Blog Archives

Amamentei as minhas duas filhas

YE2A6559

Amamentei as minhas duas filhas.

Confesso que tive alguma dificuldade na primeira leva, doía-me tudo, sobretudo a minha falta de jeito para cobrir os apetites vorazes da criança. Tive a sorte de ter tido um parto normal sem episiotomia. Regressei a casa em menos de 24 horas, ligeira como uma adolescente, com o peso recuperado e com uma filha nos braços.

Pouco li antes sobre os desígnios da maternidade. Assumi para mim mesma, que a seu tempo brotaria no meu corpo um intelecto de mãe, munido de um instinto maternal, suficientemente sólido, para dar conta do recado. Iria amamentar porque fazia parte do pacote e eu queria um “All inclusive” na minha estreia. Fui das sortudas que querendo, conseguiu. Não pegou de primeira, mas fui insistindo na vocação e a miúda agarrou-se como um bezerro. Sempre que saía levava a minha filha ao colo e sempre que era hora do leite, dava-lhe de comer. Nunca me atrapalhei, nem deixei que olhares pré-históricos me alienassem desse prazer. Como sou muito distraída, a maioria das vezes, não trazia o traje mais cómodo para a arte da amamentação. Mas em vez de me atrapalhar entre alças e botões, esgrimindo os cotovelos como marionetas, desembaraçava-me de preconceitos, colocava a criança sobre o colo das pernas e descobria o peito.

Era a mãe, insubstituível naquele papel, legitimada pela mãe natureza para o exercício e muito feliz. Quando tinha reuniões mais formais, tirava o leite e tentava deixar o bebé ao cuidado de algum familiar. Não o fazia por pudor, fazia-o por conforto para mim e para a criança. Gostava demasiado de dar de mamar, enlaçava-me naquele momento, queria-o desfrutar com carinho. Não me fazia sentido ter milhões de mãos a paparicar-me a cabeça da criança colada ao meu peito, e menos ainda, interromper uma ordem de trabalhos com um bolçar súbito ou um arroto e um “desculpe não percebi”.

Nunca julgarei nenhuma mulher que decida levar a criança, para um qualquer lugar permitido, permitindo a si mesma ser mãe. Nem farei disso escrutínio de parágrafo, porque é para mim tão natural como a chuva em Janeiro. Regressei há uns dias de São Tomé e quando estava na cidade de Neves a fotografar, esta mãe chamou-me e disse: – Branca! Tire uma fotografia bonita a uma mãe a amamentar!

Sorri, foquei e tirei a fotografia. Infelizmente, não tenho no meu arquivo de fotografias uma minha, em pose igual para recordar. Para mim, a amamentação não é apenas uma funcionalidade dada de forma casuística à mulher. É um rio que liga às duas margens: A mãe e o seu filho. Dar ou não dar de mamar é uma questão de livre arbítrio e só à mulher diz respeito. Mas se algum dia for mãe outra vez, hei-de querer tirar uma foto igual:)

http://capazes.pt/cronicas/uma-foto-igual-para-mim/view-all/

Comentar

“SER ALGUÉM”

