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DUAS METADES INTEIRAS

Duas-Metades-Inteiras

Cresci numa casa de mulheres, parca em vestígios masculinos, excepção feita à figura mais proeminente da minha infância, o meu avô. A minha avó tinha duas irmãs, a minha mãe, a mesma justa equação. E nós éramos quatro. Debaixo do mesmo tecto, todas as hormonas, diferentes gerações em confluência.

Cresci a ver cabelos a serem penteados, vestidos nos estendais, mãos com anéis, livros de receitas abertos sobre as bancadas, músicas ouvidas em desatino, choros sofridos no vai e vem da paixão. Saturada do universo matriarcal, jurei a mim mesma quando ainda era adolescente, que se exercesse a maternidade, seria mãe de um homem. Não quis o destino quebrar a corrente e, sem ser tida nem achada, fui mãe de duas Marias.

Hoje rio-me com ternura desses tempos de criança. Nunca fui Maria Rapaz, não era o cor-de-rosa em atrofio que ansiava pela gestação de um macho, não era o histerismo pontual que me atirava para a conquista de um espaço mais azul, não era a falta de amor que pedia ao meu universo que se pontuasse com alguma masculinidade. Era a sensação pragmática de que havia um hemisfério a precisar da versão mais simples do ser mulher. Era um excesso de rímel traçado sobre as decisões, era muito salto alto, quando a vida pedia pé no chão.

Com distância, consigo agora perceber como me fiz mulher entre as mulheres. E como a confluência exagerada do meu universo permitiu que percebesse a importância do meu percurso na educação das minhas filhas. Hoje, sei-o na pele, a mesma onde sofri os embates, que ser mãe de uma rapariga é uma missão. E não o escrevo apenas por estímulo feminista, escrevo-o, porque demorei-me a adorar ser mulher. E criei as minhas filhas para que adorassem desde o primeiro dia. Queria que sorvessem, tudo o que era incrivelmente belo e singular no ser no feminino. Quis que nunca atribuíssem o monopólio das qualidades da força e da aventura ao ser no masculino. Quis que fossem coesas, duas partes completas, duas metades inteiras.

Dei-lhes os recursos, os atilhos, os folhos e o romance, mas descalcei-lhes os pés e o feitio, para que tocassem na terra de palmo inteiro e desbravassem sem medo o que não lhes era conhecido. Quis muito que respeitassem o corpo, sem o temer, que o sentissem sem vergonha ou escrúpulo antecipado, queria que a vergonha surgisse apenas quando o erro é flagrante e nunca adiante. Não quis masculinizar a culpa, nem criar ditadoras de um mundo de fantasia. São duas bonecas, pensei. Quero apenas que sejam rijas.

O futuro dir-me-á se lhes armadilhei o caminho ou se fui uma boa ceifeira, de uma colheita coesa, de duas metades inteiras.

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Teatro q.b.

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Quando a Caetana tinha 3 anos, apanhei-a na casa de banho a apertar um tubinho de soro sobre os cantos dos olhos, simulando lágrimas, ao mesmo tempo que o seu semblante carregado, assumia uma expressão teatral de tristeza.
Deu-me vontade de rir. Deve ser coisa de miúda pensei.
Para não interromper de imediato a performance esperei.
Quando entrei na casa de banho, jorravam rastos de soro nas bochechas. Perguntei-lhe o que é que estava a fazer, e ela respondeu que estava a fingir que chorava. Disse-me toda contente, que ia levar para a escola o tubinho e enganar os amiguinhos.
Toda a gente gosta de uma boa partida. E serei sempre uma encorajadora de jogadas de sentido de humor, mas não se deve simular tristeza quando ela não existe. Expliquei-lhe que provocar emoções de pena ou tristeza com sentido estratégico não era coisa de pessoa boa. Como ainda é miúda, sei que fará uso devido do simulacro do choro de forma espontânea e natural, numa circunstância que exija o teatro das emoções para salvar o melhor sentido das coisas. Com 3 anos achei claramente prematuro estimular a performance. Passaram-se 6 anos. E hoje com 9 a Caetana vai iniciar um workshop de teatro.
E eu estava aqui a pensar, que durante a hora e meia que ela vai estar a encenar, talvez seja sensato ir para uma igreja e rezar.:)

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