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Mimo, hás de ter a vida toda.

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Tenho a certeza que não vais esquecer estas férias, até porque posso apostar, que são as últimas que te carregam ao colo com tanta frequência.
Sei que estás para lá da linha vermelha do mimo, mas também não era aqui com o pai saudoso, que te ia cortar o barato e ensinar a andar a pé. Coisa que tu já sabias.
Só tens tido duas modalidades nestas férias, a corrida e o colo.
Quando vais ao colo do pai à minha frente, vejo-te espreitar para mim de soslaio num misto, do “ando a abusar” com o “já abusei”. O meu olhar só precisa de se inclinar ligeiramente, para que tu percebas que essa manha tem perna curta e tempo contado. Aproveita bem o colo do pai e agarra com força esse pescoço.
Mimo, hás de ter a vida toda, mas começa a estar na hora de pôr esses pezinhos no chão.

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Uma semana com o Pai, uma semana com a mãe.

11111160_1158834114142224_1778280671482826367_oHá três anos que vivia feliz da vida, na lógica da semana sim, semana não. Uma semana com o Pai, uma semana com a mãe. Quando o Pai das loiras vai viver para África do Sul, a minha vida muda radicalmente, e passo subitamente, da custódia partilhada para a total. Confortável na gestão espaçada do meu tempo, com uma quinzena mensal para a desresponsabilização sobre as rotinas, as compras, as aulas, os Tpc´s, as dores, as queixas, as festas e todos os afins sem fins que fazem parte do pacote da maternidade, “flipei”. Era o fim da minha bolha de oxigénio, uma contracção forçada sobre o meu tempo, um golpe à minha liberdade.

E a quente, sem qualquer mácula sobre o amor que lhes tenho, pareceu-me um dos maiores entalanços que a vida me ofereceu.
Resisti mas não havia nada a fazer.
Dizia a brincar ao pai: – Não me faças isso que corro o risco de me afeiçoar:)
Hoje quando as vejo agarradas como lapas ao pescoço do pai, quando o vejo inquieto tentando sorver-lhes a presença, o afecto, as histórias. Fixando-as com carinho para memorizar os traços, os sons, as vozes e o feitio. Penso que não saberia estar do lado de lá da saudade, longe das minhas duas fontes de vida. E ainda que haja dias, que tudo o que deseje é o regresso terno ao passado partilhado, sei que sou uma filha da mãe com uma sorte do caraças.

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Dias Duros

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Estes dias são duros. O sol brilha. O céu está lindo mas o dia é duro na mesma. O pai das loiras regressa a África em trabalho e a hora de despedida molha os olhos das minhas filhas.
Elas já sabem que agora é assim, e por tempo indeterminado a tristeza determina-se. Tento ser forte, mais um mês e estamos lá, à dobrar o cabo das tormentas, atrás da esperança que lhe ficou como nome. Hoje foi um dia duro.
Os braços não queriam largar. E ainda que eu lá estivesse como a representação de tudo o que ainda fica, pesava mais a saudade antecipada de tudo o que ia. As malas gordas à porta também não ajudavam, o olhar desviado do pai amigo, do pai aflito. O abraço que não quer apertar de mais nem desapertar de menos e o beijo que tem medo de se demorar sobre a lágrima. Devia ser a força, o esteio, o suporte seguinte, o colo eterno, mas quando o dia é duro, quando a água lhes inunda os olhos, e a voz treme nas coisas que quer salvar, eu acabo sempre, por me desmanchar um bocadinho. Agora já passou, vai passando, o avião já está no ar, vai voando, as saudades dissipam-se e os pés sobre a terra descobrem de novo o seu lugar.
O dia foi duro, sim.
Mas quem ama, sabe que o amor é mais.

