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Recordar também é viver

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“Há uma ilha no Equador que é feita de verdes e de amarelos. É assim que começa a história de duas meninas que foram conhecer um sítio que virou lugar. Essas duas meninas eram irmãs e tinham 3 e 6 anos. Eram meninas de sorte porque já tinham ido viajar para o América do Sul, México, para as Caraíbas e para tantos outros sítios, onde existiam crianças e piscinas muito compridas, buffets gigantes e noites de musicais. Desta vez a mãe decidiu que as queria levar para longe dos resorts acéticos, dos ambientes protegidos, dos aglomerados de famílias, das pulseirinhas e do esparguete à bolonhesa. Queria um sítio diferente, onde a animação era construída ao compasso da vida serena, onde o relógio dos dias era o Sol e a Lua e as crianças construíam os seus próprios brinquedos. Um lugar onde a natureza fosse soberana, onde as estações se misturam e as ruas fervilham de pessoas. Um local onde o maior souvenir é o sorriso, e o íman que fica para colar no frigorífico é uma memória que dura para sempre(…).”
Um artigo que me deu um gozo enorme escrever, porque me permitiu lembrar. E sim, recordar também é viver <3. Embora faça mais o meu estilo fazer. https://issuu.com/…/do…/wondergo_junho_2016_85a76952066160/1

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“A Missa do artista”

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Sou empresária, digo artista, porque ajuda a amortecer a formalidade de tudo o que isso implica. Escrevo, fotografo e desenvolvo projectos em torno das coisas que mais gosto. Se calhar a artista vem disso, da sorte que tenho em capitalizar as minhas paixões, gerando rendimento.
Quando trabalhava por conta fazia menos contas, mas o meu tempo, nem meu se chamava. Era uma dádiva que nasceu comigo mas que entregava todos os dias a outros. Ganhava mais moeda, e tinha a segurança de que todos os meses, com variações imprecisas de alguns dias, lá estaria o meu salário. Dizem que nada aguça mais a criatividade que a falta de dinheiro. E assim, na qualidade de artista, acordo todos os dias, pronta a atestar o meu depósito de criatividade a favor da mais nobre das “sobrevivências”. Já há alguns anos que não sei o que é um ordenado, pelo menos o meu. Mas em troca aprendi tudo o que havia para saber sobre impostos. Qualquer artista que se preze, e sobretudo, que preze o lucro sobre o seu trabalho, terá que se tornar a curto prazo um gestor. Esta é talvez a conversão menos charmosa de quem decide empreender a favor de si mesmo. A contabilidade passa a ser uma religião obrigatória e diz um dos grandes mandamentos de um bom gestor, que a dar a missa deverá estar sempre um bom contabilista.
Mas regressemos à arte de ser artista. Porque, embora empresária soe mais distintivo, o que eu gosto mesmo é do arejo da palavra artista. Uma espécie de contrabandista de talentos suspeitos, que passa incólume à rotina da vida séria. Todos os meses faço contas mas tenho alguma dificuldade em colocar no enunciado da equação a variável: Tempo. É aqui que reside o meu capital acumulado, uma acção que os anos inflacionam e a minha maior fortuna. Tenho tempo. Tempo. E tempo não é só dinheiro.
Tempo é tempo. E não é a sua conversão em moeda que lhe dá um valor tangível.
O que lhe dá valor é um almoço prolongado na praia num dia sem rotinas, o sorriso das minhas crianças quando as rapto da escola numa 5ª feira à tarde, uma ida ao ginásio às 16h ou um dia passado a ler numa esplanada. E sim, à troca recebo laivos de ansiedade, noitadas prolongadas a café e fins-de-semana passados a trabalhar.
Mas quem trabalha por conta, conta o mesmo.
E no final da equação qual é a verdadeira arte da vida? O valor atingido de todas as coisas intangíveis que nos enchem.
E se Deus quiser prosseguirei artista.