12640447_1303420099683624_180566366882591982_o

Ainda há muitos pais que se dirigem aos filhos utilizando a vulgarizada expressão: “Assim não vais ser ninguém na vida”.
E o que é mesmo ser alguém na vida?
Eliminando a hipótese mais romântica, que “o ser alguém na vida”, seria o “ser a vida de alguém”, o que é que nos resta?
O desempenho de uma séria de profissões socialmente aceites?
Uma educação colegial pautada por “Muitos Bons”, medalhas de mérito, aluno de quadro de honra, campeão das olimpíadas de matemática ou o vencedor do torneio europeu das composições?
Um advogado numa sociedade de renome, um engenheiro com um MBA a liderar uma multinacional ou um cientista bolseiro premiado nos EUA?
Sem desprimor para todo o brio que estes “seres de alguém” serão, e o consequente orgulho paterno-ó-maternal que o depósito frutuoso da nossa educação gera, não é nisto que penso quando desejo muito, que as minhas filhas, não sejam alguém, sejam apenas elas mesmas.
No limite, isto até pode parecer de um romantismo extremo, quase utópico, tipo frase de Instagram. Mas quando acresci ao ser mulher, o ser mãe, a única certeza que tinha era de que não queria impor modelos de sucesso às minhas filhas, que não queria viver obcecada com o “acima da média”, e que não queria repreende-las com advérbios de comparação ou classifica-las num ranking.
Não seria honesta, senão dissesse que me daria, tanto mais jeito que orgulho, que concluíssem o ensino obrigatório sem uma escolta de explicadores. Que me era muito conveniente que os seus hábitos de estudo contemplassem a auto-suficiência e o silêncio, e que adorava ser convocada à escola para ser agraciada apenas pela minha boa genética. Mas o que eu quero para elas, é mais ou menos o que sonhei para mim, que estivessem atentos às minhas capacidades, que me ajudassem a vencer os meus medos e que me aproximassem o mais possível das coisas que me faziam feliz.
E é isso que eu vou fazer com elas.
Dar-lhes as circunstâncias que as potenciem para lá da academia do saber. Dar-lhes todo o mundo que puder na minha disciplina do Estudo do meio. Aproxima-las do português da generosidade, do elogio, da motivação e do perdão. Vou tentar que vejam na matemática da vida a melhor equação, para que os seus denominadores comuns alcancem o melhor dos resultados.
Vou querer que vejam no céu estrelado do monte e nos pés descalços, a ciência mais pura do amor à terra em que vivem, e vou dar-lhes estradas, caminhos, terras e atalhos para explorarem os limites da sua educação física.
Tudo o resto eu deixo para a Escola formal.
Reservo-me o cuidado de regar à noite os sonhos.
Aqueles sonhos em que acredito.
Os que não nos acordam à noite no sobressalto do “sermos alguém”.

Comentar

Não sei bem quem é que consegue

12374882_1272267672798867_9086929658838158011_o

Não sei bem quem é que consegue. E ainda menos quem tenta. Mas não posso ficar senão feliz por quem consegue perceber na unidade do tempo a maior riqueza do homem. Nunca fui rica no sentido monetário do termo, tudo o que hoje tenho foi minha conquista. Quando quis casar comprei com o meu dinheiro o meu vestido de noiva a prestações. E trabalhei muito enquanto estudava para comprar, também a prestações, a minha carta, o meu primeiro carro, a minha primeira renda e os meus primeiros vícios. Não gosto do discurso gabarolas da infância sofrida, mas é bom recordar o que conseguimos, quando achávamos que não tínhamos nada, para poder saborear à séria tudo o que já temos. A verdade é que não me falta nada. E isso é tão bom de pronunciar, que o melhor mesmo é dar-lhe a volta sem medo e dizer de coração cheio que tenho tudo. Temos muito medo de afirmar plenitudes de felicidade, não vá a vida esnobar sobre os sonhos futuros. Mas o que eu mais aprendi nas pequenas conquistas da vida é a não ter medo de exaltar a felicidade dos dias. E assumi-lo sem escrúpulos como um agradecimento enorme à vida. Podia dizer que vivo para pouco. O meu pouco que é tudo: As minhas filhas, as minhas viagens, as minhas palavras, os meus vinhos e petiscos, o meu Pedro, o pai das minhas filhas, as minhas irmãs, os meus amigos maduros, as minhas amigas loucas, os meus livros e o meu tempo. Tenho o coração cheio, uma vida cheia e uma cabeça cheia de sonhos que combinam tudo isto. E o mais que tenho, para além do amor que é terreno fértil, é Tempo.
O tempo que resgatei à vida para poder viver com à máxima intensidade cada uma destas paixões. Sim, acho mesmo que a perseguição dos sonhos me tornou uma mulher rica. E a consciência disso, uma mulher sã. Podia dizer que tive sorte mas seria uma batota enorme sobre o esforço. A sorte que tive foi a sobriedade prematura de perceber no Tempo a unidade máxima de realização. E pressenti-lo a tempo, do tempo, que precisava para mim.

