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No feed de notícias do Facebook

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Faço um esforço titânico para não comentar algumas coisas que leio no feed de notícias do Facebook, e um esforço ainda maior para não comentar quem comenta despudoradamente tudo o que lê, numa exaltação de ofendido, com um olhar carrasco, com uma obsessão cega de justiça, como se fossem carniceiros da razão e bastiões de bom senso. E mesmo quando uma situação me choca ou toca, faço um esforço por recolher fontes de informação que me sustentem emocionalmente a razão. Não deixo que o brio maternal (que não reclamo) nem as práticas alimentares (que não pratico) nem a religião (que não profetizo) se sobreponham sem escrúpulos ou filtros às situações que são descritas.
E o mais estranho de tudo, é que há notícias “humanamente” tão graves, que conseguem ter comentários que as suplantam em horror.
Não sei quem são essas pessoas, nem quero saber, mas gostava que a minha vida fosse suficientemente sã, para que nunca tenha que colidir, interagir ou qualquer outra prática verbal, com esses seres que de humano sobejam muito pouco.
Bom dia Primavera:)

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#Atévelhinhos

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Já me chamaram noiva intermitente.
E já nos rimos disso juntos.
Estamos noivos.
E ainda que deixe o anel repousar na mesa de cabeceira, tenho o coração em ti. A minha jóia boa é o que sentimos um pelo outro. É essa que quero polir todos os dias, é essa certeza que não quero atirar para as intermitências da vida.
O amor é jogo duro, também. Nem todos os dias são fáceis, nem todos os dias são ágeis. Vives com uma miúda hiperativa ao teu lado, que tem duas loirinhas turbinadas agarradas às leggins rotas da mãe. Quando chegas a casa, tenho a certeza que ao contrario de poisar, tu levitas no furacão de nós. É sempre tão divertido, quanto cansativo, tão diferente, quanto exigente. Visto de fora parece um sonho, visto de dentro consegue ter contornos de pesadelo alucinado. Tens sabido manobrar connosco esta aventura, a noiva intermitente, as loiras com déficit de atenção, as minhas insónias, os meus projectos, as minhas conversas sem fim e nós. Nunca prometi que ia ser fácil. Nunca me pediste que fosse diferente.
Estamos noivos. E um dia vamos casar.
E até lá, vamos continuar a rir de tudo juntos. Na nossa varanda virada a poente, com o nosso tinto e o nosso olhar demorado.
E a única dívida que teremos com a intermitência é a permanência de nós.
‪#‎atévelhinhos‬

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Ontem uma amiga morreu.

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Ontem uma amiga morreu. Não há outra forma de escrever isto. Foi-se de uma forma tão inesperada que custa não esperar que seja mentira.
A vida vai continuar por cá. Mas fica um vazio pálido e estranho. Uma responsabilidade absurda por continuarmos todos vivos.
Estava refastelada no sofá a meio de um filme da treta, quando me telefonaste. Fui à varanda para ouvir melhor, falavas tão atabalhoadamente que no meio da morte só consegui perceber riso. Pela forma como falavas, achei que estavas a gozar. Como se alguém gozasse com a morte de alguém. Mas eu estava no sofá a ver um filme ridículo. Desculpa. Mas não consegui passar das pipocas à Morte, e já não consegui regressar às pipocas, quando as palavras se fizeram nítidas e ouvi na tua voz chorada:
– Ela morreu.
Fiquei debruçada na varanda, sem saber como se acode da morte quem já morreu. Naquela sensação estúpida, que o embaraço na busca da palavra certa faz prolongar. Perguntei coisas. Aquelas coisas, que são factos, que pouca interessa à tristeza que se quer chorar. Quando desligaste fiquei assim a olhar para o sofá amarrotado, para um filme em pausa, para a imagem congelada e para a vida que já não estava lá.
Tinhas a minha idade e os teus filhos têm a idade das minhas.
Falamos na quarta-feira e combinamos que íamos jantar um dia destes.
Não fui sincera. Repeti essas palavras na cortesia da promessa de um “Até já”. Como já te tinha repetido todas as vezes que falamos antes por outro assunto qualquer. Não te salvava a vida se te tivesse levado a jantar, mas tinha te dado mais tempo do meu. E vou ter sempre pena por isso.
Sei que só há uma forma inteligente de vingar a morte:
A celebração da vida. Mas é tudo tão retórico neste vazio…
Antes de desligar o telemóvel a nossa amiga disse-me:
– Bebe um copo por ela e faz-lhe um brinde. Tenho a certeza que era isso que ela gostaria.
Fui à cozinha e enchi um copo. Da cozinha fui para a varanda. Estava frio. Olhei para cima. Olhamos sempre para cima quando morre alguém. Sentia-me absurdamente viva. Quis dizer qualquer coisa e não consegui. Ergui o copo ao alto e bebi. Tenho pena que a vida não te tenha dado mais tempo. Aquele tempo que também damos aos filmes da treta segundos antes de recebermos um telefonema triste. A vida vai continuar por cá.
E eu bebi o copo até ao fim.
Até já miúda.