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“leve-leve”

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Já li um livro e já comecei o segundo. Escrevo todos os dias e namoro com todas as páginas abertas. Já perdi a noção do tempo e quase que aposto que o tempo também se perdeu de mim.
O lema da ilha é o “leve-leve” mas dizem me os amigos locais que sou de “muita corrente” e “trifásica”.
A verdade é que me sinto tão calma, uma sombra doce daquilo que a cidade faz de mim.
Adivinho alguma dificuldade na integração, em calçar a galocha acelerada, nas idas e vindas ao colégio, no garante das refeições, nos fins de semana de arresto, de entreter crianças em dias de chuva e somar-lhe o apoio árduo aos TPC´s.
E só por este parágrafo, vou beber mais uma caipirinha para reforçar que ainda tenho mais 7 dias de “leve-leve” a camuflar na perfeição a minha doce corrente trifásica.

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É aqui que eu estou

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“Por momentos pensou esquivar-se por entre a transparência da água. Susteve a respiração e mergulhou inteira no quente da banheira. Debaixo de água olhou para cima, empurrou as gotas pesadas com a grossura das suas pestanas e viu tudo igual, tudo turvo, como via à superfície.” IS

É aqui que eu estou nas Casas do Côro em Marialva. Já aqui estive há oito anos quando a Camila ainda não era projecto e a Caetana tinha dois anos. Tenho boas recordações mas não foi delas que vim à procura. Vim ao encontro de mim. E é aqui que estou a escrever à boca da lareira grande, com o tinto sobre a mesa e os dedos em riste sobre o teclado. Claro que já me encheram com uma posta mirandesa, uma sopa de cebola gratinada com presunto, uma entrada de queijo da serra derretido com doce de pimento, uma salada de folhada de bacalhau e coentros e um bolo de chocolate quente com gelado de nata. Tenho uma poltrona de veludo a galar-me a digestão. Mas vou fingir que não sei quem é e prosseguir. A escrita dá me pica, o sono só me alimenta a esperança de um novo amanhã. Até já:)

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Na mesma posição do “Até já”.

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Disseste-me que ias comprar pão quente. E eu prometi-te 8000 caracteres do livro que estou a escrever. O monte fica longe da senhora que vende o pão. Mas o meu corpo está encostadinho à lareira acesa.
Aos bocadinhos começou a chover lá fora.
Estou na mesma posição do “Até já”.
Tenho o portátil sobre os joelhos e as labaredas a namorarem-me o corpo. Tenho um copo de tinto junto a mim e as teclas escuras pintadas com letras à minha frente.
Acho que não te vais importar, se te disser que me perdi entre o estalar da madeira e as gotas da chuva que lambiam as janelas.
Acho que vais perceber se te disser que o meu corpo cedeu ao escorrega do calor e as mãos afastaram-se, com cuidado, das teclas com que se constroem as palavras que prometi escrever.
Quando chegares vou estar na mesma posição do “Até já”.
Vais perguntar-me pelos caracteres, com o pão quente debaixo do braço. E se eu for esperta, como o calor da lareira acesa, vou te puxar para o conforto de mim para quebrarmos juntos as promessas que te fiz.

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Cartagena das Índias

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Ainda não tinha idade para ambicionar o Globo e já achava um delírio o nome da cidade “Cartagena das Índias*”, pronunciado de forma lenta e respeitosa. Imaginava uma terra mística, meio pirata, meio selvagem, lá longe num País mal afamado chamado Colômbia. Cartagena é muitíssimo turística e percebe-se bem porquê. Dentro das muralhas fortificadas abriga-se uma cidade colonial absolutamente encantadora. As portas de madeira grossa, as balustradas em madeira, as flores penduradas nas varandas a tentarem tocar as ruas, as carruagens de cavalo à turista (com aquele som fabuloso do casco sobre o chão de pedra), recantos para comer e beber tão acolhedores como casas abertas à rua, uma temperatura constante de 30 Graus e em cada esquina um cantar crioulo.
A cidade é cara, aproveita-se da concentração turística e faz dobrar os preços de Bogotá. Para quem dá valor à beleza das coisas, a verdade é que tem restaurantes saídos da Casa Décor, apetece reservar 3xs almoço e 4xs jantar. Confesso-me cansada dos sabores típicos da Colômbia, faz-me falta o paladar mediterrâneo, por isso, assim que posso e à falta de uma tasca portuguesa, vamos a um italiano do lado dar-lhe na focaccia impregnada de azeite, tomate e sal grosso. Amanhã seguimos para Medellin, terra famosa pela morado do Cartel de Pablo Escobar mas posso assegurar que Cartagena se ergueu acima dos meus sonhos de criança. Será um prazer se a vida me der uma oportunidade de aqui voltar:)
*O centro histórico de Cartagena, conhecido como a cidade fortificada, foi declarado Património Nacional da Colômbia, em 1959, e Património da Humanidade pela Unesco, em 1984.

