens. Na tua vida encaixam-se os filhos do outro, esse outro que a vida não permitiu que atalhasses a tempo de o impedir de ter filhos com outra, que os ama também.
É difícil. Mesmo no coração escancarado de uma mãe, abrir com a mesma força com que se abraça o que é nosso e desejado por nós, abraçar o que veio, sem desejo ou vontade nossa.
O coração é um órgão que ama, mas é um órgão que bomba. É elástico mas falível, e parte de um corpo humano. Não dá para lhe exigir tudo de uma só vez.
Não dá para o amarrar à culpa de não ser o primeiro a render-se à novidade. 
E não é só porque se é mãe, que se é capaz de acolher qualquer cria com a mesma santidade de uma irmã de Calcutá.
A primeira culpa a morrer é a de sentir.
Talvez o único segredo na ampliação desse amor que já tens ao que é teu, é a percepção da importância que esse acolher tem para a pessoa com quem estás e para as crianças que acolhes. 
Ninguém se importará que não enchas as suas caras de beijos com a mesma sofreguidão com que lambes os teus filhos. Bastar-lhe-ás apenas a atenção de quem recebe com carinho o que o outro ama.
Os filhos dos outros não serão teus filhos. A não ser que a circunstância da vida os faça tão presentes que o passado se ajuste como uma história sobre a tua.
E não interessa sofrer pelo que idealmente seria, porque a realidade é implacável sobre o que é.
E o único mal que fazes quando sonhas com o que não tens, é o de desaprender a amar o que já tinhas.

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Embaixador do Caraças

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Conheci o Ronaldo quando fui à Madeira com a Cristina para a célebre inauguração da estátua com o relevo mais proeminente da história portuguesa. É engraçado, porque o que mais me ficou, foi a reacção em êxtase das pessoas quando o Cristiano aparece na pequena arena madeirense, as aclamações enquanto subia os degraus para o palco, e o aumento substancial de volume quando ergue o braço para cumprimentar a audiência. Estava tão fixa naquele palco de gente e clamor, que levei uma cotovelada no ombro para ver se erguia a mandíbula descaída e começava a clicar. O Ronaldo tem 1,85 m, não é pouco, mas parece gigante. Acima de 1,80, 1,90, 2m, 3 m, tem aos nossos olhos a presença elevada à altura de um pequeno Deus.
Ainda hoje a Caetana reclama pelo autógrafo do nosso craque.
A verdade é que fiquei com vergonha de lhe pedir um rabisco no meu caderno. Não queria ir para a fila dos chatos mendigar para mim.
O assédio era tão grande, que o rapaz fixava mais os olhos nos papéis que lhe davam que nos olhos das pessoas que lhe pediam.
Para lá, de toda a inércia da discussão redonda em torno dos ordenados milionários vs mérito vs médicos vs cientistas, é indiscutível que o Cristiano é um embaixador do caraças do nosso pequeno País. E que os triunfos da sua carreira profissonal carregam o peso, não menos leve, da sua nacionalidade. Parabéns mais uma vez miúdo!
Aqui a portuguesa agradece.

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Bora lá outra vez

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Isto é um tema recorrente: As famosas festas de Natal das crianças.

Ora, se a época é de paz e fraternidade, não encontro nada de fraterno na busca incessante de uma mãe atrás de um fato de ovelha. E um desenrascar caseiro, para uma não menos trajada, menina do povo. Os meus suores frios começam logo na recepção da circular da escola e só terminam no final do espectáculo, quando garanto no olhar entusiasmado das petizes que o desenrasque da mãe não a enrascou. Sai uma ovelha da Primak, e uma menina do povo com um top da Bershka, uns collants castanhos e um lenço na cabeça em tons laranja. Atravessa a cidade em tumulto, filma, fotografa, beija pais, beija crianças, cumprimenta auxiliares, dialoga com professoras, garante um lugar à frente e depois desloca-te em corrida lá para trás, quando as crianças saírem em debandada ladeados por todo um presépio de amigos.

Há que certificar que eles te viram, que comprovam e validam o brio com que conquistaste o teu lugar entre os progenitores, para os reivindicares orgulhosamente como filhos. Corre muito, ainda que te apeteça pouco, elogia em exagero porque eles só vão ouvir uma parte ínfima do amor que lhes atiramos, nos piropos de final de festa. E depois, elogia-lhes a graça dos gestos e o jeito, ainda que tivesses na vigésima fila de trás a enviar sms´s. Sabes que eles nunca vão adivinhar o esforço que fizeste para estar ali, a uma hora estupidamente difícil, até que estejam no teu papel. E quando isso acontecer, tu vais ser a avó da frente, que já não tem saco para sms´s e que tem tempo de sobra para garantir o lugar na fila da frente.

Faz parte do acordo geracional. Não vale a pena amuar com a vida, só porque ela nos lixa duas vezes por ano com as festas da filharada. Eu cá não gosto, e como não posso pedir dispensa, envio sms´s com fartura, corro que me canso, elogio que me farto, mas é no palco cá de casa que me desforro.

E para ter uma foto assim, dou de barato, a factura do cansaço de mais uma festinha de Natal:)

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