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O cabelo cresce loirinha

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Andaste a fugir à tesoura durante 6 meses.
Quando o pai cá esteve, passei-lhe a incumbência, mas a agilidade feminina levou a melhor e regressaste à mãezinha com o mesmo cabelo aciganado com que te entreguei ao pai.
Ontem cedeste aos meus argumentos e deixaste que eu te cortasse o cabelo depois de despejares dois quilos de máscara hidratante, que fez com que a Camila desse um duplo mortal na banheira logo a seguir.
Tinhas o cabelo miserável, mas tu achas que eu exagero na adjectivação e quando viste no chão os cinco dedos pareceu-te toda uma pata de elefante.
Rebentaste em lágrimas, agarraste as pontas molhadas entre os dedos e soluçaste, como se fosse um membro amputado e uma despedida para sempre. Não contente, disseste-me que te tinha arruinado o dia, a semana e a vida (quem sabe).
Sou mulher, minha menina, já chorei muita franja de escovinha cortada pela minha mãe, já saí do cabeleireiro com vergonha de me ver reflectida nas montras e já roguei pragas ao impulso colectivo das tintas de supermercado. Faz parte. O Pedro estava surpreendido com o nível da crise (tem dois filhos rapazes) com a grossura da lágrima e com o exagero da adjectivação, que é o melhor teste de ADN em matéria de crise:)
Foram 15 minutos de crise até que o mundo ficasse tão acetinado como a máscara que colocaste no teu cabelo, foram alguns duplos mortais na minha caixa torácica e até valeu abrir uma colheita especial de 2011 (sempre fomos boas nas boas desculpas).
O cabelo cresce loirinha e felizmente, nós também

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“Diz a Camila…”

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Diz a Camila ontem num café:
-Mãe! Tenho um miúdo na turma do lado que é deste tamanho!
(E com os braços abertos, afasta as palmas das mãos uns 20 centímetros.) É anon!
– Não é anon que se diz Camila, é anão.
– É isso. É mesmo pequenino, mãe:)
Aproveito sempre e introduzo o respeito pela “Diferença” (nem sempre resulta):
– Os anões são mais pequeninos. – disse.
A Camila sabe que deve respeitar e ser carinhosa com as pessoas que são diferentes da maioria. Que nunca se deve gozar com as diferenças dos outros. E que sempre que vir alguém a gozar ou a fazer troça, deve fazer queixa ou chama-lo à atenção.
Diz a Camila, ansiosa por falar:
– Eu sei mãe, eu sei. Eu trato toda a gente bem.
Eu só queria pedir -lhe para ir visitar a aldeia dele, que deve ser o máximo!

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#Orgulhodisparatado

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Um Bom dia aos orgulhos disparatados:))
A Camila estava a fazer os Tpc´s de inglês, cada desenho correspondia uma cor. A última figura era um porco.
Diz a Camila: – Ó mãe tenho dúvidas nesta.
Olhei para o desenho e disse: – Ó Camila dúvidas?! Então o Porco/Pig não é PINK/cor de rosa?
Ò mãe e o Porco Preto?
‪#‎FILHADAMÃE‬ ‪#‎Orgulhodisparatado‬

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Os sonhos são meus

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Nunca quis ou desejei, ter uma filha que se parecesse com aquilo que sou, ainda menos, com aquilo que ainda não sou.
Ou dito de outra forma, com aquilo que sonhei de mim para mim.
Nunca projectei ao redondo da minha barriga a execução plena dos projectos que vou deixando em stand by.
Os sonhos são meus.
Cabe-me a mim a divisão árdua do tempo e o risco de decidir como me quero fazer pessoa. Não me passa pela cabeça deixar sobras dos meus talentos na esperança de as colher maduras num filho. Nem me lembro de alguma vez ter olhado para as minhas filhas à procura das parecenças nas coisas boas que admiro em mim. Quando elas despontam, despontam. Como a graça de um raio de sol num dia carregado de nuvens. Ou os pingos de chuva numa tarde tropical. Ou uma máquina fotográfica a tremer na mão pequena. Ou um poema ritmado escrito com erros repetidos.
E outras graças hão de despontar nelas, que nunca nasceram em mim.
Não ignoro a influência que tenho, sobre o mundo que sonham e a forma como se moldam a partir de mim. Sou fotógrafa e gestora e escritora e conspiradora, mas o que eu gostava mesmo é que elas conseguissem ver a vida sem filtros, que amassem as pessoas inteiras, com todas as suas linhas, desalinhas e imperfeições. Gostava que amassem o belo, sendo a verdade das coisas a beleza na sua essência mais sólida. Gostava que conspirassem muito, para alargar a visão dos factos, para além dos factos em sí. Gostava muito que soubessem construir com as palavras certas, as metáforas que mais se ajustam às suas vidas. E gostava muito, que um dia, quando tivessem filhos, se assim o desejarem, se lembrem que ninguém faz de alguém, alguém, sem se fazer a si primeiro.
E o Mundo precisa disso, de pessoas inteiras. Para os sonhos não virem às parcelas, só porque nos fizemos pequeninos para sonhos maiores.
Mas isto é só um sonho.
E os sonhos são meus.

