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MULHERES

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Quando eu era criança acreditava em fadas.
Suponho que uma das coisas mais chatas do processo de crescimento é a falência de alguns sonhos sobre a realidade.
Mas o processo de maturação não tem porque ser subtrativo, pode e deve ser aditivo.
E a somar à fada que se perde, descobre-se a Mulher que somos.
E sinceramente, gosto mais da multiplicidade e da eficiência da mulher que descobri, do que da fada que me encantava.

‪#‎norescaldododiadamãe‬

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As miúdas, as meninas, as mulheres das ilhas.

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Cada vez que regresso a São Tomé há um pensamento que regressa comigo. As miúdas, as meninas, as mulheres das ilhas.
É difícil comparar com as nossas miúdas, meninas e mulheres.
Aqui as crianças parecem mais crianças. São-no no estado puro de quem cresce descalço sobre a terra, de quem sorri sem medo para quem passa, de quem segue para a escola a pé, a rir com outras crianças, de quem mergulha nu no mar e participa sem queixume visível da vida em comunidade.
Parecem tão pequeninos para tanto e são mesmo.
Como eu quis, e não consegui, que na mesma idade as minhas miúdas andassem mais descalças, mas consegui que nadassem nuas em todas as praias, não consigo ainda, que vão para a escola sozinhas, mas já consigo que vão à mercearia comprar o pão e as frutas que faltam. Vou tentando, sempre que posso, fintar-lhes os vícios da cidade, das rotinas cómodas, das certezas sem fim. Ambiciono muito para as minhas miúdas, meninas.
Não lhes falta nada. Mas ainda lhes falta muito.
Esse muito que ainda lhes falta é o sacrifício. E nós hoje, ainda pouco fazemos por essa doutrina sã que criou tanto filho bom.
É uma luta quase inglória porque quando há não se retira. Quando se tem não se adia.
Um dos pensamentos que ganha força aqui é a certeza de que vos tenho que dar menos para vos saber dar mais.
E se algum dia tiver receio que me culpem por isso…
Invade-me a certeza que o vosso coração irá mais cheio por cada vazio meu.

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Não sou filha de um microondas mas quase.

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Não tive a sorte de crescer na sanidade simples de uma aldeia.
Menos, tive a sorte, de ter parentes próximos que me recolhessem todos os anos para me devolverem, ainda que por breves instantes, à singularidade da vida de uma pequena comunidade rural.
Nem fui bafejada com a tradição do saber antigo, da lavoura, do ferro, do pastoreio ou dos artesãos. Não sou filha de um microondas mas quase.
Nasci na cidade, mas vivi numa casa grande com jardim, onde aprendi as artes de ser criança. Não tive a chaleira em brasa sobre o carvão quente, nem dormi sobre as ameias, nem aprendi os nomes dos peixes no barco, nem os nomes das plantas comestíveis, como algumas avós das minhas amigas, que partiam nas férias para a “terra”.
Quando vim pela primeira vez a São Tomé, e parei num destes rios escavados na floresta pejados de pessoas, de roupa e de espuma branca fiquei encantada. Centenas de mulheres e crianças lavam diariamente as roupas coçadas nas pedras do rio. Os mais pequenos distraem-se nus brincando entre as pedras. Os homens não participam deste ritual (acho que em geral os homens do mundo nunca foram grandes fãs na arte de lavar a roupa) e as mulheres vão conversando entre elas, de costas tombadas sobre à água fresca do rio.
Se seguirmos o curso da água, vamos desaguar na praia, mas não sem antes, percorrer uma auto-estrada imensa de roupa estendida. Como se aqueles pedaços de roupa estivessem ali dispostos, só para abraçar a natureza.
Respeito as mulheres e as crianças que trabalham e vou trocando palavras e sorrisos. Sei o que lhes custa no corpo, e devolvo-lhes a minha pasmada admiração pela forma serena com que se entregam ao inevitável com um sorriso.
Não gosto de fazer máquinas de roupa, ainda menos de a estender e tão pouco me apraz engomar. Mas nesta selva imensa de floresta humana e manual centrifugação, descubro de novo as saudades da “terra” onde não vivi.

