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Hoje, como todos os dias…

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Hoje, como todos os dias, fui levar-vos às aulas.
De onde moro até à Escola passo em quase todos os centros nevrálgicos da cidade. Devo correr à volta de vinte e cinco semáforos, duas rotundas, um túnel e seis sinais de Stop. Levantamo-nos às 7h da manhã e não paramos até estar sentadas no carro, prontas a arrancar. Há sempre sapatos que ficam por atar, cabelos por pentear e conversas por concluir.
Fora uma ou outra mochila avulso, que fica escondida atrás da porta, e que era absolutamente essencial naquele dia.
É aí que entram os semáforos e os sinais de Stop.
Sou prego a fundo, mas é raro o dia em que não levo uma buzinadela, por ter não arrancado naquela fracção de segundo em que o vermelho intermitente anuncia o verde!
O verde interessa-me para não chegar atrasada e o Vermelho dá me jeito para os acabamentos. A maioria das vezes, não consigo vislumbrar as caras dos condutores que buzinam, e tento não me concentrar demasiado, no rosto, daqueles que complementam o apito forte, com um braço irado fora da janela. Mas o que eu não gosto mesmo é daqueles que me chamam “Louca”. Não, que não reconheça alguma legitimidade na expressão, mas naquele momento estava a tentar disfarça-la, concentrada que estava na tarefa de ser boa mãe.
Bora ter alguma calma nessa alma, só para não enlouquecer de vez os que chamamos de loucos sem os conhecer!
Bom dia! Boa Segunda-feira!

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Não sou dada a muitas extravagâncias.

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Não sou dada a muitas extravagâncias.
O dinheiro que não gasto em kits, gasto em livros, vinho, queijos e enchidos. Há anos que não compro um elemento decorativo para as sucessivas casas onde vamos habitando. Hoje comprei umas calças de ganga, porque aquela moda dos buracos, pôs-me o pernão de fora depois de um shooting acrobático.
Mas amanhã faço anos e fui-me “kitar” com toda a legitimidade para o Corte-Inglés, entenda-se, o Supermercado, mais especificamente a zona dos enchidos, mais concretamente o corner do Presunto Pata negra! Há lugares onde nos sentimos sempre felizes. Os meus preferidos são as bibliotecas, os aeroportos e o cantinho do presunto. Investi no 5 Jotas alimentado a bolota, trouxe umas ripas de 200 gramas cortadas à mão e não vejo a hora das doze badaladas, para me encher de emoção gustativa, com o “poc” do vinho, as mãos do meu Pedro e o sorriso desdentado das minhas loiras.
Não há nada como fazer com carinho a cama onde nos vamos deitar!

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E TUDO O VENTO LEVOU…

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Bom dia!
Mesmo depois de ter começado a manhã a ser expulsa da biblioteca da escola por estar a falar ao telemóvel com a professora da minha filha.
Passo a explicar…Ontem cheguei a casa às 20h. As loiras não tinham tomado banho e era hora de jantar. Estavam serenas no sofá, como se a casa fosse apenas um prolongamento do recreio com mais almofadas. Respirei antes de entrar em casa, e só não suspiro mais alto, porque preciso daqueles segundos de ventilação pulmonar para me fazer à auto-estrada da vida doméstica, com enfoque muito particular, neste belíssimo capítulo da maternidade e seus desafios.
Avancei com o jantar, tomam banho a seguir, pensei. A loira mais velha faz fita porque a sopa está doce, a mais nova resmunga que está quente. Os cabelos misturam-se com os fios de esparguete, entornam-se goles de água sobre o prato fundo. Siga.
Quando finalmente as consigo deitar, liga-me o pai pesaroso a querer matar saudades. Ainda a meio da digestão de tudo, corro para as mochilas. Mãe que é mãe exige e controla. Enquanto não lhes reconhecer responsabilidade suficiente para não ter que encontrar pedaços de carcaça dentro do estojo, vasculho e vasculharei, sem qualquer afeição ao verbo.
Lá estava o caderno de matemática da Camila. Tinha ido ao Apoio de estudo a seguir às aulas mas não havia um exercício que tivesse certo. Olhei para o exemplo de cálculo, habituada às operações matemáticas na vertical, tive dificuldade em perceber o desdobramento das dezenas, para voltar a somar às centenas e finalizar o cálculo. Pensei googlar mas eram 23h e estava podre. Amanhã é outro dia, pensei. Como a última frase da Scareltt O´Hara em “Tudo o vento levou”.
Só que aqui o vento, deixa quase tudo no meu colo.
Chegamos às 8h ao colégio, encaminhámos a Caetana, e seguimos para a biblioteca para tentar terminar os trabalhos, longe da confusão do recreio. Olhei novamente para os cálculos, para a folha esborratada de esforço entre o lápis e a borracha, e achei mais prudente, ligar à professora a pedir auxílio, só para engrenar com uma certa mestria no cálculo da operação.
Calculei mal, porque me esqueci que estava na biblioteca, e embora ciente de que éramos as únicas almas, não se pode falar ao telemóvel, como é óbvio. Fui repreendida com firmeza pela guardiã dos livros. Pedi desculpa, levantei-me e fui para a porta aprender a fazer contas, deixando a Camila no conforto da pausa. Quando me sentei faltavam 5 minutos para o toque. Apeteceu-me tanto fazer por ela. Senti-a completamente perdida. E eu também. Tão esborratada como aquela folha de papel quadricular.
Estava ciente de que ela ia ter teste dentro de uma hora, e não tinha a mínima noção do que ia fazer.
Apertei-lhe a mão com força, beijei-lhe a testa, ajudei-a arrumar o estojo e saímos. A caminho da sala, ajoelhei-me à sua altura e disse-lhe:
– Camila, hoje o teste não vai correr bem. Mas “amanhã é outro dia” e nós vamos aprender a fazer essas contas.
Quando a deixei na sala, já não sei se acreditava na força da expressão do amanhã. Que é o que acontece quando o Hoje nos embate assim.
E tudo a mãe levou…

