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Sentir

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Dizes que não percebes porque é que ela não chora quando o pai vai embora. Dizes com voz ferida, que ela não sente. Que quem sente fala, que quem sente, diz. É difícil para mim explicar-te que há pessoas que sentem, mas não falam do que sentem, que choram por dentro, que gritam por dentro, mas que não mostram aos outros. A tua irmã é diferente de ti. Tem a mania que é durona, mas sente, tem a mania que é seca, mas chora. E acredita, que sente igual a ti, a falta que o pai lhe faz. Eu sou das que sente, mas já fui das que cala. Agora deixo o sentimento falar em voz alta, não o filtro, não o travo e não o encomendo. Mas já fui assim, durona. A última a deitar a lágrima. Como se no final fosse receber uma medalha de valentia. E já senti muita inveja de quem chorava com o corpo todo, quem enlameava a cara de lágrimas e não escondia o inchaço dos olhos cansados. Depois aprendi a disfarçar a dor com alegria, tornei-me palhacinha das minha emoções, aquilo que a tua irmã às vezes faz, quando não suporta o peso do que carrega.
Aí maquilha-se a tristeza de piada, exclamam-se frases de motivação, ergue-se o peito para a frente, levanta-se o queixo e desafia-se o medo de sentir.
Tu não. E eu também te adoro por isso, tu choras quando sentes e ris quando tens vontade. Mas não és melhor que ela por isso, és diferente. E nós precisamos uns dos outros, para não nos afundarmos todos num abraço que tem mais de peso que de bóia. Acho que temos sorte cá em casa. Para cada peso, haverá sempre duas medidas. E assim a saudade estará sempre de mãos dadas com um sorriso.

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Uma mãe feliz e cansada

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Já não há skype, facetime e whatsapp que mate a bilateralidade da Saudade e o meu cansaço. Por muitas razões, mais ou menos óbvias, todos ansiamos de novo pela santíssima trindade do Pai e filhas.
Eu cá fico-me pelo Espírito santo de quem atravessou este último período a ferros, entre testes, saraus e explicadores. Venha daí essa saudade com sabor a reforma antecipada. Deste lado há uma mãe feliz e cansada, a precisar de um tempo largo de namoro a dois, refeições a dois, passeios a dois, despertar a dois, e tudo o que de bom se faz quando a três já é demais.

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Semana de folga da mãe

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A semana da Páscoa foi a semana de folga da mãe.
Com o pai em Portugal, consegui acabar um livro e começar um novo, tomar um banho de imersão, dormir 13 horas seguidas, empilhar a loiça toda que quis, ver documentários bons, séries más, comer de lata e de frigideira, deixei todos os casacos que vesti onde quis, os sapatos onde os encontrei na manhã seguinte, saldei jantares, passeios, almoços, revi amigos e só não fiz novos, porque o melhor desta fase é ir a fundo nos que já temos.
Não escrevi muito porque tive ocupada a viver outras frentes. Encontrei-me, reconciliei-me e dormi muito mesmo.
Tanto, que acho que os meus olhos ficaram como os ovos da páscoa que não comi.
O Pai vai embora amanhã e as loiras devem estar a chegar a qualquer momento.
Já tive que passar “geral” na casa, encobrir as minhas intermitências, suavizar os meus passos de desleixo, esconder os meus excessos de liberdade. Tenho saudades delas, por muito que me custe deixar para trás a loiça empilhada e o ímpar do sapato por descobrir.
Estou em modo “amante apaixonado” que já foi ao espelho vezes sem conta verificar se tem a camisa direita. Gosto deste pacote de ansiedade que vem com o Amor. Tenho-lhes tanto de tanto que tenho. Tive uma Santa Páscoa não há dúvida.
Mas está na hora de devolver os pintos à galinha

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O fazer ocupa lugar

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Não tenho dado grandes notícias porque o fazer ocupa lugar.
Mas esta fotografia sintetiza “mais ou menos” o momento que ando a viver. Depois dos dois últimos meses a lutar pela manutenção das rotinas de estudo e da tranquilidade possível da vindima do lar, eis que chega o tão esperado pai.
A mãe alivia o cesto e passa a fermentação das uvas ao progenitor. Acredita que o fruto está podado da melhor forma possível e entrega-se ao cultivo privado do seu talhão: As palavras, as fotografias, as tertúlias, as viagens e o amor.
Estava tão habituada ao cuidado da vinha, que tive alguma dificuldade em largar a faca da poda, em poisar o cesto e olhar só para o meu terreno de cultivo. Não posso negar que este monopólio de mãe-cuidadora produziu um mosto tremendo de saudades das minhas filhas, mas para continuar a vingar no meu processo de autenticidade, preciso de cuidar do meu terroir para me fazer essência e depois vinho. Uma forma de sonho entornada na pessoa que quero ser. O natal está a porta, as uvas regressam ao fermento do lar e eu vou dar mais uns encostos de poda e mimo. Depois, posso lavar os cestos e deixa-las estagiar na barrica do pai enquanto dou um pulinho de mãos dadas ao Equador e deixo o vinho a respirar:)

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Aguenta coração.