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Um dia destes mudo-me novamente.

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Um dia destes mudo-me novamente.
Sinto saudades da Baixa e do rio.
Perdi-me de Alfama.
Onde acordo agora, chego a todo o lado, mas não vejo o rio.
Não vejo os barcos atracados, os navios a rasgar estrada, nem consigo que os olhos abracem a outra margem de mim.
Onde vivo, há muitas artérias e caminhos mas poucos lugares.
As pessoas têm pressas, até delas mesmas.
Onde habito, há demasiados escritórios e consultórios. Tenho um elevador que nos leva, mas poucas coisas há que me elevam.
Perdi-me de Alfama.
Onde as deito a noite cai deserta. Não há almas a passear nas ruas, nem namoricos sob a luz embaciada dos candeeiros.
Nem o canto rouco do bêbado conhecido.
Onde vivo há supermercados, farmácias e correios.
Mas ninguém nos conhece os gostos, as dores e as moradas.
Onde vivo se ficar doente, desço ao primeiro andar. Mas tenho a ingratidão das saudades, a chorar por uma constipação a olhar o rio.
Onde moro é tudo muito engomado. Tão contrário ao desapego de ti. Um dia destes mudo-me novamente.
Só porque tenho saudades do encosto entre as pessoas, das conversas de rua e de mim, ali.
Talvez me tenha perdido de Alfama.
Talvez isso me ajude a compreender o que se ausenta em mim.
É mentira se disserem que não gosto do aqui. Embalei tudo o que tinha.
E mesmo do rio, eu trouxe um bocadinho de sal para dar Tejo às minhas lágrimas. Maldição seria se a felicidade não fosse tão nómada como as coisas que mais amo neste vida.
Não desgosto de onde moro, só não te namoro da mesma forma e não me acostumo a viver sem ti.
*Shooting for Buenos Aires | http://www.buenosairesworld.com/

