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AS PESSOAS PERGUNTAM. EU EXPLICO.

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Vou para África do Sul ter com o Pai das minhas filhas. Um homem que adoro e admiro.
O nosso casamento não durou para sempre, mas conseguimos criar vínculos que nos vão ser eternos, duas filhas fantásticas e uma amizade enorme.
Mesmo algumas pessoas que me conhecem bem, perguntam-me como é que o meu namorado reage, sabendo que vou passar férias com o meu ex-marido.
Pois é.
Primeiro, a correcção semântica necessária: O Gonçalo, antes de ser meu ex-marido já era o pai das minhas filhas.
E quando deixámos o epíteto formal de marido e mulher, não perdemos o de amigo e de amiga. Eu sei que é menos usual, que a formalidade, a disputa, o conflito e a secura. Mas não consigo, mesmo que tentasse muito, ser assim.
Temos demasiado em comum, para deixar que os erros episódicos de uma relação amorosa se sobreponham a existência das nossas filhas. E não me passa pela cabeça, pelo coração e pela vida que levo, falar-lhe que não seja com um sorriso, saber se a vida lhe sorri, e pensar que enquanto for sorrindo, mais capaz será de amar o que é nosso.
Farei sempre tudo o que tiver ao meu alcance para que a vida lhe sorria. Isso não significa reatar a relação. Significa saber construir sobre a relação. Por isso, quando me perguntam como reage o Pedro, eu respondo que o Pedro é um homem à séria. E se o Pedro não soubesse a mulher que tem, a mulher que ama e a mulher que quer. E se não me quisesse assim, então não era o homem certo para mim.
Não tenho qualquer ambição de fazer da minha história um exemplo, o planeta está cheio de amantes eternos e felizes. Gostava sim que a cabeça e o coração de algumas pessoas, se esvaziasse, para se puder encher outra vez.
E gostava que as pessoas, experimentassem escolher o açúcar ao amargo e que o Detox nunca entrasse nas emoções boas da vida.
Nem todas as histórias têm fins perfeitos, mas isso não significa que não sejamos felizes para sempre.
Não tive grande sorte com o meu pai, mas esmerei-me nos homens que escolhi para a minha vida.
E eles sabem exactamente quem são:)