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“QUASE” UM BOCADO

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O pai das loiras fez ontem anos e nós estávamos a banhos numa piscina interior num hotel fabuloso em Montargil e não fomos muito efusivas….
A verdade é que estávamos demasiado entretidas a expulsar os casais românticos da água quente.
Ainda lhe cantamos os Parabéns, mas os perdigotos de água, não lhe deram o compasso necessário para que ficasses convencido da sinceridade do nosso esforço.
Fiquei a pensar nisso.
O Viber também não ajudou e a rede nas planícies alentejanas é tão escassa como a juventude. E na viagem de volta, quando já parecia dar, viemos a conciliar o sono, com a paisagem pardacenta e a digestão das migas de espargos.
Como não te dissemos grande coisa ontem, dizemos-te agora, nesta carta aberta de Saudade, escrita a três mãos:
“Pai, tenho saudades tuas. Promete que quando voltares vamos brincar uma semana inteira. A mãe diz que está quase. Mas ainda falta “quase” um bocado” Camila
“Pai, ontem sonhei contigo. O Eugénio (o padrinho) tinha ido buscar o pai ao aeroporto e feito uma surpresa. Quando abri os olhos e vi o pai, fiquei tão feliz. Depois acordei e percebi que era um sonho. E fiquei tão triste. Tenho saudades do Pai. Muitas. E não quero dizer mais nada. Quero que volte.” Caetana
“Gonçalo, Muitos Parabéns! Sei bem o que te custa passar o dia de anos sem as miúdas. Elas têm muitas saudades tuas.
Mas o bom disso é saber que só sentimos muitas saudades das coisas que nos fazem muita falta. Volta rápido e bem.” Isabel

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O QUE APRENDI COM O HOMEM QUE CHAMEI DE PAI

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Estou há mais de uma hora no Aeroporto regional de Medellin à espera que as condições meteorológicas libertem o voo. Foram aqueles dois segundos generosos que pedi ao criador, para ter tempo útil de descarregar fotografias, pôr me a par das notícias, levantar dinheiro, mandar mensagens aos amigos, escrever e sentar o rabo irrequieto por uns momentos. Aqui onde estou há muito burburinho à medida que os voos vão sendo cancelados e adiados.
Entretanto já organizei as 1.800 fotografias que tirei até agora para prosseguir animadamente com a minha reportagem da Colômbia.
Quero contar tanto, de tudo o que já vi e vivi aqui, que às vezes engasgo entre a escolha das melhores fotografias e das palavras certas.
Hoje é Dia do pai já pus o meu post tributo pela voz das loiras. Mas acho que posso acrescentar mais qualquer coisa a um tópico que me é sensível. Não tive a sorte de ter um bom pai, pensando de forma razoável, acho que não cheguei sequer à sorte de o ter.
Os rasgos da pouca convivência familiar não deixaram sobras para amaciar a saudade. Se fosse dada ao lamento sofreria com a ausência do que não tive. Sou sincera, invejo cada post de tributo que li hoje, cada fotografia queimada pelo tempo que vejo, cada palavra sentida que escrevem. Não tenho, nunca tive e nunca terei essa sorte. A vida deu me um avô que sublimou o afecto que a minha história não quis desenhar na figura de um pai.
Talvez por isso fui sempre tão cuidadosa na relação que sonho para as minhas filhas, no afecto que lhes desejo, na admiração, na candura, na referência, no afecto, na presença e na educação do pai, o pai que têm a sorte continuada de ter.
Talvez também por isso, tenha tido o cuidado de minimizar o ego e de dar asas à maior aprendizagem de generosidade do meu carácter, para que mesmo separados fossemos sempre amigos.
E um pai amigo da mãe é sempre um pai melhor.
E a prova é me confirmada por elas todos os dias.
Não sou mestra de coisa nenhuma, mas se pudesse, não deixava que nenhum ser se fizesse adulto, sem a capacidade de se suplantar a si mesmo, aos seus erros e rancores, possibilitando que a pessoa com quem um dia desejamos o melhor fruto comum, possa ter todas as ferramentas que precisa para lhes edificar o melhor dos castelos.
Hoje não posso pôr um desses textos que invejo, nem socorrer as boas memórias com uma fotografia queimada. Mas se calhar hoje, também já não lamento o que não tive, só porque a vida me foi ensinando a ver tudo o que já tenho.

