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UM DESAFIO | UM RÓTULO

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Tenho uma série de garrafas de vinho na minha mesa do escritório. Umas vazias e outras fechadas, mas tudo isto tem um propósito: O vinho #filhasdamãe.
E as loirinhas estão comigo desde o dia em que decidimos avançar com o Projecto, a criação de um vinho nosso, em parceria com o enólogo Paulo Laureano.
Gostamos de nos envolver a fundo no que fazemos. Não queremos dar nome, queremos dar forma e alma. E por isso, fomos vindima-lo, fomos pisa-lo, fomos prova-lo e estamos naquela fase deliciosa do namoro do rótulo.
A Caetana diz. – É mesmo cool mãe! Vamos ter um vinho.
E a Camila diz que preferia que fizéssemos barras de chocolate. Mas pega na garrafa vazia, logo de seguida, e pergunta se pode levar para a escola para mostrar à professora.
O vinho tem álcool, é verdade. Mas não é o álcool que define o vinho. O vinho é um equilíbrio de propriedades, um blend da terra, com as uvas, as pessoas, as mãos e os sentidos que o sacodem e saboreiam. Pusemo-nos as três a falar alegremente sobre o rótulo, e embora, elas não percebam nada sobre o paladar do vinho, pude explicar-lhes a importância do terreno(terroir), falei-lhes da uva, a primeira “filha da mãe” terra, falei-lhes da celebração, das diferentes castas, do processo de vindima e dos segredos guardados em pipas enormes de madeira. Igualzinha aquelas em que deixamos mensagens no alto mar.
Tenho a certeza, que mesmo ainda antes de sentirem o sabor, já lhes vislumbraram a essência. E com uma “pinga” bem aplicada de orgulho, terei semeado nelas, o mesmo gosto que hoje tenho por esse paladar engarrafado:)
Perguntei-lhes que rótulo gostavam de ver num vinho que também é delas. Sugeriram-me imagens, desenhos e palavras, e foi dessa conversa entornada, sem rolhas à imaginação que começamos a desenhar o rótulo do nosso vinho. Ainda não está concluído e a rolha ainda não está selada. A Caetana sugeriu e bem, que vos perguntasse o que esperavam ver no rótulo.
“Pode ser que eles tenham mais imaginação que nós e que gostem tanto de vinho como a mãe”.
Por isso aqui vai o nosso pedido:
Mandem as rolhas cá para fora e respondam às “filhas desta mãe” sff:)
Obrigado!!

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Um mês intensivo de loiras

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E agora que estou na recta final de um mês intensivo das loiras o que é que me apraz dizer? Sem filtros e com toda a honestidade que devo à minha existência singular, aleatória e privilegiada nesta terra: – Estou estafada…Já não tenho imaginação para conceber refeições diferenciadas, já esgotei o meu repertório de histórias de embalar, já drenei a minha capacidade de montar kits matinais e de andar à procura de sapatos solteiros, de dar banhos, secar dos banhos, despiolhar, pentear, amaciar, dar de jantar, planear as lancheiras, separar os almoços, descascar fruta, comprar manhãzitos, estrelitas e chocapic´s, como quem vai viver para um abrigo nuclear. Estudar, mimar, dar, estar, preparar, salvaguardar, ir buscar e levar, e todos os outros verbos irregulares que fazem da mais nobre actividade de mãe, a mais cansativa delas. Estranhamente, e com saudades depuradas da minha semana alternada, superei-me. Consegui manter a minha integridade e a das crianças. Arrisco dizer que me descobri no domínio de faculdades e competências que ou eram inexistentes ou estavam adormecidas. E mesmo naquelas noites em que tudo o que sonhava era com o vosso sono, eu acordava no dia seguinte, com toda a energia reposta para ser vossa mãe outra vez.
O amor que vos tenho é um filho da mãe, fibroso e resiliente. Resmunga como um velho chato, reclama com a histeria de uma donzela “apanicada”, esperneia como uma criança apertada, mas supera-se, na sua ousadia cresce, nas minhas costas fermenta e para meu espanto suplanta-se.
E a cobro do desejo mais insólito de provar a minha incapacidade para o exercício, e sem cair no exagero de dizer que nasci para isto, descubro na constância do vosso amor, a inconstante certeza do meu.

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.
Ainda não sei bem o que é o que o tempo nos queria dar quando nos juntou. Não percebi o que é que a vida nos quis oferecer, nem o que é que nos tirou. Ainda não sei qual é a lição que vou levar do tempo. Nem por quanto tempo o vou sentir, com esse nome que se dá às coisas sem nome que se demoram em nós.
Não sei se o lucro infindável de tudo o que poderia ter sido, vai ser o melhor trunfo sobre tudo o que realmente foi.
Às vezes confunde-me não ter dor concreta, senão o vazio.
Ás vezes perco-me a recordar, sabendo que a minha imaginação generosa, convida e entrar no caos das memórias, cenas que nunca tiveram espaço, tempo ou circunstância.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Porque a paixão não é amiga dos arquivos, porque as borboletas não fazem ninhos em pastas de computador.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia porque a força do que é agora, não se deixa embebedar pela promessa do que pode ser.
Mas eu não me importo.
Nem me importo das saudades que tenho, porque lhes reconheço um capricho de uma história que não cheguei a viver.
Ás vezes procuro-te no amanhecer, só porque preciso para o meu sono um pouco da nossa escuridão.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.

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