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Os Filhos dos Outros

Os filhos dos outros
Quando casei tinha a honestidade dos sonhos de uma relação eterna.
Tinha por nobre intenção a criação das minhas filhas no seio de uma família inteira que iria inteira até ao fim. Se estava pouco preparada para uma separação, ainda mais estaria para tudo o que vem a seguir. Uma nova construção, uma nova família. 
Perdi muito pouco quando me separei. Cultivei uma amizade tão boa com o pai das minhas filhas que ainda hoje estrutura tudo o que temos.
E as minhas filhas?
As minhas filhas são minhas.
Nunca foi difícil amá-las mesmo quando a equação da liberdade me subtraiu. São minhas e serão minhas até ao fim. Mas já sou menina crescida. Era normal que me reinventasse, que voltasse a amar e que voltasse a sonhar com uma família. Mas nesse mesmo mundo, ao mesmo tempo e na mesma época, alguém que me era destinado a afeição, encontrava nas mesmas circunstâncias, as mesmas batalhas e os mesmos fins. Não brifei o criador com o meu “wanted man”. A vida não se dá a esses luxos. Acontece o que acontece. E de repente, estamos frente a frente com alguém que traz no cabaz da vida a mesma doce criação. 
Eu tenho filhos, os meus. Tu tens filhos, os teus. 
Ainda pensei que talvez fosse mais fácil estabelecer uma relação com alguém que não tivesse descendência, disponível para amar o que era meu. 
É egoísta, sim, realista também. Mas não foi assim.
De repente, a somar ao amor às tuas filhas, vês-te arranjar espaço para acomodar o amor pelos filhos do outro, que é teu também. Vês-te a dividir, a rachar, a arranjar tempo e circunstância, para que essas crianças que nunca existiram na tua vida, até esse momento, façam parte dela.
Sentes-te mal, porque em consciência não o querias, não o desejavas, e no ímpeto mais cruel e honesto, talvez não deixasses, se a vida te permitisse ser déspota sobre o que te dá.
Mas é o que tens. Na tua vida encaixam-se os filhos do outro, esse outro que a vida não permitiu que atalhasses a tempo de o impedir de ter filhos com outra, que os ama também.
É difícil. Mesmo no coração escancarado de uma mãe, abrir com a mesma força com que se abraça o que é nosso e desejado por nós, abraçar o que veio, sem desejo ou vontade nossa.
O coração é um órgão que ama, mas é um órgão que bomba. É elástico mas falível, e parte de um corpo humano. Não dá para lhe exigir tudo de uma só vez.
Não dá para o amarrar à culpa de não ser o primeiro a render-se à novidade. 
E não é só porque se é mãe, que se é capaz de acolher qualquer cria com a mesma santidade de uma irmã de Calcutá.
A primeira culpa a morrer é a de sentir.
Talvez o único segredo na ampliação desse amor que já tens ao que é teu, é a percepção da importância que esse acolher tem para a pessoa com quem estás e para as crianças que acolhes. 
Ninguém se importará que não enchas as suas caras de beijos com a mesma sofreguidão com que lambes os teus filhos. Bastar-lhe-ás apenas a atenção de quem recebe com carinho o que o outro ama.
Os filhos dos outros não serão teus filhos. A não ser que a circunstância da vida os faça tão presentes que o passado se ajuste como uma história sobre a tua.
E não interessa sofrer pelo que idealmente seria, porque a realidade é implacável sobre o que é.
E o único mal que fazes quando sonhas com o que não tens, é o de desaprender a amar o que já tinhas.

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O QUE APRENDI COM O HOMEM QUE CHAMEI DE PAI

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Estou há mais de uma hora no Aeroporto regional de Medellin à espera que as condições meteorológicas libertem o voo. Foram aqueles dois segundos generosos que pedi ao criador, para ter tempo útil de descarregar fotografias, pôr me a par das notícias, levantar dinheiro, mandar mensagens aos amigos, escrever e sentar o rabo irrequieto por uns momentos. Aqui onde estou há muito burburinho à medida que os voos vão sendo cancelados e adiados.
Entretanto já organizei as 1.800 fotografias que tirei até agora para prosseguir animadamente com a minha reportagem da Colômbia.
Quero contar tanto, de tudo o que já vi e vivi aqui, que às vezes engasgo entre a escolha das melhores fotografias e das palavras certas.
Hoje é Dia do pai já pus o meu post tributo pela voz das loiras. Mas acho que posso acrescentar mais qualquer coisa a um tópico que me é sensível. Não tive a sorte de ter um bom pai, pensando de forma razoável, acho que não cheguei sequer à sorte de o ter.
Os rasgos da pouca convivência familiar não deixaram sobras para amaciar a saudade. Se fosse dada ao lamento sofreria com a ausência do que não tive. Sou sincera, invejo cada post de tributo que li hoje, cada fotografia queimada pelo tempo que vejo, cada palavra sentida que escrevem. Não tenho, nunca tive e nunca terei essa sorte. A vida deu me um avô que sublimou o afecto que a minha história não quis desenhar na figura de um pai.
Talvez por isso fui sempre tão cuidadosa na relação que sonho para as minhas filhas, no afecto que lhes desejo, na admiração, na candura, na referência, no afecto, na presença e na educação do pai, o pai que têm a sorte continuada de ter.
Talvez também por isso, tenha tido o cuidado de minimizar o ego e de dar asas à maior aprendizagem de generosidade do meu carácter, para que mesmo separados fossemos sempre amigos.
E um pai amigo da mãe é sempre um pai melhor.
E a prova é me confirmada por elas todos os dias.
Não sou mestra de coisa nenhuma, mas se pudesse, não deixava que nenhum ser se fizesse adulto, sem a capacidade de se suplantar a si mesmo, aos seus erros e rancores, possibilitando que a pessoa com quem um dia desejamos o melhor fruto comum, possa ter todas as ferramentas que precisa para lhes edificar o melhor dos castelos.
Hoje não posso pôr um desses textos que invejo, nem socorrer as boas memórias com uma fotografia queimada. Mas se calhar hoje, também já não lamento o que não tive, só porque a vida me foi ensinando a ver tudo o que já tenho.