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Eu juro que não digo a resposta

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Ontem, enquanto estava a escolher a imagem para ilustrar o texto, a Caetana estava em pé ao meu lado.
Depois de muito scroll sobre as fotografias do pai, decidiu perguntar-me:
– A mãe acha o pai bonito?
Respondi-lhe que sim, claro.
Insatisfeita com a rapidez do meu atalho, reforça:
– Quem é que a mãe acha mais bonito, o pai ou o Pedro? (namorado da mãe)
Rí-me.
Para dar um empurrãozinho à resposta, ela acrescenta:
– A mãe pode me contar. Eu juro que não digo a resposta ao Pedro.

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Atestada de amor

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O pai das loirinhas está fora por um mês.
Acima da boa diplomacia, uma franca amizade, e como era trabalho, e não uma escapadela furtiva as ilhas Fiji, condescendi (se bem que sou sensível ao argumento das viagens furtivas e não havia propriamente outra mezinha).
O que significa que a custódia partilhada passa a ser total, por 30 dias úteis e inúteis.
Tenho a certeza que o pai das loiras já sabe que vou exercer esse crédito em igual desproporção:) Ainda não sei se vou permutar por 2 meses na Índia* ou por idas semanais ao SPA.
Até lhe disse, ao jeito de brincadeira, que ele não me podia fazer isso, porque eu corria o risco de me afeiçoar.
Afeiçoada eu já estou. A elas e aquela pausa negociada que nasceu do fruto da nossa separação. Devia respirar compassadamente, mas estamos a meio da “experiência” e eu já arfo.
A respiração ordeira dos primeiros dias, os gestos delico-doces, o gosto das primeiras fichas de férias e o leito partilhado a três é intervalado com doses intermitentes de impaciência.
É certo que vocês sabem que eu vos amo incondicionalmente, daí a corrupção ao desvario deste meu lar. Quando entro em casa ergo logo as mãos ao jeito de rendição e quando vos beijo antes de dormir, adormeço os meus desejos no prolongamento do vosso sono. Tenho tentado ser ambos, safa-se, mas não safa tão bem.
Dar-me-ia uma certa soberania sobre a tarefas se vocês não andassem sempre atrás de mim como os filhos de uma pata.
Deve ser reflexo óbvio da falta do Pai Pato.
Quando falamos com o “daddy” por Skype tenho vontade de as empurrar para dentro do monitor. E tenho a certeza que o olhar enternecido do progenitor, se faria real, se as pudesse receber do outro lado.
Isso consola-me e segura-me.
Ainda não lhes perguntei esta semana se sou boa mãe.
Não vou arriscar a demência da culpa de tentar ser tudo.
É o amor. Ninguém disse que era incólume.
Esta é a vossa mãe. Meio avariada, meio desvairada mas atestada de amor.
E sim pai, elas sentem muito a tua falta.
E creio que a mãe Pata também.
P.S:* India, já decidi:)

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– Ó mãe…

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– Os nossos bisavós são aqueles que já morreram?
Pergunta-me a Camila no carro.
– Nem todos os que morreram são nossos bisavós. Mas sim, os bisavós da Camila já morreram.
– Quem eram os meus bisavós? Insiste a Camila.
– São os avós da mãe e do pai. Respondi.
Não sei se as perguntas se ficavam por aqui. Mas quando falou nos bisavós bateu uma saudade das grandes do meu. Eu apanhei o isco e descosi sobre o tema, divagando, como se divaga em paixão na vida, quando alguém nos pergunta sobre alguém que amámos muito (e que já partiu).
– O bisavô da Camila, o meu avô, foi o homem mais importante da minha vida. O meu avô foi o meu pai verdadeiro. O homem que moldou o meu carácter, a pessoa mais boa que já conheci.
A única, cuja a ideia da ausência em vida já fazia doer. O avô foi o homem que me levou à igreja quando casei com o pai. O homem que ensinou à mãe o que é Amor, e que todos os dias me acorda para o lado bom da saudade. O homem que encheu as medidas do meu coração. Tenho muitas saudades do bisavô da Camila, mesmo muitas…
A Camila ficou calada. No silêncio do carro, ganhei consciência que me alongara na adjectivação porque a humildade não deixa na pobreza da linguagem aqueles que mais amamos.
Sorri de mim para mim. E quando já estava a estacionar o carro, a Camila pergunta a medo:
– Ó mãe…eu tenho que gostar das pessoas que não conheci?
– Não meu amor. Nem mesmo de todas a que conhece.

