Blog Archives

ESTADOS DE ALMA

13528108_1436764503015849_886132203336153796_o

As loiras continuam no campo de férias a milhas de Lisboa, felizes da vida, a fazerem frete bom para virem ao telefone dizer à mãe o quanto se estão a divertir.
A mãe também não está nada mal, verdade seja dita.
Com tempinho bom para ir ao ginásio a horas malcriadas, escapadelas de praia, jantares prolongados, sapatos na sala, cinzeiros no escritório, livros nas cadeiras da cozinha e copitos de pé alto em filinha indiana na bancada. As pessoas perguntam-me se me estou a aguentar, eu respondo que estou a VIVER.
Deixei-as bem entregues, radiantes com a ideia de passarem duas semanas no meio da montanha, com roupa coçada dos verões passados, ténis usados, sacos cama e lanternas. Já tive a mesma idade e a mesma vontade. Tinha uma mãe bastante menos liberal, bastante mais protectora. E apesar de sermos 4 irmãs, um colectivo tipo gangue, fazia lhe alguma aflição a distância, esse caminho menos percorrido, por quem teme o que não conhece.
Uma vez numa entrevista perguntaram-me se ao educar as minhas filhas, me lembrava da educação que a minha mãe me tinha dado, e se o que fazia vinha em continuidade, ou por “boa” rebeldia” em contraste. Nunca tinha pensado a fundo nisso, confesso.
Sou mãe por intuição, sigo as indicações do meu coração e tenho uma certa fé, em acreditar, que o meu bom senso e a chata da minha mãe, tiveram o seu contributo na minha forma de estar e de ser, mesmo no capitulo por vezes nebuloso da maternidade. A vida dar-me à as respostas e eu farei, como tenho feito até agora, os devidos ajustes. Uma coisa é certa, passaram 72 horas de campo de férias e ambas sentimos o mesmo. <3

Comentar

Família ADAMS

13062877_1376717932353840_951463516392298326_o
Sou uma mãe porreira. Disso, tenho a certeza.
Levo ao expoente máximo a arte de ser criança. Em minha casa permite-se o eco agudo das expressões mais dramáticas.
Com a minha mãe não era assim, cinco filhos em casa, individualidades homogeneizadas e pais tranquilos.
Arrebiques de carácter e nuances de extroversão eram passados a ferro de educação. Havia fases para todos mas o colectivo não podia ser ameaçado com o despontar de uma rebeldia singular.
Quis contrariar o modelo e não faço ideia do ónus do resultado. Se querem maquilhar-se partilho as minhas tintas, se querem desfilar, empresto as minhas roupas, se pedem para cozinhar, vamos para a cozinha. Da sala faz se palco de teatro, do corredor passadeira, da cama trampolim. A verdade é que ser mãe assim me dá uma sensação apaziguadora de vingança tardia sobre o reinado dos meus pais. E também é assim que me via a ser mãe.
Preservo o meu espaço mental quando o sono lhes dá carinho, mas até lá é tudo nosso, quando elas estão, para usufruto colectivo.
Aqui há dois anos a Caetana decidiu que queria ser gótica, tinha apenas 8 anos e a única peça do armário preta era o maillot de ballet. Condescendi, lembrada que o acto de contrariedade degenera normalmente numa obsessão pelo tema. Tive sorte, o maillot não dá jeito para ir à casa de banho e em duas semanas cansou-se do exotismo. Agora tem 10 e decidiu que queria ser gótica novamente. Já tem umas quantas peças negras no armário e sabe que o meu está cheio delas.
Adoptei a mesma estratégia…mas ao gosto pela vestimenta preta, soma-se agora uma paixão por literatura das trevas e uma obsessão por temas como o holocausto e os terramotos. Não sei se não preferia quando tinha que levar com a histeria da Violeta em todas as interfaces de som. Confesso que acho mais assustador vê-la a googlar (vigiada) o retrato do Hitler e o museu da Anne Frank. Até na mochila da escola encontrei um livro de poemas do Edgar Alan Poe em inglês resgatado à minha estante.
A Camila que atesta a sua individualidade permanentemente, já começou a ter sonhos com refugiados e hoje pediu-me para ir de cinza escuro para a escola (pantone a pantone vai ficando gótica).
…e quando até a poesia assusta, fico na dúvida, se a contrariedade não devia ter tido lugar ou se também me vista de preto:)*