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Aguenta coração.
A Caetana perguntou-me ontem ao jantar se eu estava desejosa que o pai chegasse. Confesso que até fiquei com medo que ela tivesse escutado algum desabafo, desses, que qualquer mãe com discernimento faz quando está pelos cabelos ou prestes a perde-los a todos:)
Disse que não percebia a pergunta. Perguntei-lhe, se estava a querer dizer que eu estava cansada das minhas filhas ou desejosa que o pai chegasse, porque também eu tinha saudades.
Fitou-me. Para não incorrer em conversas desanimadoras do desempenho do meu esforçado papel maternal (e paternal desde há uns meses para cá) rematei: – Eu não estou desejosa que o pai chegue, para me ver livre de vocês (mentirinha). Mas a verdade é que me vai descansar o coração saber que vamos pôr um fim nessa saudade. E sim, também eu tenho saudades do pai.
Um dos melhores amigos da mãe. E os amigos bons nós queremos por perto.
Contente com a minha resposta sorri. A Camila que até então observava, acaba de dar uma garfada no bife, engole e diz:
– Ó mãe, mas eu vou ficar o tempo todo com o pai, todo! Desculpa lá, mas a mãe tem nos o tempo todo, é injusto! Eu quero estar com o pai.
Olho para o Pedro que estava ao meu lado, suspiro, e sai-me um:
– Bitch…
Pergunta a Caetana do canto da mesa:
– Porque é a mãe está a chamar a Camila de Praia?
Meio embaraçada respondi: – Porque vocês às vezes são tão incertas como as ondas do mar.
E pus uma garfada à boca para lançar um parágrafo sobre a discussão.
Haja sempre lirismo em casa e muito amor, pensei.
E venha a mim a minha “bitch”, porque eu estou mesmo a precisar de férias:)

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E TUDO O VENTO LEVOU…

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Bom dia!
Mesmo depois de ter começado a manhã a ser expulsa da biblioteca da escola por estar a falar ao telemóvel com a professora da minha filha.
Passo a explicar…Ontem cheguei a casa às 20h. As loiras não tinham tomado banho e era hora de jantar. Estavam serenas no sofá, como se a casa fosse apenas um prolongamento do recreio com mais almofadas. Respirei antes de entrar em casa, e só não suspiro mais alto, porque preciso daqueles segundos de ventilação pulmonar para me fazer à auto-estrada da vida doméstica, com enfoque muito particular, neste belíssimo capítulo da maternidade e seus desafios.
Avancei com o jantar, tomam banho a seguir, pensei. A loira mais velha faz fita porque a sopa está doce, a mais nova resmunga que está quente. Os cabelos misturam-se com os fios de esparguete, entornam-se goles de água sobre o prato fundo. Siga.
Quando finalmente as consigo deitar, liga-me o pai pesaroso a querer matar saudades. Ainda a meio da digestão de tudo, corro para as mochilas. Mãe que é mãe exige e controla. Enquanto não lhes reconhecer responsabilidade suficiente para não ter que encontrar pedaços de carcaça dentro do estojo, vasculho e vasculharei, sem qualquer afeição ao verbo.
Lá estava o caderno de matemática da Camila. Tinha ido ao Apoio de estudo a seguir às aulas mas não havia um exercício que tivesse certo. Olhei para o exemplo de cálculo, habituada às operações matemáticas na vertical, tive dificuldade em perceber o desdobramento das dezenas, para voltar a somar às centenas e finalizar o cálculo. Pensei googlar mas eram 23h e estava podre. Amanhã é outro dia, pensei. Como a última frase da Scareltt O´Hara em “Tudo o vento levou”.
Só que aqui o vento, deixa quase tudo no meu colo.
Chegamos às 8h ao colégio, encaminhámos a Caetana, e seguimos para a biblioteca para tentar terminar os trabalhos, longe da confusão do recreio. Olhei novamente para os cálculos, para a folha esborratada de esforço entre o lápis e a borracha, e achei mais prudente, ligar à professora a pedir auxílio, só para engrenar com uma certa mestria no cálculo da operação.
Calculei mal, porque me esqueci que estava na biblioteca, e embora ciente de que éramos as únicas almas, não se pode falar ao telemóvel, como é óbvio. Fui repreendida com firmeza pela guardiã dos livros. Pedi desculpa, levantei-me e fui para a porta aprender a fazer contas, deixando a Camila no conforto da pausa. Quando me sentei faltavam 5 minutos para o toque. Apeteceu-me tanto fazer por ela. Senti-a completamente perdida. E eu também. Tão esborratada como aquela folha de papel quadricular.
Estava ciente de que ela ia ter teste dentro de uma hora, e não tinha a mínima noção do que ia fazer.
Apertei-lhe a mão com força, beijei-lhe a testa, ajudei-a arrumar o estojo e saímos. A caminho da sala, ajoelhei-me à sua altura e disse-lhe:
– Camila, hoje o teste não vai correr bem. Mas “amanhã é outro dia” e nós vamos aprender a fazer essas contas.
Quando a deixei na sala, já não sei se acreditava na força da expressão do amanhã. Que é o que acontece quando o Hoje nos embate assim.
E tudo a mãe levou…

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CARTÃO DE CIDADÃO – EPISÓDIO 2

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CARTÃO DE CIDADÃO
EPISÓDIO 2: Quero um cartão de cidadã como deve ser!