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Um canino vale o mesmo que um molar

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Tenho a sorte, muito trabalhada por ambos, de ter uma relação para lá de boa com o pai das minhas loiras.
Mas Custódia partilhada, é custódia partilhada. E ainda que falemos quase diariamente sobre os mais diferentes aspectos da educação das miúdas, há sempre situações imprevistas que nos escapam. E outras tantas, que parecem tão ridiculamente pequeninas que nem perdemos tempo a falar delas.
A fada dos dentes foi um desses assuntos. Espertas, as loiras garantem que os dentes que caiem em casa do pai valem 10 €, contra os 2€ por dente que se praticam cá em casa, independentemente da sua posição na boca. Um canino vale o mesmo que um molar. Assimilada esta realidade, percebo agora que a fada dos dentes do meu lar está em situação de precariedade, enquanto há uma fada e duas loiras sortudas que florescem lá para os lados do pai.
E também consigo estabelecer alguma relação causa-efeito, quando realizo, que de todos os dentes que as minhas filhas têm na boca, só dois é que caíram cá em casa. O mais engraçado é que quando a Caetana me liga toda contente para me dizer, que lhe tinha caído mais um dente (agora percebo o histerismo das minhas crias com a arqueologia da dentição) a Camila berrava qualquer coisa lá atrás.
Nisto, a Caetana dá um berro – Desaparece!!! Estou a falar com mãe ao telefone!
Contente e/por Incapaz de exercer qualquer reprimenda educativa à distância, pergunto-lhe o que é que a Camila tanto grita.
Responde a Caetana furiosa: – Ela é parva mãe!
Está a dizer que eu arranco os dentes só para ganhar dinheiro!
Esperemos bem que não.

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Dias Felizes

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Já foste difícil, tão difícil, que cheguei a dizer ao teu pai, em jeito de brincadeira, que nos concentrássemos apenas na Camila.
Quando estavas confinada à minha barriga, não me fiz rogada, e fartei-me de pedir ao criador que te inundasse de características boas, que te banhasse de qualidades ímpares, que me facilitasse a vida com um ADN propenso à auto-suficiência e muito amor próprio. Tentar não custa. E quando nasceste, quase como castigo, achei-te feia, muito peluda, magra e demasiado chorona.
Amei-te logo, porque se ama sem fronteiras o que é nosso. E ri-me, ri-me de ter sido tão tonta a desenhar-te as feições, a moldar-te o carácter, como se eu fosse alguma oleira de jeito.
O tempo foi passando, foi voando, foi correndo, e tu foste-te fazendo dentro do meu aquário. Com um ano, já eras uma boneca, com uma destreza física tão grande, que se te reclamassem para o circo, cederia como uma dádiva à humanidade. Falaste cedo, andaste cedo e seduzias qualquer criatura que se abeirasse, com uma gramática e um raciocínio tão adulto, que às vezes dava vontade de te desmontar só para te ver por dentro.
Entraste aos trambolhões na 1º classe, rebolaste sobre a separação dos teus pais, e com a mesma destreza com que fazias o pino, ergueste-te sobre tudo o que te doía, com uma força tão grande, que hoje, já acho que és mais alta que eu.
Nunca mais pedi nada ao criador, que não fosse a possibilidade de te amar de perto.
E ontem, quando me mostraste o teu primeiro conto com 6 páginas e 800 caracteres, quando me abraçaste enquanto lia, por entre erros e palavras adultas, e me disseste ao ouvido:
– Quando for grande, quero ser escritora mãe. É isso mesmo que quero ser, escritora.
Fiquei tão orgulhosa de nós e tão grata a vida, que vou inscrever a data no meu calendário dos dias felizes.
E se amanhã, mudares aquário, de sonhos e de ideias, porque a vida é um palco. Acho que sabes, que vou amar os teus desvios e as tuas rectas. E que prometo, manter a capacidade de te LER entre os erros e as palavras adultas.

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