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A três, as três

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Este fim de semana passamo-lo a três, as três.
Há muito, que vocês pediam a mãe, só a mãe.
Há muito, que já vos devia ter dado a mãe, só a mãe.
Sem uma mala feita à pressa e um chek-in qualquer.
Só o usufruto pleno do nosso espaço, a colonização das nossas paredes, a cama revirada, o bacon, o ovos e a tentativa do bolo de chocolate. Soube me bem demais acordar embrulhada nas vossas pernas, com a comichão dos vossos cabelos e o quentinho da vossa respiração. Nem sei se dormi seguido, no aperto consolado dos vossos corpos, mas há muito tempo que não me sentia assim tão descansada.
Ainda bem que o amor também se exige.
Para depois de se dar.
Para aprender a receber outra vez.
Bom dia.
E boa segunda-feira!

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Assim está bom. Dizem

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Assim está bom. Dizem.
Não é só o malte que esborrata as unhas é a pressa de mexer as mãos.
Hoje não me quero mexer.
Quero poisar-me. Poisar o olhar nas vossas invenções, a minha boca nas vossa bochechas e os meus braços em cada parcela do vosso corpo. Hoje pintem a manta. A minha, a vossa, a nossa. Encham-me a casa de sentido, até que os sentidos se esvaziem das pressas.
Assim está bom. Dizem.
Assim é melhor. Sinto.
Hoje não me quero mexer.

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Num processo silencioso de auto-motivação

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Deixei as loiras na escola às 7h50.
Eram 8h10 e estava a entrar nas portas basculantes do ginásio, num processo silencioso de auto-motivação.
Nunca voltei para trás.
Os exercícios que não sabia fazer, copiava escrupulosamente do lado. Li com atenção as instruções das máquinas onde me decidi enfiar, e não fui repreendida por ter a mão em manipulo errado.
Liguei a minha Playlist mas não me distrai com outras aplicações e só fui ao WhatsApp duas vezes para mandar um “Bom dia + ícon de coração” à pessoa certa.
Quando estacionei o carro, não resisti e fui comprar uma carcaça. Já são algumas horas, muitas calorias e os músculos doridos no corpo tem uma expressão estranha de fome.
Como já me dói qualquer coisa. Entendo que já fiz qualquer coisa.
Vou-me dar sem complexos à carcaça.
A culpa ficou entretida no ginásio.
E tenho que acumular calorias para a reunião de pais.
Bom dia quarta-feira!

* Shooting Crianças & Animais de Estimação | 6 ª Edição Revista Cristina

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Tradição anual

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Amanhã a Caetana faz anos e a Camila está de neura.
Sempre que entramos na semana que antecede a celebração dos anos da irmã, a Camila começa a dar o máximo para boicotar a efeméride. Todos os anos reclama que este ano quer ser a primeira a fazer anos.
Todos os anos lhe explico que não se altera a data de nascimento em função da nossa conveniência. Que ela nasceu no dia 3 de Outubro e que a Caetana nasceu no dia 17 de Setembro.
E que esses são factos que ela vai ter que aceitar.
Todos os anos antes do soprar das velas da irmã, a Camila inflama na maior birra dos tempos. A Caetana chama-lhe invejosa.
Eu penso, mas não lhe chamo nada porque não é de bom-tom insultar os filhos. Também não a encho de mimos porque não tenho o dever de compensar a sua existência tardia, nem assumo culpa alguma, por tê-la como segunda, no seu altíssimo e intocável estatuto de primeira.
Acho que se tornou uma espécie de tradição anual, fintar o amuo da Camila com o sorriso merecido da Caetana.
Dai a 15 dias, a Camila faz anos e não lhe denoto qualquer tipo de preocupação relativa ao estado de espírito da irmã.
Chamemos-lhe com ternura “mimo”. O mimo de quem ainda não atingiu a maturidade do “tu”. Para quem a singularidade do “eu” é o único pronome pessoal que lhe toca pessoalmente.
Amanhã sopram-se as velas dos dez anos e a Camila vai assistir na primeira plateia ao lado da irmã. Não a posso obrigar a estar esfuziante, mas posso ensina-la a tirar partido da felicidade alheia, assim como quem se cola ao “eu” alegre dos outros, tirando um “eu” bom para si.
E de pronome em pronome, ano após ano, chegaremos sem pressa ao nosso plural.