Comentar

CARTÃO DE CIDADÃO – EPISÓDIO 2

12068814_1234405809918387_2852071014200384855_o

CARTÃO DE CIDADÃO
EPISÓDIO 2: Quero um cartão de cidadã como deve ser!

Hoje fui à loja do cidadão levantar os cartões de cidadão das minhas filhas.
Quando me acomodava na cadeira, sai-me literalmente, uma mulher por detrás do biombo e diz: – Você é a mãe da Caetana?
Percebi nesse momento que tenho que passar a andar com uma bandeirinha branca para enfrentar a tua adolescência.
Disse que sim, não havia hipótese de mentir, elas tinham nas mãos a minha documentação oficial, não dava para passar por Tia Irene.
A senhora ri-se e diz:
– Nunca nesta vida vamos esquecer a sua filha! Eu, as minhas colegas e toda a gente que teve com ela naquela fila, enquanto demorava 1 hora e meia a escolher a foto para o cartão.
Fiquei na dúvida se me devia desculpar, amenizar a imagem extravagante da loira, que insiste em não querer ver impressa num cartão oficial, uma imagem que não a traduz devidamente.
Pedi desculpa. Acrescentei: – Sabe, que sou fotógrafa, ela está habituada ao processo de selecção e edição das imagens.
A senhora continua: – O pai que vinha com ela, estava tão desesperado, que às tantas pisquei-lhe o olho, como quem diz, tenha paciência que isto já se resolve. A Caetana topou-me e diz-me com as mãos cruzadas sobre o peito: – Porque é que está a piscar o olho ao meu pai?
Ri-se, rio-me, rimo-nos e acrescenta: – Mas ela é mesmo muito bonita! Às tantas vira-se para o pai e diz: – Com tanta hora para vir tirar o cartão, porque é que viemos logo de madrugada quando estou cheia de olheiras? Ri-me, riu-se e rimo-nos de novo, encolhi os ombros, peguei no cartão e olhei a fotografia.
Responde a Senhora por detrás do biombo: – Essa nem está má! Mas havia lá melhores…
Imagino que sim. Mas melhor do que isto não há.
As minhas desculpas a todos os que sofreram com o atraso provocado pela minha loira e o meu sincero agradecimento à senhora do biombo, que diz que faz questão, que seja ela, daqui a 5 anos, a tratar-lhe da renovação.
Boa sorte!