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Ou vai ou racha

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Não fotografo muitos casamentos.

Nem tenho forma possível, de garantir que os que fotografo duram até ao fim. Sei que se pudesse, incluía no Pack dos serviços um voucher para a eternidade.

Gosto de pensar, falar e escrever sobre o Amor, mas é difícil adjectivar uma palavra, que se auto-define de forma tão hermética, que cada um tem a liberdade certa, de o sentir à sua maneira, sem que esta nunca perca o direito de se chamar assim, Amor.

Hoje num almoço com um grande amigo, trocávamos opiniões sobre o divórcio. O divórcio não vive nos antípodas do amor, mas por norma acontece quando alguém deixa de amar, embora a sequência de acções que o desencadeiam, seja muitas vezes, de índole menos nobre, que a pura escassez do sentimento. Quer eu, quer o meu amigo, somos filhos honrosos da triste estatística. Cada um com a sua valsa, cada um com a sua história, cada um dono da sua narrativa, maestro ou orquestrante do seu fim.

Não se perdoa uma vida sem amor, por isso é tão fácil de encetar uma conversa sobre um relacionamento, copulando-a convenientemente à drenagem do sentimento.

Sou uma liberal, serei sempre uma liberal, no sentido mais moralmente lato da definição. A que permite que o ser humano seja senhor do seu destino, da sua liberdade e da pureza das suas opções, mesmo que algumas sejam inconvenientes à conveniente felicidade dos outros.

Não sei qual é o recheio do amor, tenho sempre medo de o partir, mas tenho a certeza que há um inquilino gigante que vive lá dentro, a Verdade. E mesmo quando a verdade dói, ela é sempre merecida, nem que seja apenas, porque é pura e limpa, como o amor que move os homens, que se movem pelas melhores razões.

Hoje ao almoço, liamos numa estatística da Pordata (INE-DGPJ/MJ) que em 1960, 1% em cada 100 casamentos acabava em divórcio, e que em 2013 esta percentagem disparou para 70,4%.

Com alguma ingenuidade poderia acreditar, que isto só aconteceu porque as pessoas são mais verdadeiras, mas a vida já me lavou os olhos.

Também não acredito na voz monocórdica, do arauto da desgraça, que apregoa o síndrome do egoísmo, os vícios da sociedade moderna e as tentações da era digital. Acho que nunca saberei bem porque é que o amor acaba. Mas é sempre uma morte que me entristece.

Porque é que há casais que se enroscam no enlace narrativo da vida, até velhinhos? E outros, que se desenroscam na primeira curva apertada da vida? O que sei, é que cada vez que vejo dois velhos apaixonados, invejo-os. Mesmo ignorando, que se conheceram numa excursão ao Machu Pichu no verão passado.

O amor não é uma opção, é um sentimento. Não se faz download, nem upload de novas versões. Nem se desinstala, só porque se quer. Ele vem quando quer, e parece que parte da mesma maneira.

E se às vezes não parte, acho que é porque a vida deu a esses sortudos, o engenho do melhor nó da vida, o mesmo com que se amarra uma mãe a um filho.

Um dia, também vou ser uma velhinha agarrada ao meu velho. Também eu, farei as delícias da juventude em turismo, na digestão de um almoço angustiante.

E nessa altura, o peso leve do meu corpo envelhecido, não vai sentir o peso profético da estatística.

Serei só eu e tu, na “insustentável leveza do ser”, com um recheio de verdade, e um nó feito para a eternidade.

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