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– Às vezes não dou conta do recado.

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Liga-me uma grande amiga, estava cansada, talvez aflita.
Estava às compras no supermercado com os filhos, quando a filha lhe pede para segurar qualquer coisa na mão. Disse-me aflita, talvez mais cansada que aflita, que tinha perdido o que a filha lhe passara dois minutos antes para as mãos. Disse-me ao jeito do desabafo mais sincero:
– Às vezes não dou conta do recado. Foram só dois minutos e eu perdi o que ela me deu.
A miúda ficou chateada, talvez aflita, talvez mais chateada que aflita. A mãe ficou de rastos.
Tenho tantas falhas para a troca que não tive que procurar muito pelo equipamento do ballet que não levei no dia em que havia sarau, nem tive que puxar muito pela imaginação para me lembrar que cheguei atrasada ao colégio no dia a seguir à reunião de pais, em que falaram da pontualidade, nem tive que esgravatar para lhe contar sobre as vezes seguidas em que me esqueci de reforçar o lanche e elas se queixaram de fome, nem as vezes em que servi Estrelitas ao jantar, na vez dos brócolos, porque me esqueci de os cozer. Nem aquela vez que fingi que não havia trabalhos de casa porque não tinha energia para os fazer, nem as vezes que saltei o banho, porque não tinha paciência para lhes lavar os cabelos.
Disse-lhe só: – És uma mãe do caraças. Acredita que se não o fosses, não era a coisa que ela te deu que tinhas perdido. Era a memória do que perdeste.

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No epicentro do recreio

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Fui à escola das loiras à hora do almoço para entregar uma surpresa à Caetana e dar um beijo de saudades na Camila. Cheguei bem no epicentro do recreio, na debandada da hora do almoço. Eram tantas as crianças que não conseguia vislumbrar as minhas, era tanto o barulho que o meu cérebro não conseguia comandar os olhos numa busca e os meus membros estavam tão intimidados que não se queriam mexer. Ingénua, ainda pensei que se me quedasse muda e hirta ia ser descoberta pelas crias, amparada pelos seus abraços pujantes, sacudida pelos beijos da saudade. Passaram-se minutos e nada. Iniciei a busca ocular, movi o corpo por entre os seres pequeninos. De repente, pareciam-me todas loiras, todas elas. Vi uns adultos iguais a mim, quedos e hirtos mexendo o pescoço em cata-vento. Sorri como quem solidariza, não estou só, pensei. Passaram-se mais uns minutos quando ouvi uma voz. – Mãe!
O meu descodificador acusou um laço parental naquela voz, a minha cabeça virou-se e o meu coração deu sinais de impaciência. Uma já cá canta, pensei. Não, não pensei. Abracei-a com exagero, percebi-o no olhar das amigas e no desatar escorregadio dos braços. O recreio é o palco das crianças, demonstrações afectivas sim, mas devidamente enquadradas e com discrição.
Eu respeito. Muito. Também já fui miúda pequena e apesar da minha mãe não ser dada às visitas surpresa na hora do recreio, imagino o meu embaraço se fosse. Aquele abraço exagerado que a mãe aperta com culpa na semana que é do pai. Percebo-te.
Mas tinha saudades tuas. Disse “Olá” às tuas amigas com muita simpatia mas sem grande exagero. Sei bem, que tudo o que tu queres nesta idade é que tudo seja normal. Mãe normal com saudades normais. Despedi-me com um beijo normal, disse que te adorava, como faço normalmente. E parti em busca da cria menor. Quanto mais pequeno mais difícil. Como já estava com a maternidade em red light vi-te logo. Corrias como uma seta atrás de um menino. A tua gargalhada era tão boa que até parecia que os dentes de leite iam à frente do corpo. Estiquei o braço para te agarrar. Percebeste que era eu e travaste o passo. Voltei a descer e abracei-te com força as pernas. Já não fui a tempo de ser normal. E como faço normalmente, disse que estava cheiaaaaaa de saudades tuas. Sorriste sem grande reciprocidade de gesto, a tua cabeça vigiava o movimento dos teus pares. Estavas num jogo da apanhada, mas não para ser apanhada por mim. Dei-te um beijo grande e respirei o cheiro dos teus caracóis. Levantei-me e saí do recreio com um andar normal e um coração saciado. Quando estava quase a dobrar a esquina, oiço a voz da Cria grande: – Mãe!!
Vieste na minha direcção, abraçaste-me as pernas e quando ia curvar a cara para me aproximar da tua cabeça, olhaste-me nos olhos e disseste baixinho, mas com muita força: – Amo-te.
E eu sai do teu recreio anormalmente feliz.

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Os milagres acontecem aos pares

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Há histórias que “me” impressionam e esta é sem dúvida uma delas.
Conheci a Débora e o André num dos meus Workshops de Fotografia. O André é médico e a Débora enfermeira. Lembro-me de ter mandado a piada quebra-gelo do cliché. Estavam tão apaixonados que só escreviam a uma mão. Entrelaçavam-se, anuíam e sorriam, como quem vai confirmando, em permanência, o amor que sente. Quando lancei o desafio das #filhasdamae no Facebook, recebi um email da Débora. Descobri que tinha sido mãe de gémeas e descobri que as deliciosas #filhasdamae decidiram vir ao mundo com 25 semanas. Sem qualquer lamechiche (que lhes era totalmente devida), contaram-me de forma resumida a história da batalha que travaram:

