Blog Archives

COM TODOS OS DENTES

13217205_1396008250424808_4601017311041890814_o

Raramente se ouve a expressão “homem maduro”. Madura é normalmente a fruta e a mulher. Desde que me lembro, que oiço as pessoas dizer que as meninas são mais maduras que os rapazes, numa idade em que tudo o que deviam ser era fruta verde. Depois crescemos, de meninas passamos a mulheres e o epíteto de madura, ganha a forma de uma pessoa densa.
Não sei se quero ser madura. Não, sem antes perceber se madura é como a fruta macerada que ganha manchas acastanhadas do calor e da apalpação. Preferia quando me portava bem e as tias “maduras” me diziam apenas:
– Estás uma menina crescida.
Dessa maturidade marcada que vem do uso excessivo não gosto. Mas adoro o pressuposto da mulher vivida, embora quase todas estas expressões remetam para um universo relacional cheio de peripécias e meios finais. No fundo, acho que não gosto de ambas as expressões: “mulher madura e vivida”, soa-me logo a alguém de casaco com borbotos, ombros curvos, muita base, olhar demorado sobre o chão e o infinito.
E quando oiço dizer ela é muito mais madura do que ele, penso que isso deverá reflectir 99% das relações que conheço.
Talvez tenha dado jeito à economia forreta das relações, que as mulheres sejam maduras há muito mais tempo que os homens. Talvez dê jeito, ao desmazelo fantasioso de alguns habitats partilhados, acreditar que todo aquele tempo se viveu com o Peter Pan. Mas isso não faz da mulher madura um Capitão Gancho, faz nos pesadas, complexas, empedernidas.
Eu não quero ser mulher madura, quero ser a Windy descalça no parapeito da janela, pronta a voar na leveza dos sonhos que não envelhecem. Eu não quero ser mãe de filhos e de marido.
Essa maturidade camuflada em competência, eu dispenso.
Até porque consta, que para ser dispensada, basta apenas não crescer. Então talvez eu prefira a solidez altiva da fruta verde, à maça caída sobre o chão. Mesmo que isso signifique que numa só trinca venha o fim de toda a dentição.
Porque a verdade das boas relações é que elas se querem vividas com todos os dentes.

Comentar

FALHEI MUITAS VEZES

12920431_1366005063425127_2671113674878623575_n
Mães trabalhadoras e a carreira profissional? Será mesmo reconhecido o nosso esforço, pela sociedade, família ou amigos, ou na verdade, dizem-se coisas bonitas, mas todos pensam “tiveste-os? Agora, desenrasca-te”. (Um comentário que me deixaram há meses num post e que foi o mote para este texto)

No dia em que decidi ser mãe, não sabia a extensão da minha decisão.
Nunca, enquanto lhe fantasiávamos as feições ou decorávamos o quarto, falámos de forma detalhada do impacto real que o nascimento da nossa filha, teria nos vários quadrantes da nossa vida.
Pensámos sobre isso como faz toda a gente na iminência de uma grande mudança. Mas nunca quis esmiuçar numa folha de Excel os prós e os contras de um filho.
Queria ser mãe, queria tê-la nos meus braços, nos nossos braços e na nossa vida.
Atirei-me para frente, com a confiança, que nunca achei ingénua, de que o amor ajuda sempre a responder às questões que ainda não sabia levantar.
Se calculasse o índice de conforto, a logística e o desgaste financeiro das principais decisões da minha vida estava lixada.
Como já fui mãe duas vezes, posso dizer que já vivi a maternidade em circunstâncias de carreira completamente opostas: Enquanto assalariada, desempregada e enquanto trabalhadora independente.
E foi nesta última condição, que me separei (e não o motivo), a passar recibos verdes, à rasca que o pouco rendimento recolhido, me lembrasse constantemente da inconsciência das minhas escolhas.
O caminho é ainda mais difícil que a escolha. E nada se faz inteiro, só porque se quer segurar na mão as duas metades:
A dedicação a um trabalho que nos realiza e o colo certo a um amor que nos amarra. Falhei muitas vezes em cada uma das metades. E aprendi a ver nas falhas uma forma de amor.
Só assim é possível continuar a tentar, a cair e a erguer. Ainda não somei tudo o que ganhei, na subtracção das certezas que também perdi. Mas há uma coisa que eu sei:
Nunca conseguiria ser a mãe que sonhei, se deixasse de acreditar na mulher que sonhei para mim.