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Eis. Ei-lo. Chegado. Vivido. Presente. Acusado.

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Eis. Ei-lo. Chegado. Vivido. Presente. Acusado.
O momento em que vais ao ATM carregar o telemóvel da tua filha pela primeira vez.
Entrego-me. Permito-me. Faço. Dou. Consinto.
Mas peço-te a ti, só a ti, força suprema, repositório aspiracional de toda a humanidade, causa incansável, força centrífuga:
Tudo o que lhe deres em WIFI, dá-lhe em sensibilidade.
Para que aquele objecto, que repousa nas suas mãos, não seja mais que instrumento ao serviço de uma grande cabeça e de um coração ainda maior.
Eu. Zeladora. Mãe. Cuidadora. Progenitora. Orientadora.
Prometo estar atenta aos vícios, solicitações, e demais usos que daí advenham.
Certa, de que uma vez aberta, a pequena porta…é trilho.
Não necessariamente sarilho. Meio utilitário, não necessariamente contrário, a tudo o que eu acredito.
E agora Log off.
Que já me ensinaste que o exemplo de cima reflete-se em baixo.

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DUAS METADES INTEIRAS

Duas-Metades-Inteiras

Cresci numa casa de mulheres, parca em vestígios masculinos, excepção feita à figura mais proeminente da minha infância, o meu avô. A minha avó tinha duas irmãs, a minha mãe, a mesma justa equação. E nós éramos quatro. Debaixo do mesmo tecto, todas as hormonas, diferentes gerações em confluência.

Cresci a ver cabelos a serem penteados, vestidos nos estendais, mãos com anéis, livros de receitas abertos sobre as bancadas, músicas ouvidas em desatino, choros sofridos no vai e vem da paixão. Saturada do universo matriarcal, jurei a mim mesma quando ainda era adolescente, que se exercesse a maternidade, seria mãe de um homem. Não quis o destino quebrar a corrente e, sem ser tida nem achada, fui mãe de duas Marias.

Hoje rio-me com ternura desses tempos de criança. Nunca fui Maria Rapaz, não era o cor-de-rosa em atrofio que ansiava pela gestação de um macho, não era o histerismo pontual que me atirava para a conquista de um espaço mais azul, não era a falta de amor que pedia ao meu universo que se pontuasse com alguma masculinidade. Era a sensação pragmática de que havia um hemisfério a precisar da versão mais simples do ser mulher. Era um excesso de rímel traçado sobre as decisões, era muito salto alto, quando a vida pedia pé no chão.

Com distância, consigo agora perceber como me fiz mulher entre as mulheres. E como a confluência exagerada do meu universo permitiu que percebesse a importância do meu percurso na educação das minhas filhas. Hoje, sei-o na pele, a mesma onde sofri os embates, que ser mãe de uma rapariga é uma missão. E não o escrevo apenas por estímulo feminista, escrevo-o, porque demorei-me a adorar ser mulher. E criei as minhas filhas para que adorassem desde o primeiro dia. Queria que sorvessem, tudo o que era incrivelmente belo e singular no ser no feminino. Quis que nunca atribuíssem o monopólio das qualidades da força e da aventura ao ser no masculino. Quis que fossem coesas, duas partes completas, duas metades inteiras.

Dei-lhes os recursos, os atilhos, os folhos e o romance, mas descalcei-lhes os pés e o feitio, para que tocassem na terra de palmo inteiro e desbravassem sem medo o que não lhes era conhecido. Quis muito que respeitassem o corpo, sem o temer, que o sentissem sem vergonha ou escrúpulo antecipado, queria que a vergonha surgisse apenas quando o erro é flagrante e nunca adiante. Não quis masculinizar a culpa, nem criar ditadoras de um mundo de fantasia. São duas bonecas, pensei. Quero apenas que sejam rijas.

O futuro dir-me-á se lhes armadilhei o caminho ou se fui uma boa ceifeira, de uma colheita coesa, de duas metades inteiras.

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