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Tão desconcertante como o teu feitio

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Estavas muito concentrada na mesa do teu quarto…
Há demasiado tempo para ser fruto de uma inspiração para o Estudo ou um ataque súbito de consciência para com o Conhecimento.
Aproximei-me, espreitei por cima do teu ombro e vi que estavas a escrever numa tabela. Mas como tens uma letra tão desconcertante como o teu feitio, não lhe consegui adivinhar o significado nos caracteres.
Perguntei-te o que era. Viraste-te para mim e com o ar mais sereno do mundo, disseste-me que era uma tabela comparativa.
Apontando-me explicaste:
Na coluna do X os nomes dos rapazes, na coluna do Y os pontos a favor e os pontos contra cada um dos rapazes. Devo ter feito um ar estranho, mas não tão estranho, que achasses que quando era catraia era diferente de ti, porque quando te viraste para concluir o exercício disseste:
– Ó mãe, não me digas que nunca fizeste este exercício?
(se ela imaginasse os dissabores que me teria poupado uma inteligência lógico-matemática sobre um coração poético)
Respondi:
– Ainda faço minha filha. Faço sempre que é preciso:)

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“Quando eu for mãe”

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As minhas filhas têm diferentes opiniões sobre a maternidade. Entenda-se com isto que não me refiro à forma como as educo ou às questões motivacionais ou emocionais, que estiveram por de trás da sua origem, inquestionável, por razões eco-sistémicas de sobrevivência em família:)
Até porque posso assegurar que o Amor próprio cá por casa, supera o próprio Amor.
Quando falamos de maternidade e são mais elas que eu, é sempre sobre os filhos que elas desejam muito que eu tenha, e os filhos que elas um dia vão ter.
Quando se põe a fantasiar sobre os irmãozinhos e as maninhas usam grandes folhas A4, onde escrevem, em forma de tabela, os nomes dos meus futuros filhos. Partindo sempre do pressuposto generoso de que são gémeos.
A Caetana fala muitas vezes “quando eu for mãe” isto, “quando eu for mãe” aquilo. Imagina a casa, a dinâmica, o marido, as faces das crianças, os nomes, e quando está mesmo muito inspirada, fantasia-lhes o carácter e faz simulações in loco do que seriam as suas reacções às birras, pedidos ou questões, que os seus filhos, com inteligência suprema teriam para lhe colocar.
A Camila por outro lado, que reconhece o seu estatuto de criança, filha e mimada, nutre um profundo temor e respeito por esta santíssima trindade, afirma desde sempre, que não quer ser mãe ou ter filhos de qualquer espécie. É peremptória nesta conversa e não admite qualquer excepção, marketing ou diálogo em torno das virtudes de ser mãe.
Quando lhe pergunto Porque é que não quer ser mãe?
(Sem qualquer objecção à decisão, que entendo, faz parte do uso fabuloso de ser uma mulher livre).
Ela responde-me: – Dá muito trabalho.
Andava eu com medo de a traumatizar como mãe, quando ela já o antecipa no exercício de ser filha.
Toma lá sangue do meu sangue, é para aprenderes:)