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Os sonhos são meus

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Nunca quis ou desejei, ter uma filha que se parecesse com aquilo que sou, ainda menos, com aquilo que ainda não sou.
Ou dito de outra forma, com aquilo que sonhei de mim para mim.
Nunca projectei ao redondo da minha barriga a execução plena dos projectos que vou deixando em stand by.
Os sonhos são meus.
Cabe-me a mim a divisão árdua do tempo e o risco de decidir como me quero fazer pessoa. Não me passa pela cabeça deixar sobras dos meus talentos na esperança de as colher maduras num filho. Nem me lembro de alguma vez ter olhado para as minhas filhas à procura das parecenças nas coisas boas que admiro em mim. Quando elas despontam, despontam. Como a graça de um raio de sol num dia carregado de nuvens. Ou os pingos de chuva numa tarde tropical. Ou uma máquina fotográfica a tremer na mão pequena. Ou um poema ritmado escrito com erros repetidos.
E outras graças hão de despontar nelas, que nunca nasceram em mim.
Não ignoro a influência que tenho, sobre o mundo que sonham e a forma como se moldam a partir de mim. Sou fotógrafa e gestora e escritora e conspiradora, mas o que eu gostava mesmo é que elas conseguissem ver a vida sem filtros, que amassem as pessoas inteiras, com todas as suas linhas, desalinhas e imperfeições. Gostava que amassem o belo, sendo a verdade das coisas a beleza na sua essência mais sólida. Gostava que conspirassem muito, para alargar a visão dos factos, para além dos factos em sí. Gostava muito que soubessem construir com as palavras certas, as metáforas que mais se ajustam às suas vidas. E gostava muito, que um dia, quando tivessem filhos, se assim o desejarem, se lembrem que ninguém faz de alguém, alguém, sem se fazer a si primeiro.
E o Mundo precisa disso, de pessoas inteiras. Para os sonhos não virem às parcelas, só porque nos fizemos pequeninos para sonhos maiores.
Mas isto é só um sonho.
E os sonhos são meus.

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MATRIOSKA DA CULPA

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É tão fácil encontrar mulheres guerreiras que quase nem damos por elas.

Elas estão ao nosso lado, em todo o lado, afundadas em pressas e pensamentos.

Elas passam por nós, nos corredores das escolas, nas ruas e fintam-nos no supermercado.

Elas conduzem ao nosso lado e às vezes até nos insultam.

Elas entram nas nossas casas como ajudantes, explicadoras, estafetas, amigas, vendedoras, familiares ou mais distantes. Erguem, levam, limpam, trazem, vendem, dão, tiram e fazem. Fazem tanto, todos os dias, que quase não dá para lembrar quando lhes perguntam por tudo o que já fizeram.

Tento olhar o rosto de cada uma delas, quando me dão hipótese sorrio, e se me deixarem falo. Sinto uma dívida tremenda com todo esse corrupio, sinto uma cumplicidade entranhada, na culpa que todas carregamos, dizendo ao alto que é leve, que é bom e que está tudo bem! Vejo-as sair à pressa, vestir à pressa, dormir à pressa, comer à pressa. Sinto-as a esgrimir a culpa do tempo que não lhes sobra e a negociar as sobras com o tempo que não têm. Estas mulheres já nem sabem se respiram. Vivem na dilatação diária das suas tarefas, imersas na imensidão dos papéis que assumiram, sem falas decoradas ou tempos de preparação. Eu sinto-me mal por não conseguir acudir, sacudir-lhes o peso, dar-lhes a nota graciosa do tempo, e a possibilidade de gozarem apenas o compasso da sua respiração.

Ás vezes confunde-me, que me possa ter perdido entre elas tentando o mesmo. Ás vezes penso que a pressa é um refúgio que a consciência dá ao coração, para que não se sofra tanto, por tudo o que não se consegue tentando. Estas mulheres habitam-nos sempre. Como um matrioska da culpa desdobrando-se em infinitas gerações. E ainda que nunca se tenha almejado um exército e ainda menos uma guerra. Não se pode nunca ignorar a quantidade de guerreiras que passam sem respirar.

*http://mariacapaz.pt/cronicas/matrioska-da-culpa-por-isabel-saldanha/view-all/

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Assim está bom. Dizem

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Assim está bom. Dizem.
Não é só o malte que esborrata as unhas é a pressa de mexer as mãos.
Hoje não me quero mexer.
Quero poisar-me. Poisar o olhar nas vossas invenções, a minha boca nas vossa bochechas e os meus braços em cada parcela do vosso corpo. Hoje pintem a manta. A minha, a vossa, a nossa. Encham-me a casa de sentido, até que os sentidos se esvaziem das pressas.
Assim está bom. Dizem.
Assim é melhor. Sinto.
Hoje não me quero mexer.

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Teus critérios estéticos.