Comentar

“SER ALGUÉM”

12640447_1303420099683624_180566366882591982_o

Ainda há muitos pais que se dirigem aos filhos utilizando a vulgarizada expressão: “Assim não vais ser ninguém na vida”.
E o que é mesmo ser alguém na vida?
Eliminando a hipótese mais romântica, que “o ser alguém na vida”, seria o “ser a vida de alguém”, o que é que nos resta?
O desempenho de uma séria de profissões socialmente aceites?
Uma educação colegial pautada por “Muitos Bons”, medalhas de mérito, aluno de quadro de honra, campeão das olimpíadas de matemática ou o vencedor do torneio europeu das composições?
Um advogado numa sociedade de renome, um engenheiro com um MBA a liderar uma multinacional ou um cientista bolseiro premiado nos EUA?
Sem desprimor para todo o brio que estes “seres de alguém” serão, e o consequente orgulho paterno-ó-maternal que o depósito frutuoso da nossa educação gera, não é nisto que penso quando desejo muito, que as minhas filhas, não sejam alguém, sejam apenas elas mesmas.
No limite, isto até pode parecer de um romantismo extremo, quase utópico, tipo frase de Instagram. Mas quando acresci ao ser mulher, o ser mãe, a única certeza que tinha era de que não queria impor modelos de sucesso às minhas filhas, que não queria viver obcecada com o “acima da média”, e que não queria repreende-las com advérbios de comparação ou classifica-las num ranking.
Não seria honesta, senão dissesse que me daria, tanto mais jeito que orgulho, que concluíssem o ensino obrigatório sem uma escolta de explicadores. Que me era muito conveniente que os seus hábitos de estudo contemplassem a auto-suficiência e o silêncio, e que adorava ser convocada à escola para ser agraciada apenas pela minha boa genética. Mas o que eu quero para elas, é mais ou menos o que sonhei para mim, que estivessem atentos às minhas capacidades, que me ajudassem a vencer os meus medos e que me aproximassem o mais possível das coisas que me faziam feliz.
E é isso que eu vou fazer com elas.
Dar-lhes as circunstâncias que as potenciem para lá da academia do saber. Dar-lhes todo o mundo que puder na minha disciplina do Estudo do meio. Aproxima-las do português da generosidade, do elogio, da motivação e do perdão. Vou tentar que vejam na matemática da vida a melhor equação, para que os seus denominadores comuns alcancem o melhor dos resultados.
Vou querer que vejam no céu estrelado do monte e nos pés descalços, a ciência mais pura do amor à terra em que vivem, e vou dar-lhes estradas, caminhos, terras e atalhos para explorarem os limites da sua educação física.
Tudo o resto eu deixo para a Escola formal.
Reservo-me o cuidado de regar à noite os sonhos.
Aqueles sonhos em que acredito.
Os que não nos acordam à noite no sobressalto do “sermos alguém”.

Comentar

Não sei bem quem é que consegue

12374882_1272267672798867_9086929658838158011_o

Não sei bem quem é que consegue. E ainda menos quem tenta. Mas não posso ficar senão feliz por quem consegue perceber na unidade do tempo a maior riqueza do homem. Nunca fui rica no sentido monetário do termo, tudo o que hoje tenho foi minha conquista. Quando quis casar comprei com o meu dinheiro o meu vestido de noiva a prestações. E trabalhei muito enquanto estudava para comprar, também a prestações, a minha carta, o meu primeiro carro, a minha primeira renda e os meus primeiros vícios. Não gosto do discurso gabarolas da infância sofrida, mas é bom recordar o que conseguimos, quando achávamos que não tínhamos nada, para poder saborear à séria tudo o que já temos. A verdade é que não me falta nada. E isso é tão bom de pronunciar, que o melhor mesmo é dar-lhe a volta sem medo e dizer de coração cheio que tenho tudo. Temos muito medo de afirmar plenitudes de felicidade, não vá a vida esnobar sobre os sonhos futuros. Mas o que eu mais aprendi nas pequenas conquistas da vida é a não ter medo de exaltar a felicidade dos dias. E assumi-lo sem escrúpulos como um agradecimento enorme à vida. Podia dizer que vivo para pouco. O meu pouco que é tudo: As minhas filhas, as minhas viagens, as minhas palavras, os meus vinhos e petiscos, o meu Pedro, o pai das minhas filhas, as minhas irmãs, os meus amigos maduros, as minhas amigas loucas, os meus livros e o meu tempo. Tenho o coração cheio, uma vida cheia e uma cabeça cheia de sonhos que combinam tudo isto. E o mais que tenho, para além do amor que é terreno fértil, é Tempo.
O tempo que resgatei à vida para poder viver com à máxima intensidade cada uma destas paixões. Sim, acho mesmo que a perseguição dos sonhos me tornou uma mulher rica. E a consciência disso, uma mulher sã. Podia dizer que tive sorte mas seria uma batota enorme sobre o esforço. A sorte que tive foi a sobriedade prematura de perceber no Tempo a unidade máxima de realização. E pressenti-lo a tempo, do tempo, que precisava para mim.