P.S.: *Também tive a minha fase gótica. E permaneceu a poesia

Comentar

“SER ALGUÉM”

12640447_1303420099683624_180566366882591982_o

Ainda há muitos pais que se dirigem aos filhos utilizando a vulgarizada expressão: “Assim não vais ser ninguém na vida”.
E o que é mesmo ser alguém na vida?
Eliminando a hipótese mais romântica, que “o ser alguém na vida”, seria o “ser a vida de alguém”, o que é que nos resta?
O desempenho de uma séria de profissões socialmente aceites?
Uma educação colegial pautada por “Muitos Bons”, medalhas de mérito, aluno de quadro de honra, campeão das olimpíadas de matemática ou o vencedor do torneio europeu das composições?
Um advogado numa sociedade de renome, um engenheiro com um MBA a liderar uma multinacional ou um cientista bolseiro premiado nos EUA?
Sem desprimor para todo o brio que estes “seres de alguém” serão, e o consequente orgulho paterno-ó-maternal que o depósito frutuoso da nossa educação gera, não é nisto que penso quando desejo muito, que as minhas filhas, não sejam alguém, sejam apenas elas mesmas.
No limite, isto até pode parecer de um romantismo extremo, quase utópico, tipo frase de Instagram. Mas quando acresci ao ser mulher, o ser mãe, a única certeza que tinha era de que não queria impor modelos de sucesso às minhas filhas, que não queria viver obcecada com o “acima da média”, e que não queria repreende-las com advérbios de comparação ou classifica-las num ranking.
Não seria honesta, senão dissesse que me daria, tanto mais jeito que orgulho, que concluíssem o ensino obrigatório sem uma escolta de explicadores. Que me era muito conveniente que os seus hábitos de estudo contemplassem a auto-suficiência e o silêncio, e que adorava ser convocada à escola para ser agraciada apenas pela minha boa genética. Mas o que eu quero para elas, é mais ou menos o que sonhei para mim, que estivessem atentos às minhas capacidades, que me ajudassem a vencer os meus medos e que me aproximassem o mais possível das coisas que me faziam feliz.
E é isso que eu vou fazer com elas.
Dar-lhes as circunstâncias que as potenciem para lá da academia do saber. Dar-lhes todo o mundo que puder na minha disciplina do Estudo do meio. Aproxima-las do português da generosidade, do elogio, da motivação e do perdão. Vou tentar que vejam na matemática da vida a melhor equação, para que os seus denominadores comuns alcancem o melhor dos resultados.
Vou querer que vejam no céu estrelado do monte e nos pés descalços, a ciência mais pura do amor à terra em que vivem, e vou dar-lhes estradas, caminhos, terras e atalhos para explorarem os limites da sua educação física.
Tudo o resto eu deixo para a Escola formal.
Reservo-me o cuidado de regar à noite os sonhos.
Aqueles sonhos em que acredito.
Os que não nos acordam à noite no sobressalto do “sermos alguém”.

Comentar

DUAS METADES INTEIRAS

Duas-Metades-Inteiras

Cresci numa casa de mulheres, parca em vestígios masculinos, excepção feita à figura mais proeminente da minha infância, o meu avô. A minha avó tinha duas irmãs, a minha mãe, a mesma justa equação. E nós éramos quatro. Debaixo do mesmo tecto, todas as hormonas, diferentes gerações em confluência.

Cresci a ver cabelos a serem penteados, vestidos nos estendais, mãos com anéis, livros de receitas abertos sobre as bancadas, músicas ouvidas em desatino, choros sofridos no vai e vem da paixão. Saturada do universo matriarcal, jurei a mim mesma quando ainda era adolescente, que se exercesse a maternidade, seria mãe de um homem. Não quis o destino quebrar a corrente e, sem ser tida nem achada, fui mãe de duas Marias.

