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AS ESPINHAS DO OFÍCIO

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Tenho um tremendo respeito pelos pescadores, admiração será melhor palavra. Respeito, tenho por todos aqueles que se atiram a remover a terra e ao mar revolto em busca de um sustento.
Mas há uma sensibilidade fina mascarada de rudeza em cada aldeia de pescadores. Há uma timidez feita de cal e esforço que suspende o sorriso fácil. Há muita marca no corpo a lembrar o desfecho de uma história que se quis diferente.
No emaranhado das redes adivinham-se as correntes da vida.
E em cada nó apertado da linha prende-se a fome, a vontade e a incerteza.
Comecei por lhes pedir se podia fotografar as mãos.
As mãos de um pescador são os seus olhos.
Deram-me um “sim” rouco e continuaram a costurar de pé, com os pés descalços sobre uma cordilheira de redes coloridas, como se fossem costureiras apressadas antes do baile final.
Há muita poesia na pesca.
As aldeias de pescadores têm o perfume das escamas, misturado com as entranhas do mar a secar na areia, mas a mim encantam-me. E nada me constrange no seu silêncio, porque eu sei que por dentro, todos trauteiam na mesma canção.

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CONTA-ME UMA HISTÓRIA FELIZ.

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“Quanto menos tabu forem estes assuntos, mais nos ajudamos e partilhamos experiências. Acima de tudo acho que durante este tempo, em que tentei, fui operada e tive de fazer tratamentos, nunca deixei de ser feliz, de viajar, e de fazer as coisas que gosto! São tratamentos duros mas a vida são dois dias! Temos de aproveitar!” Teresinha

Pedi à Teresinha que me deixasse partilhar uma fotografia, e mais do que isso, um pouco da sua história feliz.
Porque ela é sem dúvida uma das grávidas mais feliz que já fotografei. E não foi apenas, porque esteve uma dezena de anos a tentar ter um filho, foi sobretudo pela resiliência do seu bom humor, pela forma resolvida com que se entrega a vida. Porque a consome sem filtros, sem peneiras e sem o pensamento rebocado nos outros.
É raro, é bom, é são.
Nem todas as mulheres engravidam ao primeiro lapso da pílula, e as histórias duras, não acontecem só aquela amiga de uma amiga minha. Há muitas mulheres a consolar as dores nas almofadas e há um milhar de histórias para partilha, que não fazem a conveniência dos dias mais felizes, mas precisam de ser contadas, para serem ouvidas.
A Esperança dos dias, faz parte de um tratamento de fundo, aquele que dá espaço vital de cultivo às coisas boas da vida.
E pelo que sei, por quem luta, a exclusividade da história complicada, é um mal escasso, que se troca de bom agrado, pelo colectivos dos finais felizes.
Obrigado Teresinha pela partilha.
Essa miúda que aí vem, já nasce com a sorte grande de ter uma mãe assim.

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“Já ninguém quer casar”

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Olho para esta fotografia e rio-me.
Gosto de flores, sempre gostei de flores.
Sei por experiência, que o bouquet se pode tornar um apêndice suado nas mãos da noiva, mas admiro-lhe o acréscimo de beleza que traz à composição de tudo.
Um ramo de flores diz muito de quem o carrega. Mas a história deste bouquet é singular.
Só a história do bouquet, porque a noiva que o carrega, está de barriga virada ao sol, numa dessas ilhas invejosas que polvilham o pacífico, de mãos dadas com o amor. (Ao que me consta no Instagram.)
Passo a explicar: Todos os casamentos, mesmo os mais modernos têm momentos. Um deles é o arremessar do bouquet da noiva às mulheres solteiras da sala (ou em condição de namoro prolongado sem desfecho formal:).
É engraçado o momento, porque permite identificar o número de mulheres solteiras da sala e agrega-las em torno de um só propósito. Claro, que para qualquer “Maria Capaz” que se preze, o anseio feminino e desesperado por um “pede-me” não é motivo de orgulho, menos ainda de momento, menos ainda de protocolo. Mas não nos detenhamos nessas considerações (a considerar).
A verdade é que o mulherio alinha em gargalhada na cena, como eu já alinhei, nos tempos curtos, em que fui rapariga solteira.
A noiva dança, rodopia, simula, ri-se, provoca e lança.
As mulheres solteiras batem palmas, mas quando o olhar sobe acompanhando o disparo do ramo, baixam os braços.
O ramo rodopia sozinho, os olhares dos convidados acompanham a dança das flores, e o ramo cai.
Soltam-se as pétalas e as gargalhadas. Os olhares cruzam-se, interrogam-se. A noiva alça as mãos em beicinho sobre as ancas.
“Já ninguém quer casar”, diz-se pela sala.
A noiva apanha o ramo atordoado, pede ao DJ que prossiga e encosta a promessa ao lado, com o suspiro consentido das mulheres da sala. “Siga”, pensam em uníssono.
E a valsa prossegue, sobre um chão caiado a pétalas e um acordão em rodopio.

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.
Ainda não sei bem o que é o que o tempo nos queria dar quando nos juntou. Não percebi o que é que a vida nos quis oferecer, nem o que é que nos tirou. Ainda não sei qual é a lição que vou levar do tempo. Nem por quanto tempo o vou sentir, com esse nome que se dá às coisas sem nome que se demoram em nós.
Não sei se o lucro infindável de tudo o que poderia ter sido, vai ser o melhor trunfo sobre tudo o que realmente foi.
Às vezes confunde-me não ter dor concreta, senão o vazio.
Ás vezes perco-me a recordar, sabendo que a minha imaginação generosa, convida e entrar no caos das memórias, cenas que nunca tiveram espaço, tempo ou circunstância.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Porque a paixão não é amiga dos arquivos, porque as borboletas não fazem ninhos em pastas de computador.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia porque a força do que é agora, não se deixa embebedar pela promessa do que pode ser.
Mas eu não me importo.
Nem me importo das saudades que tenho, porque lhes reconheço um capricho de uma história que não cheguei a viver.
Ás vezes procuro-te no amanhecer, só porque preciso para o meu sono um pouco da nossa escuridão.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.

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