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CADA RELAÇÃO ENCERRA A SUA VERDADE

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Não sei se os homens e as mulheres vêm de planetas diferentes. Os que conheci, partilharam todos o calor do útero de uma mulher. Sei que por norma, nós mulheres falamos mais, se calhar demais. Ou falarão eles a menos, e do menos que nós queremos ouvir.
As melhores relações que conheço são participadas dizia uma senhora bem posta no café, mas não sei bem o que é que isto quer dizer. Acredito na democracia de uma relação, o termo faz-me sentido. Sou uma liberal e gosto de me privatizar na intimidade com a pessoa que amo. Mas preciso que me deixem respirar entre as braçadas da vida e os abraços apertados.
Às vezes, como todo o eleitor experimentado gostava de mergulhar numa monarquia de cordel. Mais precisamente, na pele da princesinha enfastiada, que só tem que escolher a cor do recheio do éclair.
Queria um décimo da autoridade que exerço sobre as disciplinas da minha vida.
O sonho de habitar numa corte….e só ser invadida, de quando em quando, pelo calor reconfortante das decisões já tomadas.
E queria tanto, mas tanto, que os eleitos do nosso coração, percebessem que há um Pause para cada Play, que a forma esfuziante com que exibimos os nossos feitos e as descrições adjectivadas das nossas acções infinitas, não eliminam a necessidade do cetim almofadado e da gargalhada do bobo.
É uma sensação tramada, chegar ao alto ermo da montanha e ter inveja do pastor deitado no seu sopé.
Fica a parecer que a senhora liberal e “bem-posta” do café curto, quer voltar à caverna burguesa da princesinha.
Quando tudo o que ela queria era ter um décimo da autoridade exercida sobre as disciplinas da sua vida.
Cada relação encerra a sua verdade.
E os universais são tão perigosos como qualquer frase que comece com “ele era ideal para ti…”.
Talvez a verdade da minha esteja naquele café liberal bebido como um bobo, no sopé daquela montanha à sombra de um castelo, na companhia acetinada de um príncipe com ideias de pastor.
Ou talvez…eu queira apenas um décimo da autoridade que exerço sobre as disciplinas da minha vida.

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MATRIOSKA DA CULPA

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É tão fácil encontrar mulheres guerreiras que quase nem damos por elas.

Elas estão ao nosso lado, em todo o lado, afundadas em pressas e pensamentos.

Elas passam por nós, nos corredores das escolas, nas ruas e fintam-nos no supermercado.

Elas conduzem ao nosso lado e às vezes até nos insultam.

Elas entram nas nossas casas como ajudantes, explicadoras, estafetas, amigas, vendedoras, familiares ou mais distantes. Erguem, levam, limpam, trazem, vendem, dão, tiram e fazem. Fazem tanto, todos os dias, que quase não dá para lembrar quando lhes perguntam por tudo o que já fizeram.

Tento olhar o rosto de cada uma delas, quando me dão hipótese sorrio, e se me deixarem falo. Sinto uma dívida tremenda com todo esse corrupio, sinto uma cumplicidade entranhada, na culpa que todas carregamos, dizendo ao alto que é leve, que é bom e que está tudo bem! Vejo-as sair à pressa, vestir à pressa, dormir à pressa, comer à pressa. Sinto-as a esgrimir a culpa do tempo que não lhes sobra e a negociar as sobras com o tempo que não têm. Estas mulheres já nem sabem se respiram. Vivem na dilatação diária das suas tarefas, imersas na imensidão dos papéis que assumiram, sem falas decoradas ou tempos de preparação. Eu sinto-me mal por não conseguir acudir, sacudir-lhes o peso, dar-lhes a nota graciosa do tempo, e a possibilidade de gozarem apenas o compasso da sua respiração.

Ás vezes confunde-me, que me possa ter perdido entre elas tentando o mesmo. Ás vezes penso que a pressa é um refúgio que a consciência dá ao coração, para que não se sofra tanto, por tudo o que não se consegue tentando. Estas mulheres habitam-nos sempre. Como um matrioska da culpa desdobrando-se em infinitas gerações. E ainda que nunca se tenha almejado um exército e ainda menos uma guerra. Não se pode nunca ignorar a quantidade de guerreiras que passam sem respirar.

*http://mariacapaz.pt/cronicas/matrioska-da-culpa-por-isabel-saldanha/view-all/

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CONTA-ME UMA HISTÓRIA FELIZ.