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Não vivo sem…

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Não vivo sem tempo.
O tempo que vive acima dos ponteiros do relógio, aquela medida unitária que faz parelha com o destino que me compete cumprir.
O tempo dos meus sonhos, das palavras encavalitadas no bico da minha caneta, das imagens que projecto na lente para as minhas memórias futuras.
Não vivo sem sentir o vento a empurrar-me contra os obstáculos de que me faço vida.
Não vivo sem amor desprendido, sem abraços apertados, sem poder dizer aos que gosto o quanto me fazem falta e sem sentir a falta que me fazem os que gosto.
Não vivo sem o desembaraço primário de achar que a vida é uma aventura mascarada de rotina.
Não vivo sem Liberdade, a mesma que dá prazer ao pé descalço, a mesma com que vejo de mãos dadas o tempo fluir, a mesma que me acorda em sobressalto para me lembrar que posso ser tudo.
A liberdade que me engasga os deveres e me acorda os sentidos para todos os momentos de prazer.
Não vivo sem o presente, aquele que é o agora sem a culpa do que poderia ter sido, e sem os complexos de tudo o que já foi.
Não vivo sem canetas, blocos, máquinas, bonés e as bugigangas que se estendem sobre os meus membros com a aspiração de serem tentáculos de mim.
Não vivo sem o colo do copo de vinho onde naufrago a minha poesia, nas noites em que sonho ser escritor. Nem sem os livros que me amarram a 1000 vidas que não conheci.
Não vivo sem música, sem a pauta curvilínea dos acórdãos que fazem banda sonora onde me encontro, onde vou, onde sonho e onde me faço pessoa.
E não vivo sem viagens, aquelas que vão ao fundo de nós, dos outros e do mundo.
Não vivo sem pessoas, os cofres máximos de inspiração, transpiração, fontes com a mácula máxima da vida, cortesãos da minhas letras.
E não vivo sem gargalhadas porque são o compasso mais saudável de existir.

*Enquanto embaixadora da RVCA e a convite da Ericeira Surf & Skate lançarem-me o desafio de escrever sobre o tema “Não vivo sem” ‪#‎naovivosem‬ e traduzi-lo numa fotografia. Falta o presunto:)

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Consegui resgatar à vida, tudo o que lhe é Essência

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Uma das boas coisas que fiz estes dias foi reler algumas das entrevistas do Lobo Antunes. Conheço poucas pessoas, cujas entrevistas sejam pautadas por frases tão balísticas. Sem qualquer pretensão de citação, ficam-me na memória como os melhores paladares da vida. Na última entrevista de Lobo Antunes à Visão, o título escolhido foi uma dessas frases, que pronunciada à laia de conversa, é suficientemente paralisante para levar o jornalista a afiar o lápis na sua própria mandíbula.

“Não tenho jeito para viver.” ALA

E quando se diz uma frase destas, para lá de toda a psicologia subjacente…a verdade é que não se devia ser obrigado a dizer mais coisa nenhuma. Não sei se é só a mim que me comove, mas sou capaz de passar horas a lamber uma frase. Imagino que há frases que só podem ser pronunciadas com significância, por dois tipos de pessoas, as muitos simples, e as altamente complexas. Não acredito na classe média de algumas frases.
Acredito sim, que podia ir ao café na aldeia de Lameiros em São Luís, e ouvir o Ti Manel a dizer, enquanto puxa à cadeira: – Não tenho jeito para viver. E depois imagino, uma alma forjada em vida, uma mente irrequieta, uma inteligência dilacerante, numa voz seca e enfastiada pronunciando: – Não tenho jeito para viver!

Perdoem-me os medianos que não se acusam, mas sonho viver para pronunciar frases assim. Não no contexto de uma entrevista, mas no mais banal contexto da vida. E hei-de fazê-lo, sem qualquer necessidade de imortalizar a frase, lápis ou caderno. Vou dizê-las com a mesma displicente autoridade, do António Lobo Antunes e do Ti Manel. Terei nesse instante pronunciado, a mais suculenta certeza, que consegui resgatar à vida, tudo o que lhe é Essência.

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