Comentar

A (minha) VERDADE SEM EPIDURAL

DSC03499

Às vezes pareço que vivo nas crónicas de Nárnia ou que estou barricada num filme da Disney. Não percebo a sucessão de espantos a propósito da princesa com o nome pomposo e o parto sobrenatural.
A minha filha Camila (só Camila) nasceu em 45 minutos de parto normal sem epidural. Não tive qualquer anestesia, nem um pontinho que marcasse o sofrimento de uma hora que não foi sofrida. Nem sinto que deva lamuriar-me do peso, com que não sai do hospital, porque engordei apenas 6.600 kg em toda a gravidez e a miúda nasceu com 3.200 kg.
E as minhas amigas ficaram felizes por mim. E as pessoas que sabiam quem eu era e não me conheciam também. Como acho que se fica feliz quando nasce o bebé de alguém. Enfim parece-me que é assim que funciona no planeta onde me puseram com um parto normal.
Não tive qualquer necessidade de escravizar a história do meu parto ou de mancha-la de acontecimentos dolorosos para gerar empatia. A verdade é que nem pensei nisso. As coisas acontecem como têm que acontecer. Não fui vítima, visada ou sortuda, fui eu.
Não faço ideia do que seja uma cesariana, 12 horas de parto ou uma sequência de contracções dolorosas. E não sou nem menos mulher, nem menos mãe, nem menos super. O meu parto não foi romântico, as luzes não ficaram ténues, os rostos esfumados, nem ouvi acórdãos celestiais. Também não me vi de toca verde, dobrada sobre o abdómen a mandar o médico à m*, enquanto cuspia os perdigotos do meu próprio suor.
Não foi o meu momento mais acético mas foi a dor com a maior recompensa que já tive.
Quando o médico regressou ao quarto eu já tinha ido a correr à casa de banho, encher-me de dignidade, um toque de autobronzeador, um rímel e um vestido comprido para puder andar com a barriga à vontade.
Não tive que ir acenar à comunicação social (grande frete) mas se tivesse que o fazer tinha levado opções de outfit e um alisador.
Cada um é o que pode nas circunstâncias que lhes são dadas a viver. Felizmente, quando tive a minha princesa era uma civil anónima, mais uma mãe feliz numa sala de partos, com um núcleo familiar composto à nossa espera. O médico disse-me que se quisesse podia ir para casa já, mas estava tão assustada com o plural da maternidade que lhe pedi que me desse uma folga, que me deixasse ficar quieta no quarto a fazer as vezes da mãe de uma. No fundo, eu sabia que quando a levasse num ovinho para casa, já seria a mãe galinha de dois pintos. Mas sei que se tivesse um séquito de ajuda à minha espera, tinha colocado os saltos, uma roupa engomada, o sorriso rasgado, e sairia tão airosa e feliz com uma princesa num conto de fadas.

Comentar

Um mês intensivo de loiras

IMG_0288

E agora que estou na recta final de um mês intensivo das loiras o que é que me apraz dizer? Sem filtros e com toda a honestidade que devo à minha existência singular, aleatória e privilegiada nesta terra: – Estou estafada…Já não tenho imaginação para conceber refeições diferenciadas, já esgotei o meu repertório de histórias de embalar, já drenei a minha capacidade de montar kits matinais e de andar à procura de sapatos solteiros, de dar banhos, secar dos banhos, despiolhar, pentear, amaciar, dar de jantar, planear as lancheiras, separar os almoços, descascar fruta, comprar manhãzitos, estrelitas e chocapic´s, como quem vai viver para um abrigo nuclear. Estudar, mimar, dar, estar, preparar, salvaguardar, ir buscar e levar, e todos os outros verbos irregulares que fazem da mais nobre actividade de mãe, a mais cansativa delas. Estranhamente, e com saudades depuradas da minha semana alternada, superei-me. Consegui manter a minha integridade e a das crianças. Arrisco dizer que me descobri no domínio de faculdades e competências que ou eram inexistentes ou estavam adormecidas. E mesmo naquelas noites em que tudo o que sonhava era com o vosso sono, eu acordava no dia seguinte, com toda a energia reposta para ser vossa mãe outra vez.
O amor que vos tenho é um filho da mãe, fibroso e resiliente. Resmunga como um velho chato, reclama com a histeria de uma donzela “apanicada”, esperneia como uma criança apertada, mas supera-se, na sua ousadia cresce, nas minhas costas fermenta e para meu espanto suplanta-se.
E a cobro do desejo mais insólito de provar a minha incapacidade para o exercício, e sem cair no exagero de dizer que nasci para isto, descubro na constância do vosso amor, a inconstante certeza do meu.