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“Quanto menos tabu forem estes assuntos, mais nos ajudamos e partilhamos experiências. Acima de tudo acho que durante este tempo, em que tentei, fui operada e tive de fazer tratamentos, nunca deixei de ser feliz, de viajar, e de fazer as coisas que gosto! São tratamentos duros mas a vida são dois dias! Temos de aproveitar!” Teresinha

Pedi à Teresinha que me deixasse partilhar uma fotografia, e mais do que isso, um pouco da sua história feliz.
Porque ela é sem dúvida uma das grávidas mais feliz que já fotografei. E não foi apenas, porque esteve uma dezena de anos a tentar ter um filho, foi sobretudo pela resiliência do seu bom humor, pela forma resolvida com que se entrega a vida. Porque a consome sem filtros, sem peneiras e sem o pensamento rebocado nos outros.
É raro, é bom, é são.
Nem todas as mulheres engravidam ao primeiro lapso da pílula, e as histórias duras, não acontecem só aquela amiga de uma amiga minha. Há muitas mulheres a consolar as dores nas almofadas e há um milhar de histórias para partilha, que não fazem a conveniência dos dias mais felizes, mas precisam de ser contadas, para serem ouvidas.
A Esperança dos dias, faz parte de um tratamento de fundo, aquele que dá espaço vital de cultivo às coisas boas da vida.
E pelo que sei, por quem luta, a exclusividade da história complicada, é um mal escasso, que se troca de bom agrado, pelo colectivos dos finais felizes.
Obrigado Teresinha pela partilha.
Essa miúda que aí vem, já nasce com a sorte grande de ter uma mãe assim.

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DUAS METADES INTEIRAS

Duas-Metades-Inteiras

Cresci numa casa de mulheres, parca em vestígios masculinos, excepção feita à figura mais proeminente da minha infância, o meu avô. A minha avó tinha duas irmãs, a minha mãe, a mesma justa equação. E nós éramos quatro. Debaixo do mesmo tecto, todas as hormonas, diferentes gerações em confluência.

Cresci a ver cabelos a serem penteados, vestidos nos estendais, mãos com anéis, livros de receitas abertos sobre as bancadas, músicas ouvidas em desatino, choros sofridos no vai e vem da paixão. Saturada do universo matriarcal, jurei a mim mesma quando ainda era adolescente, que se exercesse a maternidade, seria mãe de um homem. Não quis o destino quebrar a corrente e, sem ser tida nem achada, fui mãe de duas Marias.

Hoje rio-me com ternura desses tempos de criança. Nunca fui Maria Rapaz, não era o cor-de-rosa em atrofio que ansiava pela gestação de um macho, não era o histerismo pontual que me atirava para a conquista de um espaço mais azul, não era a falta de amor que pedia ao meu universo que se pontuasse com alguma masculinidade. Era a sensação pragmática de que havia um hemisfério a precisar da versão mais simples do ser mulher. Era um excesso de rímel traçado sobre as decisões, era muito salto alto, quando a vida pedia pé no chão.

Com distância, consigo agora perceber como me fiz mulher entre as mulheres. E como a confluência exagerada do meu universo permitiu que percebesse a importância do meu percurso na educação das minhas filhas. Hoje, sei-o na pele, a mesma onde sofri os embates, que ser mãe de uma rapariga é uma missão. E não o escrevo apenas por estímulo feminista, escrevo-o, porque demorei-me a adorar ser mulher. E criei as minhas filhas para que adorassem desde o primeiro dia. Queria que sorvessem, tudo o que era incrivelmente belo e singular no ser no feminino. Quis que nunca atribuíssem o monopólio das qualidades da força e da aventura ao ser no masculino. Quis que fossem coesas, duas partes completas, duas metades inteiras.

Dei-lhes os recursos, os atilhos, os folhos e o romance, mas descalcei-lhes os pés e o feitio, para que tocassem na terra de palmo inteiro e desbravassem sem medo o que não lhes era conhecido. Quis muito que respeitassem o corpo, sem o temer, que o sentissem sem vergonha ou escrúpulo antecipado, queria que a vergonha surgisse apenas quando o erro é flagrante e nunca adiante. Não quis masculinizar a culpa, nem criar ditadoras de um mundo de fantasia. São duas bonecas, pensei. Quero apenas que sejam rijas.

O futuro dir-me-á se lhes armadilhei o caminho ou se fui uma boa ceifeira, de uma colheita coesa, de duas metades inteiras.

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