“Estávamos ainda em lua de mel, sim porque tínhamos casado há cerca de 4 meses, numas mini ferias no Norte quando vimos o anúncio do workshop, como ambos somos uns apaixonados pela fotografia e a Isabel sem duvida uma das nossas fotografas favoritas não hesitamos em nos candidatar, e assim tudo começou. Estávamos super ansiosos pelo workshop e mais ainda por conhece-la, e as expectativas eram muitas e foram largamente superadas. O workshop foi super dinâmico, original, descontraído e a Isabel uma mulher fantástica e super apaixonada pela vida, pelo trabalho e pelas suas lindas filhas. Mas nos não fomos apenas os dois ao workshop, pois sem sabermos estavam duas lindas “filhas da mãe” na barriga da Débora, só mais tarde chegamos a saber da maravilhosa notícia. Temos a certeza que também vão adorar a fotografia.
Até aqui tudo parece perfeito mas na verdade estas “filhas da mãe” resolveram nascer com 25 semanas de gestação e matar os pais de susto. Tinham apenas “meio kilo de gente” quando nasceram e uma força de viver inacreditável. Achamos piada ao termo “filhas da mãe” porque as enfermeiras que cuidavam das nossas filhas como acham as meninas parecidas com a mãe estavam sempre a dizer “São mesmo filhas da mãe”.”
Não sei se podemos participar mas não custa tentar:) Elas já tem 7 meses mas na realidade equivale a uns 5/6 meses, pesam 5Kg e qualquer coisa…
Beijinhos Débora & André”

Fui visitar o blogue, li e reli a história das duas guerreiras. E assim que consegui, liguei para a Débora, a avisar, que eram sem dúvida as maiores #filhasdamãe que já tinha conhecido. E que teria o maior dos orgulhos em vê-las envergar um body que é metáfora pequena para a dimensão do que já conquistaram.
Nunca tinha tido contacto com prematuros. Estava longe de somatizar qualquer tipo de dor que uma mãe experencia quando se vê perante a luta da sobrevivência de um filho. Não consigo, por muito que tente imaginar, o que é que é passar 120 dias num hospital a olhar para uma box de vidro e a desejar tudo. Não me passa pelo coração, nem tenho vislumbre do que seja, não agarrar junto ao peito, um filho, quando tudo o que eles pedem é amor. E não consigo perceber, como é que se sai inteiro, quando o coração parece comprimir com tanta força, que nos arrasta a esperança com a respiração.
Tudo na vossa história me impressionou: A gestão da incerteza mais dura, a crueldade de regressar a uma casa vazia, o habitar de um hospital, a privação do toque, do colo e dos beijos, a resiliência com que erguiam todas as manhas, a energia com que fermentavam todas as brechas de esperança e o vosso Amor. Sobretudo, o vosso Amor.
Depois de ter estado umas horas largas na vossa companhia, não tenho a menor dúvida, que o maior tubo de oxigênio e vida, que a Maria e a Matilde receberam, foi o vosso amor.
E se eu nascesse muito pequenina, também havia de querer crescer só para ver algo assim.

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Estas fotos, foram tiradas pelo André e pela Débora.
Obrigado por partilharem connosco a batalha, e sobretudo a maravilhosa Vitória da vida, na forma mais desejada que há, as vossas filhas.

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Sem medo bandida!

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Acorda às 7h! Sai da cama bandida!
Tens os pés frios? Temos pena. Ardem-te os olhos do sono em dívida? Não verberasses tanto pela noite a dentro. Sossega-te rapariga, que esse teu jeito de acordar como se todos os dias fossem véspera de Natal, não traz presente.
Tropeças ou manténs-te a pé sem jeito?
Tens que acordar as crias. Sim. Não adianta demorares-te a olhar de soslaio pela porta. Primeiro, porque não tens tempo. Segundo, porque sim, são mesmo tuas.
Raivinhas de anseio por vidas diferentes, é muito infantil.
Se te visses, agora mesmo ao espelho, nesse mesmo desalinho, com que reclamas o bom que tens, talvez te chegasse à pele a idade real da vida.
Bora bandida!
Vai lá abanar as trunfas loiras escondidas no bafo quente dos lençóis. Não te esqueças que uma mãe é terna mas assertiva. Se amoleceres não vai pegar, se quebrares, não vai acontecer. E não vale a pena, cair na tentação de lamberes o sono das crias, porque isso não amortiza pecado das horas que não lhes deste.
É a vida miúda. E lembra-te, ao primeiro apito sóbrio do micro ondas, quando te aperceberes que já estás atrasada, que estás mal entalada, mal vestida, mal dormida, que é essa mesma vida que te faz feliz.
Sem medo bandida!
Vai lá e veste as pequenas com carinho. Não te esqueças que para além da ética, está a estética. Penteia-lhes os cabelos com o mesmo gosto com que o Robert Redford lavou os cabelos da Meryl Streep. Lembra-te que o gesto é memória. É isso mesmo bandida, ser mãe é narrativa.
Fecha lá as marmitas das loiras, emparelha com mestria os pedaços de bollycao com a fruta fresca. Fecha as mochilas rosa sem brusquidão. Sem bufos de surdina, bandida…E não te esqueças, ajuda carregar as mochilas, que as tuas costas estão mais ao jeito de descida. Peso e responsabilidade, por muito jeito que te dê, não têm porque ter irmandade. E agora Bandida?
Toca a andar. Põe-lhe os cintos, mas sem gritos. Não descures a boa vizinhança, a predisposição temperamental, e com um quase nada de esforço, desbota a cara de avental.
Então bandida? És mulher moderna ou mãe arrependida?
E nada de compensar a desorganização do lar, com o pé pesado, o grito amuado ou a mão na buzina. E já sabes, quando as poisares no chão do templo, que chamas escola, não te apresses na carícia. Que não há maior delícia que a imagem de uma mãe a beijar a sua cria.

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