Comentar

“Quando eu for mãe”

IMG_0692_6264

As minhas filhas têm diferentes opiniões sobre a maternidade. Entenda-se com isto que não me refiro à forma como as educo ou às questões motivacionais ou emocionais, que estiveram por de trás da sua origem, inquestionável, por razões eco-sistémicas de sobrevivência em família:)
Até porque posso assegurar que o Amor próprio cá por casa, supera o próprio Amor.
Quando falamos de maternidade e são mais elas que eu, é sempre sobre os filhos que elas desejam muito que eu tenha, e os filhos que elas um dia vão ter.
Quando se põe a fantasiar sobre os irmãozinhos e as maninhas usam grandes folhas A4, onde escrevem, em forma de tabela, os nomes dos meus futuros filhos. Partindo sempre do pressuposto generoso de que são gémeos.
A Caetana fala muitas vezes “quando eu for mãe” isto, “quando eu for mãe” aquilo. Imagina a casa, a dinâmica, o marido, as faces das crianças, os nomes, e quando está mesmo muito inspirada, fantasia-lhes o carácter e faz simulações in loco do que seriam as suas reacções às birras, pedidos ou questões, que os seus filhos, com inteligência suprema teriam para lhe colocar.
A Camila por outro lado, que reconhece o seu estatuto de criança, filha e mimada, nutre um profundo temor e respeito por esta santíssima trindade, afirma desde sempre, que não quer ser mãe ou ter filhos de qualquer espécie. É peremptória nesta conversa e não admite qualquer excepção, marketing ou diálogo em torno das virtudes de ser mãe.
Quando lhe pergunto Porque é que não quer ser mãe?
(Sem qualquer objecção à decisão, que entendo, faz parte do uso fabuloso de ser uma mulher livre).
Ela responde-me: – Dá muito trabalho.
Andava eu com medo de a traumatizar como mãe, quando ela já o antecipa no exercício de ser filha.
Toma lá sangue do meu sangue, é para aprenderes:)

Comentar

Eu juro que não digo a resposta

IMG_0519_6162

Ontem, enquanto estava a escolher a imagem para ilustrar o texto, a Caetana estava em pé ao meu lado.
Depois de muito scroll sobre as fotografias do pai, decidiu perguntar-me:
– A mãe acha o pai bonito?
Respondi-lhe que sim, claro.
Insatisfeita com a rapidez do meu atalho, reforça:
– Quem é que a mãe acha mais bonito, o pai ou o Pedro? (namorado da mãe)
Rí-me.
Para dar um empurrãozinho à resposta, ela acrescenta:
– A mãe pode me contar. Eu juro que não digo a resposta ao Pedro.

Comentar

Atestada de amor

untitled-492

O pai das loirinhas está fora por um mês.
Acima da boa diplomacia, uma franca amizade, e como era trabalho, e não uma escapadela furtiva as ilhas Fiji, condescendi (se bem que sou sensível ao argumento das viagens furtivas e não havia propriamente outra mezinha).
O que significa que a custódia partilhada passa a ser total, por 30 dias úteis e inúteis.
Tenho a certeza que o pai das loiras já sabe que vou exercer esse crédito em igual desproporção:) Ainda não sei se vou permutar por 2 meses na Índia* ou por idas semanais ao SPA.
Até lhe disse, ao jeito de brincadeira, que ele não me podia fazer isso, porque eu corria o risco de me afeiçoar.
Afeiçoada eu já estou. A elas e aquela pausa negociada que nasceu do fruto da nossa separação. Devia respirar compassadamente, mas estamos a meio da “experiência” e eu já arfo.
A respiração ordeira dos primeiros dias, os gestos delico-doces, o gosto das primeiras fichas de férias e o leito partilhado a três é intervalado com doses intermitentes de impaciência.
É certo que vocês sabem que eu vos amo incondicionalmente, daí a corrupção ao desvario deste meu lar. Quando entro em casa ergo logo as mãos ao jeito de rendição e quando vos beijo antes de dormir, adormeço os meus desejos no prolongamento do vosso sono. Tenho tentado ser ambos, safa-se, mas não safa tão bem.
Dar-me-ia uma certa soberania sobre a tarefas se vocês não andassem sempre atrás de mim como os filhos de uma pata.
Deve ser reflexo óbvio da falta do Pai Pato.
Quando falamos com o “daddy” por Skype tenho vontade de as empurrar para dentro do monitor. E tenho a certeza que o olhar enternecido do progenitor, se faria real, se as pudesse receber do outro lado.
Isso consola-me e segura-me.
Ainda não lhes perguntei esta semana se sou boa mãe.
Não vou arriscar a demência da culpa de tentar ser tudo.
É o amor. Ninguém disse que era incólume.
Esta é a vossa mãe. Meio avariada, meio desvairada mas atestada de amor.
E sim pai, elas sentem muito a tua falta.
E creio que a mãe Pata também.
P.S:* India, já decidi:)