Hoje rio-me com ternura desses tempos de criança. Nunca fui Maria Rapaz, não era o cor-de-rosa em atrofio que ansiava pela gestação de um macho, não era o histerismo pontual que me atirava para a conquista de um espaço mais azul, não era a falta de amor que pedia ao meu universo que se pontuasse com alguma masculinidade. Era a sensação pragmática de que havia um hemisfério a precisar da versão mais simples do ser mulher. Era um excesso de rímel traçado sobre as decisões, era muito salto alto, quando a vida pedia pé no chão.

Com distância, consigo agora perceber como me fiz mulher entre as mulheres. E como a confluência exagerada do meu universo permitiu que percebesse a importância do meu percurso na educação das minhas filhas. Hoje, sei-o na pele, a mesma onde sofri os embates, que ser mãe de uma rapariga é uma missão. E não o escrevo apenas por estímulo feminista, escrevo-o, porque demorei-me a adorar ser mulher. E criei as minhas filhas para que adorassem desde o primeiro dia. Queria que sorvessem, tudo o que era incrivelmente belo e singular no ser no feminino. Quis que nunca atribuíssem o monopólio das qualidades da força e da aventura ao ser no masculino. Quis que fossem coesas, duas partes completas, duas metades inteiras.

Dei-lhes os recursos, os atilhos, os folhos e o romance, mas descalcei-lhes os pés e o feitio, para que tocassem na terra de palmo inteiro e desbravassem sem medo o que não lhes era conhecido. Quis muito que respeitassem o corpo, sem o temer, que o sentissem sem vergonha ou escrúpulo antecipado, queria que a vergonha surgisse apenas quando o erro é flagrante e nunca adiante. Não quis masculinizar a culpa, nem criar ditadoras de um mundo de fantasia. São duas bonecas, pensei. Quero apenas que sejam rijas.

O futuro dir-me-á se lhes armadilhei o caminho ou se fui uma boa ceifeira, de uma colheita coesa, de duas metades inteiras.

Comentar

Sei bem, como as educo e deseduco.

11751446_1179994295359539_8683734547025248404_n

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sei bem, como as educo e deseduco.

E recolho o troco todos os dias, embora nem sempre, na justa medida do que lá colocámos em Amor. Mas isso eu também já sabia, porque antes de ser mãe eu já fui filha (da mãe).
Às vezes penso que as solto em demasia.
Sei que confio no mundo que me confiaram, e tenho a estranha sensação, que a sorte com que trabalhei, se estende como uma apólice de seguro sobre as minhas loiras.
Já tentei ser mais como achava, mas fala mais alto, tudo o que já sou. Não, não consigo prendê-las mais a mim.
Não consigo, não ceder à tentação de as ver dobrar seguras as esquinas, a atravessar confiantes os caminhos, a desenharem diálogos com as pessoas. E mais, não consigo ter medo de ser assim. Não consigo simular insónias com perigos e assombros. Não consigo pôr o coração ao batimento do pânico, de tudo o que pode ser, sobre tudo o que ainda não é.
E elas já são isso também:
A confiança em excesso, o medo que não se entranha, o sorriso preliminar e o passo acelerado para não perder pitada da vida.
E se há dias que sinto o “cagaço” de tudo o que arrisco, a maioria das vezes sinto a sorte de tudo o que recebo.
(Devo ter feito um Seguro do caraças!)

Comentar

“Quando eu for mãe”