Comentar

“Se um dia voltar a casar…”

11999826_1222991411059827_4514319851330818553_o

Se um dia voltar a casar, vou querer vestir-me de palavras.
Não há nada que bata um bom discurso.
Aliás, deliro até com os maus, desde que na tentativa haja depósito atestado a sentimento.
Poiso sempre a máquina, o olhar e delicio-me nas promessas encaixadas na voz tremida. Perco-me no embaraço comovido da noiva e do noivo. Procuro-lhes as certezas com que as farei minhas.
Imagino-me sempre a mim, de mãos ligeiramente suadas, à procura de um olhar âncora nas mesas e das tuas mãos.
Ensaio às palavras que direi: Aquela metáfora chave, aquele episódio, aquela manhosice nossa, que nos torna um par único num momento ímpar.
Dizem que “as palavras leva-as o vento”, eu levo-as todas para mim.
Todos os casamentos têm o seu protocolo, mas nem todos têm discurso. Aquele momento único que não é passível de ser fotografado de forma generosa, porque a força transparente das palavras, não as faz visíveis aos olhos da máquina.
Eu acho que em todas as celebrações se deviam trocar palavras. Ninguém devia ter medo das baboseiras que sente, num mundo tão carente de expressão. Não levamos quase nada daqui, uma delas é a fortuna acumulada, e outra são as palavras que ficaram por dizer. E o mais lixado é que as palavras também são gramática na relação. Senão se pontua na altura certa, corremos o risco de não fazer sentido mais tarde.
Ilan, o noivo da fotografia, ergue-se, falou alto de perto, e mesmo quando a voz lhe tremeu, tudo parecia tão bem edificado no que queria dizer, que me comovi. E mesmo nas palavras mais simples: “És a mulher que sonhei para mim.” Havia aquele depósito sem fundo de amor e de fé. O mesmo depósito com que se atesta o carro para uma viagem de sonho.
Tenho muitas vezes insónias, mas não conto carneiros, teço discursos, ergo-me, suo da alma e das mãos, e imagino-me assim, vestida com as palavras que não quero guardar para mim.
Falem sff.

Comentar

DIA DA MÃE – “Quando virei mãe”

11159931_1130653410293628_4672646283632432657_o

 

Fiz uma parceria com a KNOT para o dia da mãe, desenhei três t-shirts, mas mais do que isso, personalizei-as com um texto meu, desses que saem do coração sem filtros.
Assim no verso de cada t-shirt da mãe há um texto para desvendar, esse mesmo que partilho hoje com vocês:

Quando virei mãe. Virei viagem. Virei desdobrável.
Virei piegas, maricas, heroína invencível das minhas rotinas.
Virei penso rápido e ligadura.
Virei água na fervura.
Virei carnaval em permanência.
Virei doce demência.
Quando virei mãe, virei risca, virei curva.
Virei alma plena e pessoa turva.
Virei me do avesso, e ao contrário.
Virei cozinheira e virei armário.
Virei quando queria, quando podia, quando sabia e sempre, quando devia.
Quando virei mãe, virei fluorescente, mãe foguete.
Virei pediatra, curandeira, amiga e feiticeira.
Quando virei mãe, virei leoa, patroa, criatura curtida,
Virei mulher dividida.
Até virar mãe tudo me parecia direito, até ser mãe tudo parecia perfeito.
Mas quando se vira mãe, não há nem “se´s” nem “talvez”.
Porque quando virei mãe,
virei de vez.