Comentar

Cancro (era uma vez)

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography76

A convite da Fundação Rui Osório de Castro, instituição de solidariedade social sem fins lucrativos que apoia a oncologia pediátrica nas áreas da informação e da investigação científica fui fazer uma foto reportagem de um workshop de moda para crianças ao Atelier do designer Filipe Faísca.

As crianças para o qual tinha sido organizado este workshop eram crianças em ambulatório do IPO. Meninas cuja as vidas já tinham sido atalhadas por uma dose gigante de maturidade e sofrimento que dá pelo nome temível de Cancro.
Nunca privei de perto com a doença, quis a vida que até agora fosse poupada do confronto directo com essa mutação cobarde que não se anuncia, nem se faz esperar. Infelizmente, conheci e conheço como toda a gente, pessoas e famílias que foram violentadas pelas várias faces desta doença. Já assisti a mudanças de rota, de destino, de vida e de carácter. Já percebi, sem um assalto à mão armada, o que estas seis palavras em diagnóstico podem produzir num ser humano, enquanto se reproduzem à revelia nos nossos corpos. Todos temos medo.
Um respeito mudo sobre a doença, que cala muitas das nossas vezes a nossa vontade imediata de chorar sobre quem sofre. Todos desejamos. Sentir no colo firme da Esperança que a ciência corre a galope para nos safar.
Meninas com ou sem cancro, são todas meninas.
Tudo o que uma criança ambiciona, sem ambição que lhe dê esse nome, é ser criança em pleno, sem ter que interromper o recreio da vida para brincar às escondidas com a morte.
Dá pena, dá muita pena.
E não encontro palavra mais verdadeira para tudo o que me toma. Comparo-as inevitavelmente com as minhas filhas, sinto-me abençoada. Quero oferecer parte da sorte que tenho aos seus Pais. Penso neles, parte da minha dor alheia está com eles. Não imagino nada mais cruel que a luta pela vida de um filho. Não imagino os depósitos de confiança e amor que são necessários para acordar todos os dias inteiro para lutar.
Imagino que o que sonham os pais a caminho do ambulatório descreve parte das rotinas de que me queixo. Imagino-lhe as saudades de tudo o que é absurdamente normal. No domingo foi o dia Internacional da criança com o cancro mas estava tão cansada do peso do dia absurdamente normal, que não consegui publicar este texto.
Estamos na época do Carnaval, das máscaras e do faz de conta. E tudo o que eu queria, se fosse fada de condão, era que essas crianças não tivessem que se mascarar de nada, que não fosse apenas o de serem crianças.
E que a palavra cancro fosse apenas um reino longínquo, sem mágoa ou sem castigo de que se falasse ao de leve nos livros do faz de conta.

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography95

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography52

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography91

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography84

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography83

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography82

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography72

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography70

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography64

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography90

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography61

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography58

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography54

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography47

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography46

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography43

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography41

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography33

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography31

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography29

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography25

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography23

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography21

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography19

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography18

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography16

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography14 (1)

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography13

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography12

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography08

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography07 (1)

 

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography06 (1)

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography05

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography05 (1)

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography04

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography03

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography03 (1)

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography02 (1)

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography05 (1)

Workshop Filipe Faísca | Isabel Saldanha Photography28

Comentar