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Hoje, como todos os dias…

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Hoje, como todos os dias, fui levar-vos às aulas.
De onde moro até à Escola passo em quase todos os centros nevrálgicos da cidade. Devo correr à volta de vinte e cinco semáforos, duas rotundas, um túnel e seis sinais de Stop. Levantamo-nos às 7h da manhã e não paramos até estar sentadas no carro, prontas a arrancar. Há sempre sapatos que ficam por atar, cabelos por pentear e conversas por concluir.
Fora uma ou outra mochila avulso, que fica escondida atrás da porta, e que era absolutamente essencial naquele dia.
É aí que entram os semáforos e os sinais de Stop.
Sou prego a fundo, mas é raro o dia em que não levo uma buzinadela, por ter não arrancado naquela fracção de segundo em que o vermelho intermitente anuncia o verde!
O verde interessa-me para não chegar atrasada e o Vermelho dá me jeito para os acabamentos. A maioria das vezes, não consigo vislumbrar as caras dos condutores que buzinam, e tento não me concentrar demasiado, no rosto, daqueles que complementam o apito forte, com um braço irado fora da janela. Mas o que eu não gosto mesmo é daqueles que me chamam “Louca”. Não, que não reconheça alguma legitimidade na expressão, mas naquele momento estava a tentar disfarça-la, concentrada que estava na tarefa de ser boa mãe.
Bora ter alguma calma nessa alma, só para não enlouquecer de vez os que chamamos de loucos sem os conhecer!
Bom dia! Boa Segunda-feira!

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E TUDO O VENTO LEVOU…

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Bom dia!
Mesmo depois de ter começado a manhã a ser expulsa da biblioteca da escola por estar a falar ao telemóvel com a professora da minha filha.
Passo a explicar…Ontem cheguei a casa às 20h. As loiras não tinham tomado banho e era hora de jantar. Estavam serenas no sofá, como se a casa fosse apenas um prolongamento do recreio com mais almofadas. Respirei antes de entrar em casa, e só não suspiro mais alto, porque preciso daqueles segundos de ventilação pulmonar para me fazer à auto-estrada da vida doméstica, com enfoque muito particular, neste belíssimo capítulo da maternidade e seus desafios.
Avancei com o jantar, tomam banho a seguir, pensei. A loira mais velha faz fita porque a sopa está doce, a mais nova resmunga que está quente. Os cabelos misturam-se com os fios de esparguete, entornam-se goles de água sobre o prato fundo. Siga.
Quando finalmente as consigo deitar, liga-me o pai pesaroso a querer matar saudades. Ainda a meio da digestão de tudo, corro para as mochilas. Mãe que é mãe exige e controla. Enquanto não lhes reconhecer responsabilidade suficiente para não ter que encontrar pedaços de carcaça dentro do estojo, vasculho e vasculharei, sem qualquer afeição ao verbo.
Lá estava o caderno de matemática da Camila. Tinha ido ao Apoio de estudo a seguir às aulas mas não havia um exercício que tivesse certo. Olhei para o exemplo de cálculo, habituada às operações matemáticas na vertical, tive dificuldade em perceber o desdobramento das dezenas, para voltar a somar às centenas e finalizar o cálculo. Pensei googlar mas eram 23h e estava podre. Amanhã é outro dia, pensei. Como a última frase da Scareltt O´Hara em “Tudo o vento levou”.
Só que aqui o vento, deixa quase tudo no meu colo.
Chegamos às 8h ao colégio, encaminhámos a Caetana, e seguimos para a biblioteca para tentar terminar os trabalhos, longe da confusão do recreio. Olhei novamente para os cálculos, para a folha esborratada de esforço entre o lápis e a borracha, e achei mais prudente, ligar à professora a pedir auxílio, só para engrenar com uma certa mestria no cálculo da operação.
Calculei mal, porque me esqueci que estava na biblioteca, e embora ciente de que éramos as únicas almas, não se pode falar ao telemóvel, como é óbvio. Fui repreendida com firmeza pela guardiã dos livros. Pedi desculpa, levantei-me e fui para a porta aprender a fazer contas, deixando a Camila no conforto da pausa. Quando me sentei faltavam 5 minutos para o toque. Apeteceu-me tanto fazer por ela. Senti-a completamente perdida. E eu também. Tão esborratada como aquela folha de papel quadricular.
Estava ciente de que ela ia ter teste dentro de uma hora, e não tinha a mínima noção do que ia fazer.
Apertei-lhe a mão com força, beijei-lhe a testa, ajudei-a arrumar o estojo e saímos. A caminho da sala, ajoelhei-me à sua altura e disse-lhe:
– Camila, hoje o teste não vai correr bem. Mas “amanhã é outro dia” e nós vamos aprender a fazer essas contas.
Quando a deixei na sala, já não sei se acreditava na força da expressão do amanhã. Que é o que acontece quando o Hoje nos embate assim.
E tudo a mãe levou…