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Tiveste 1 hora e 20 minutos para tirares o cartão de cidadão.
Nesse tempo todo, tiraste 38 Fotografias que rejeitaste liminarmente, por não se encontrarem dentro dos teus critérios estéticos. Elevadíssimos, por sinal.
Foi difícil para a funcionária, perceber o cuidado com que te querias ver espelhada na tua documentação oficial, em vez da fotografia formatada de olhar estanque, “à bandido” como dizias tu.
Talvez fosse mais fácil, se ela soubesse que respiras fotografia e que depois das fotos que tiro, segue-se a selecção.
E que se seleccionam sempre as melhores. As que mais justiça fazem, a quem somos, como nos vemos e a quem nos damos a conhecer.
Mas podias não ter exagerado a seguir, utilizando o campo da assinatura para recriar o teu logotipo.
Simulando o teu “C” com o meu “S” dentro de um círculo fechado:) Enche-me de orgulho que transportes contigo as nossas referências, mas enche-me de pânico pensar que posso encontrar na fila da frente, alguém como tu:)))

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“Se um dia voltar a casar…”

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Se um dia voltar a casar, vou querer vestir-me de palavras.
Não há nada que bata um bom discurso.
Aliás, deliro até com os maus, desde que na tentativa haja depósito atestado a sentimento.
Poiso sempre a máquina, o olhar e delicio-me nas promessas encaixadas na voz tremida. Perco-me no embaraço comovido da noiva e do noivo. Procuro-lhes as certezas com que as farei minhas.
Imagino-me sempre a mim, de mãos ligeiramente suadas, à procura de um olhar âncora nas mesas e das tuas mãos.
Ensaio às palavras que direi: Aquela metáfora chave, aquele episódio, aquela manhosice nossa, que nos torna um par único num momento ímpar.
Dizem que “as palavras leva-as o vento”, eu levo-as todas para mim.
Todos os casamentos têm o seu protocolo, mas nem todos têm discurso. Aquele momento único que não é passível de ser fotografado de forma generosa, porque a força transparente das palavras, não as faz visíveis aos olhos da máquina.
Eu acho que em todas as celebrações se deviam trocar palavras. Ninguém devia ter medo das baboseiras que sente, num mundo tão carente de expressão. Não levamos quase nada daqui, uma delas é a fortuna acumulada, e outra são as palavras que ficaram por dizer. E o mais lixado é que as palavras também são gramática na relação. Senão se pontua na altura certa, corremos o risco de não fazer sentido mais tarde.
Ilan, o noivo da fotografia, ergue-se, falou alto de perto, e mesmo quando a voz lhe tremeu, tudo parecia tão bem edificado no que queria dizer, que me comovi. E mesmo nas palavras mais simples: “És a mulher que sonhei para mim.” Havia aquele depósito sem fundo de amor e de fé. O mesmo depósito com que se atesta o carro para uma viagem de sonho.
Tenho muitas vezes insónias, mas não conto carneiros, teço discursos, ergo-me, suo da alma e das mãos, e imagino-me assim, vestida com as palavras que não quero guardar para mim.
Falem sff.

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Mimo, hás de ter a vida toda.

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Tenho a certeza que não vais esquecer estas férias, até porque posso apostar, que são as últimas que te carregam ao colo com tanta frequência.
Sei que estás para lá da linha vermelha do mimo, mas também não era aqui com o pai saudoso, que te ia cortar o barato e ensinar a andar a pé. Coisa que tu já sabias.
Só tens tido duas modalidades nestas férias, a corrida e o colo.
Quando vais ao colo do pai à minha frente, vejo-te espreitar para mim de soslaio num misto, do “ando a abusar” com o “já abusei”. O meu olhar só precisa de se inclinar ligeiramente, para que tu percebas que essa manha tem perna curta e tempo contado. Aproveita bem o colo do pai e agarra com força esse pescoço.
Mimo, hás de ter a vida toda, mas começa a estar na hora de pôr esses pezinhos no chão.

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