Comentar

Não é fado, é feitio

IMG_0729_6301

Não é fado é feitio.
As minhas amigas, não todas, não tantas, mas ainda assim muitas, queixam-se (não no sentido lamurioso e fadista da dor, mas como não encontro melhor palavra: Queixam-se. Enfim numa variante misericordiosa: Falam com alguma pena da incapacidade de improviso e iniciativa dos homens com quem estão. Reconhecem-lhes qualidades imediatas, que elogiam como feitos epopeicos, mas são as primeiras gladiadoras de arena quando se trata de apontar defeitos. Provavelmente eu sou igual. Há uma crueldade tão limpa no discurso de uma mulher que é uma pena depurá-lo. O mais engraçado é que o discurso entre duas mulheres na partilha dos vinagres da relação é mais limpo, que a reclamação em relação, apresentada na hora. Isso não se explica apenas pela combustão do momento, o sangue em espuma quente, que faz de qualquer mulher gaga um líder (numa TED talk). Eu desconfio que a irritação feminina produz um tipo de calor que nos cozinha a gramática no cérebro. Sai o cozinheiro da tasca, entre o Michelin da esquina.
De repente a dor metamorfoseia-se nas frases mais rebuscadas, nas metáforas mais bonitas. Inebriamo-nos na vaidade de nós mesmas. Tornamo-nos cúmulo: Apresentadora e ouvinte. Há uma luz que desce, parece que desce, a voz ganha corpo, parece que ganha, os adjectivos sucedem-se, parece que nascem. Queremos gravar cada frase dita, crescemos em altura, fermentamos nas palavras. O silêncio do outro lado confirma que nos isolamos na margem da meta, agora é o sprint. Fechamos os olhos, erguemos o peito, avançamos a perna, o galope, o compasso, há música na nossa voz. E aqui vai disto:
“Não te sinto. Estás. Mas depois ausentas-te”
“Há uma distância fria entre nós”
“Precisamos de mais poesia”
“Queria sentir-me a voar.”
Torna-se indiferente se o outro permanece, porque a sedução do discurso feminino é uma actuação a solo. O homem pressente uma espécie de prazer egoísta, estanca, queda-se. O espasmo há de passar, crê. Mas quando a luz sobe e a última frase é proferida como selo em lacre, a mulher olha, cala e devolve. E tudo o que oferece ao homem em palco é um pedido de desculpas em forma de aplauso.

Comentar

És uma mulher do Caraças!

post revista

Às vezes nem sei por onde começar.
E depois há sempre um engraçadinho que nos diz: “Pelo princípio”. Mas tenho tantos princípios em mim, que o melhor mesmo é começar.
No passado dia 7, a Cristina Ferreira, apresentou publicamente um novo projecto.
Estava a milhas de saber o que era.
Tinha a certeza que ia ser Grande, mas ainda estava a apanhar as passas da passagem de ano e a tentar colocar, sem pressas, as rodas deste comboio, sobre os carris apressados da vida, para me perder em grandes congeminações.
Descobri nesse dia, que ias lançar uma revista mensal e que eu era parte integrante desse projecto. Descobri-o nas minhas mãos, com um exemplar que me foi dado e que dizia na primeira página:
“Esta é a tua página. Começa a trabalhar.”
E sei que para além da fotografia, fui convidada a ter uma coluna minha. E também sei que a revista sai para a rua em Março.
E isto é para ti: Muito Obrigado! Não seria justo, se te dissesse que não sei o que fiz para merecer, mas será ainda mais honesto se te disser que o continuarei a fazer.
E pouco me interessa o que dizem. Tanto como me interessou, os que já disseram, ou os que ainda dirão. A verdade mais crua é que tens a habilidade de fazer acontecer, a sensibilidade de te rodeares de pessoas apaixonadas pelo que fazem, a resiliência para levares adiante e a capacidade de te reinventares constantemente. És uma mulher do Caraças! E essas, eu também sei que as vou querer sempre perto de mim.

Comentar