Hoje fui à loja do cidadão levantar os cartões de cidadão das minhas filhas.
Quando me acomodava na cadeira, sai-me literalmente, uma mulher por detrás do biombo e diz: – Você é a mãe da Caetana?
Percebi nesse momento que tenho que passar a andar com uma bandeirinha branca para enfrentar a tua adolescência.
Disse que sim, não havia hipótese de mentir, elas tinham nas mãos a minha documentação oficial, não dava para passar por Tia Irene.
A senhora ri-se e diz:
– Nunca nesta vida vamos esquecer a sua filha! Eu, as minhas colegas e toda a gente que teve com ela naquela fila, enquanto demorava 1 hora e meia a escolher a foto para o cartão.
Fiquei na dúvida se me devia desculpar, amenizar a imagem extravagante da loira, que insiste em não querer ver impressa num cartão oficial, uma imagem que não a traduz devidamente.
Pedi desculpa. Acrescentei: – Sabe, que sou fotógrafa, ela está habituada ao processo de selecção e edição das imagens.
A senhora continua: – O pai que vinha com ela, estava tão desesperado, que às tantas pisquei-lhe o olho, como quem diz, tenha paciência que isto já se resolve. A Caetana topou-me e diz-me com as mãos cruzadas sobre o peito: – Porque é que está a piscar o olho ao meu pai?
Ri-se, rio-me, rimo-nos e acrescenta: – Mas ela é mesmo muito bonita! Às tantas vira-se para o pai e diz: – Com tanta hora para vir tirar o cartão, porque é que viemos logo de madrugada quando estou cheia de olheiras? Ri-me, riu-se e rimo-nos de novo, encolhi os ombros, peguei no cartão e olhei a fotografia.
Responde a Senhora por detrás do biombo: – Essa nem está má! Mas havia lá melhores…
Imagino que sim. Mas melhor do que isto não há.
As minhas desculpas a todos os que sofreram com o atraso provocado pela minha loira e o meu sincero agradecimento à senhora do biombo, que diz que faz questão, que seja ela, daqui a 5 anos, a tratar-lhe da renovação.
Boa sorte!

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O momento

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Acho que é isto que define a vida e a fotografia: O momento.
E este momento define muito para mim.
O dedo tremeu, confesso.
Mas o amor que vos tenho, dá me a força que preciso para não vacilar, quando vejo à minha frente, tudo o que ambicionei para mim e para elas.
Eternamente grata.

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As Mães são sempre “Gigantes”

A última vez que fui mãe, em verbo imediato e parido, foi há quase 7 anos. E não tenho grandes memórias da minha gravidez. Não no sentido mau, do património acumulado, até mais, no sentido bom.
Foi tudo tão desejado e depois tão tranquilo, que nem os pontos que não levei, me ajudam a recordar, o preciso momento em que as minhas filhas saíram da minha barriga para o meu colo.
Tenho reminiscências de um ternura desmedida, da vontade que tinha de lhes conhecer as feições e de um “cagaço” sincero de tudo o que ia mudar, a minha vida, o meu corpo, o meu destino.
Hoje falei com a Mariana, que fotografei há uns meses, grávida de gémeos.
Numa conversa curtinha, recordei tudo o que nos enche quando o medo é sacudido pela força dessa nova presença.
Não fosse o regresso das loiras ao lar, e quase, quase, que invejava aquele momento, em que trazemos para casa um sonho multiplicado, uma equação pequenina que promete mudar tudo e um sentimento, que longe de se engasgar, vem selado para sempre.
Sempre gostei de fotografar grávidas, há uma paz tão serena, um poder tão grande.
A maioria julga-se enorme (de peso).
Eu, admiro-as da minha lente, gigantes (de pessoa) na condição soberana de mães.

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Era agora, era ali…

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Era agora, era ali, naquele momento em que desci com as loiras para as entregar ao pai. Ou se calhar foi mais à frente, quando já subia sozinha no elevador cheia de resoluções, de sede de mojitos e de projectos. Ui…aquele momento em que me achei só, no silêncio de mim. Tanto buffet de tempo, tanto sangue em circuito fechado, tanta energia a redundar entre os hemisférios.
E uma culpa manhosa, a querer pegar-se com o bem estar, de só se estar assim. Queria correr entre as hipóteses, esgravatar o fim de tudo, aborrecer-me sem complexos, render-me às insónias cozinhadas por mim.
Hummmm….que se isto é egoísmo, aceito-o. Disposta a dar por permuta outro dos meus defeitos. Não há culpa mais honesta que a saudade de nós. E se o tempo me abraça a fazer doer é porque também ele sabe, que não há maior cumplicidade com a vida, que a viver assim.
Ui…..senão fosse este calor morno, esta culpa fria e este fervilhar de rumos. Porque se o corpo permanece obediente e se eu continuo sentada, a verdade levanta-se e acusa a Saudade.
De, só eu para mim.

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