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CARTÃO DE CIDADÃO – EPISÓDIO 2

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CARTÃO DE CIDADÃO
EPISÓDIO 2: Quero um cartão de cidadã como deve ser!

Hoje fui à loja do cidadão levantar os cartões de cidadão das minhas filhas.
Quando me acomodava na cadeira, sai-me literalmente, uma mulher por detrás do biombo e diz: – Você é a mãe da Caetana?
Percebi nesse momento que tenho que passar a andar com uma bandeirinha branca para enfrentar a tua adolescência.
Disse que sim, não havia hipótese de mentir, elas tinham nas mãos a minha documentação oficial, não dava para passar por Tia Irene.
A senhora ri-se e diz:
– Nunca nesta vida vamos esquecer a sua filha! Eu, as minhas colegas e toda a gente que teve com ela naquela fila, enquanto demorava 1 hora e meia a escolher a foto para o cartão.
Fiquei na dúvida se me devia desculpar, amenizar a imagem extravagante da loira, que insiste em não querer ver impressa num cartão oficial, uma imagem que não a traduz devidamente.
Pedi desculpa. Acrescentei: – Sabe, que sou fotógrafa, ela está habituada ao processo de selecção e edição das imagens.
A senhora continua: – O pai que vinha com ela, estava tão desesperado, que às tantas pisquei-lhe o olho, como quem diz, tenha paciência que isto já se resolve. A Caetana topou-me e diz-me com as mãos cruzadas sobre o peito: – Porque é que está a piscar o olho ao meu pai?
Ri-se, rio-me, rimo-nos e acrescenta: – Mas ela é mesmo muito bonita! Às tantas vira-se para o pai e diz: – Com tanta hora para vir tirar o cartão, porque é que viemos logo de madrugada quando estou cheia de olheiras? Ri-me, riu-se e rimo-nos de novo, encolhi os ombros, peguei no cartão e olhei a fotografia.
Responde a Senhora por detrás do biombo: – Essa nem está má! Mas havia lá melhores…
Imagino que sim. Mas melhor do que isto não há.
As minhas desculpas a todos os que sofreram com o atraso provocado pela minha loira e o meu sincero agradecimento à senhora do biombo, que diz que faz questão, que seja ela, daqui a 5 anos, a tratar-lhe da renovação.
Boa sorte!

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Teus critérios estéticos.

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Tiveste 1 hora e 20 minutos para tirares o cartão de cidadão.
Nesse tempo todo, tiraste 38 Fotografias que rejeitaste liminarmente, por não se encontrarem dentro dos teus critérios estéticos. Elevadíssimos, por sinal.
Foi difícil para a funcionária, perceber o cuidado com que te querias ver espelhada na tua documentação oficial, em vez da fotografia formatada de olhar estanque, “à bandido” como dizias tu.
Talvez fosse mais fácil, se ela soubesse que respiras fotografia e que depois das fotos que tiro, segue-se a selecção.
E que se seleccionam sempre as melhores. As que mais justiça fazem, a quem somos, como nos vemos e a quem nos damos a conhecer.
Mas podias não ter exagerado a seguir, utilizando o campo da assinatura para recriar o teu logotipo.
Simulando o teu “C” com o meu “S” dentro de um círculo fechado:) Enche-me de orgulho que transportes contigo as nossas referências, mas enche-me de pânico pensar que posso encontrar na fila da frente, alguém como tu:)))

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As pessoas avisam-nos.

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As pessoas avisam-nos.
Mas ninguém põe a cabeça nos carris para saber quando vem o próximo comboio.
E assim, quando ainda pagava no guichet a comprar o bilhete da 1ª carruagem da infância, olho para ti e vejo-te com um telemóvel na mão a perguntar à entrada de um restaurante:
– Aqui há wifi?
Sorrio meio parva. Sinto o cabelo toda a esvoaçar, ao mesmo tempo que o comboio avança sobre a linha.
Não tenho a cabeça no carris, mas tenho o coração a querer agarrar o vento:
– Aqui há amor. (fuck it)

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