IMG_0692_6264

As minhas filhas têm diferentes opiniões sobre a maternidade. Entenda-se com isto que não me refiro à forma como as educo ou às questões motivacionais ou emocionais, que estiveram por de trás da sua origem, inquestionável, por razões eco-sistémicas de sobrevivência em família:)
Até porque posso assegurar que o Amor próprio cá por casa, supera o próprio Amor.
Quando falamos de maternidade e são mais elas que eu, é sempre sobre os filhos que elas desejam muito que eu tenha, e os filhos que elas um dia vão ter.
Quando se põe a fantasiar sobre os irmãozinhos e as maninhas usam grandes folhas A4, onde escrevem, em forma de tabela, os nomes dos meus futuros filhos. Partindo sempre do pressuposto generoso de que são gémeos.
A Caetana fala muitas vezes “quando eu for mãe” isto, “quando eu for mãe” aquilo. Imagina a casa, a dinâmica, o marido, as faces das crianças, os nomes, e quando está mesmo muito inspirada, fantasia-lhes o carácter e faz simulações in loco do que seriam as suas reacções às birras, pedidos ou questões, que os seus filhos, com inteligência suprema teriam para lhe colocar.
A Camila por outro lado, que reconhece o seu estatuto de criança, filha e mimada, nutre um profundo temor e respeito por esta santíssima trindade, afirma desde sempre, que não quer ser mãe ou ter filhos de qualquer espécie. É peremptória nesta conversa e não admite qualquer excepção, marketing ou diálogo em torno das virtudes de ser mãe.
Quando lhe pergunto Porque é que não quer ser mãe?
(Sem qualquer objecção à decisão, que entendo, faz parte do uso fabuloso de ser uma mulher livre).
Ela responde-me: – Dá muito trabalho.
Andava eu com medo de a traumatizar como mãe, quando ela já o antecipa no exercício de ser filha.
Toma lá sangue do meu sangue, é para aprenderes:)

Comentar

Liberdade não filtrada

YE2A1177

Gosto muito da liberdade não filtrada que existe no diálogo de uma criança. Não fosse a minha linguagem, tão extrovertida, como o meu carácter, e tenho a certeza que lhes ficaria a galar as palavras soltas, no soslaio calado dos impulsos contidos. Mas cá em casa, usa-se e abusa-se da palavra solta, mais que à solta, mesmo. Isto tem o custo intimidatório da cerimónia, a perversão de alguns princípios básicos de educação que tento implementar e alguma moléstia pontual no convívio social entre conhecidos, mas à parte disso é tudo saúde. Portanto, não se reprime, repreende-se apenas quando é caso disso. Isto porque sei, que no interior desta selva de sentidos ao desmazelo e de acne gramatical há uma franqueza tão doce quanto crua, que faz com que os preliminares do meu “xiu” sejam uns largos segundos de prazer.
E ontem na cozinha, à hora louca do jantar das crias, fui chamada pela voz rouca da Camila.
– Mãe, Mãe! Mãe!
– Simmmmmmmm! Camila!
– Mãe! Mãe! Mãe! Olhe para o Pedro.
(O Pedro é o namorado da Isabel:))
– Diz Camila, o que é ?! Estou a olhar!
– Mãe! Mãe! Mãe! Olhe para o Pedro.
– Sim Camila, estou a olhar para o Pedro.
– Olhe Mãe, olhe bem!!!
– O que é que ele tem?
– Tem tudo.

Comentar

Um canino vale o mesmo que um molar

IMG_0152

Tenho a sorte, muito trabalhada por ambos, de ter uma relação para lá de boa com o pai das minhas loiras.
Mas Custódia partilhada, é custódia partilhada. E ainda que falemos quase diariamente sobre os mais diferentes aspectos da educação das miúdas, há sempre situações imprevistas que nos escapam. E outras tantas, que parecem tão ridiculamente pequeninas que nem perdemos tempo a falar delas.
A fada dos dentes foi um desses assuntos. Espertas, as loiras garantem que os dentes que caiem em casa do pai valem 10 €, contra os 2€ por dente que se praticam cá em casa, independentemente da sua posição na boca. Um canino vale o mesmo que um molar. Assimilada esta realidade, percebo agora que a fada dos dentes do meu lar está em situação de precariedade, enquanto há uma fada e duas loiras sortudas que florescem lá para os lados do pai.
E também consigo estabelecer alguma relação causa-efeito, quando realizo, que de todos os dentes que as minhas filhas têm na boca, só dois é que caíram cá em casa. O mais engraçado é que quando a Caetana me liga toda contente para me dizer, que lhe tinha caído mais um dente (agora percebo o histerismo das minhas crias com a arqueologia da dentição) a Camila berrava qualquer coisa lá atrás.
Nisto, a Caetana dá um berro – Desaparece!!! Estou a falar com mãe ao telefone!
Contente e/por Incapaz de exercer qualquer reprimenda educativa à distância, pergunto-lhe o que é que a Camila tanto grita.
Responde a Caetana furiosa: – Ela é parva mãe!
Está a dizer que eu arranco os dentes só para ganhar dinheiro!
Esperemos bem que não.

Comentar