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Um dia destes mudo-me novamente.

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Um dia destes mudo-me novamente.
Sinto saudades da Baixa e do rio.
Perdi-me de Alfama.
Onde acordo agora, chego a todo o lado, mas não vejo o rio.
Não vejo os barcos atracados, os navios a rasgar estrada, nem consigo que os olhos abracem a outra margem de mim.
Onde vivo, há muitas artérias e caminhos mas poucos lugares.
As pessoas têm pressas, até delas mesmas.
Onde habito, há demasiados escritórios e consultórios. Tenho um elevador que nos leva, mas poucas coisas há que me elevam.
Perdi-me de Alfama.
Onde as deito a noite cai deserta. Não há almas a passear nas ruas, nem namoricos sob a luz embaciada dos candeeiros.
Nem o canto rouco do bêbado conhecido.
Onde vivo há supermercados, farmácias e correios.
Mas ninguém nos conhece os gostos, as dores e as moradas.
Onde vivo se ficar doente, desço ao primeiro andar. Mas tenho a ingratidão das saudades, a chorar por uma constipação a olhar o rio.
Onde moro é tudo muito engomado. Tão contrário ao desapego de ti. Um dia destes mudo-me novamente.
Só porque tenho saudades do encosto entre as pessoas, das conversas de rua e de mim, ali.
Talvez me tenha perdido de Alfama.
Talvez isso me ajude a compreender o que se ausenta em mim.
É mentira se disserem que não gosto do aqui. Embalei tudo o que tinha.
E mesmo do rio, eu trouxe um bocadinho de sal para dar Tejo às minhas lágrimas. Maldição seria se a felicidade não fosse tão nómada como as coisas que mais amo neste vida.
Não desgosto de onde moro, só não te namoro da mesma forma e não me acostumo a viver sem ti.
*Shooting for Buenos Aires | http://www.buenosairesworld.com/

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É com Amor que se vence o medo.

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Os dias regressam, as horas impõe-se, as rotinas exigem.
Mas há neste amanhecer dos dias seguintes uma culpa irresponsável, por continuar a viver, como se nada fosse diferente, sabendo que nunca mais será igual.
Não dormi bem à noite. Levantei-me.
Fui beijar-lhes as caras. Agarrei a mão do Pedro com força.
Ouvia tudo com muita nitidez.
Nunca a minha respiração me pareceu tão forte, como se me quisesse alertar da forma mais crua para a benção da vida.
Obrigado por me teres segurado a noite com um “Amo-te”.
É com Amor que se vence o medo.

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“Quando voltares da África do Sul…”

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Nunca tive feitio para grandes dramas, por isso digo-te a brincar que “Quando voltares da África do Sul, vou ter noventa e cinco anos.” Que me vais ter que ressarcir por cada sulco profundo e por cada gordura acumulada indevidamente.
E isso, só para falar de raspão dos danos visíveis de ser mãe monocasta. Depois, há todas as mazelas que não se vêem a olho nu: Os transtornos do sono e a culpa que morre só.
Sei que estás a fazer pela vida e por isso não gosto de te incomodar com a ladainha dos dias. Às vezes poupo-te, substituindo as coisas menos boas pelas histórias da Saudade.
Na verdade, as coisas menos boas não são necessariamente más, mas são verdadeiramente complicadas.
Sei que se pudesses estavas cá e se calhar, não imaginas, a quantidade de vezes que as punha aí(se pudesse).
Os dias não nascem todos com sol. E às vezes a minha energia não chega para ser painel solar das emoções de toda a família.
E quando as coisas complicam e chovem reclamações, também já vi que não tenho comprimento de braços para ser guarda-chuva. O amor que lhes tenho é um depósito, mas às vezes dou por mim a lamber a reserva.
Se calhar não imaginas as vezes que estanco a derrocada de lágrimas, por cada negativa de um teste, por cada falta de material e por cada telefonema da Professora. Tento que nada lhes falte, mas não consigo suprir com beijos as fendas das saudades que elas têm de ti.
E não consigo escavar no tempo, um abrigo que chegue, para as saudades que tenho da minha vida quando estavas cá. Essas, apago-as num copo de vinho, quando a noite condescende no meu turno de mãe.
Por isso digo-te novamente a brincar “hoje já tenho oitenta e seis”.

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JÁ “ERA” para SER.

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Não sou de boatos, superstições nem premonições.
Mas num mundo tão grande é nosso dever existencial estar a par dos medos circulantes. Eis-nos chegado a 2015, um ano que se vaticina ser o fim de uma Era. Não necessariamente o FIM da existência terrestre, apenas um reboot do sistema tal como o conhecemos.
Tenho mergulhado no tema nas poucas horas que permito ao pensamento fruir, sem angústia, as certezas do nada.
Imagino o fim da moeda, os grandes cataclismos, mas também imagino o adormecimento da tecnologia, o renascer da troca, a auto-subsistência, a paralisia da urgência, a reinvenção do zero.
E não me angustia.
Talvez me angustie mais o adormecimento geral em que nos encontramos na fruição incerta dos dias. Talvez me assuste ainda mais esta luta desenfreada para nos encaixar à força, numa rotina correcta que potencie o melhor de nós. Talvez alucine mais, quando penso em acordar todos os dias numa luta injusta contra o tempo.
Talvez me magoe mais, a força com que me escapa tudo o que não consigo agarrar. Talvez me atormente mais ainda, encaixar à força nas rotinas, que não nos potenciam, nas cirunstâncias que não nos empoderam e nas pessoas que não nos viciam.
Talvez me desespere ainda mais viver das memórias de tudo o que poderia ter sido, porque nada é, quando já foi.
Talvez o mundo precise desse “RESTART”.
Talvez sejamos privilegiados em viver numa Era que culmina na possibilidade da reinvenção. Talvez sejamos os felizes convidados da primeira plateia, da mudança mais dolorosa, e simultaneamente mais necessária.
Daquela mudança, que esperamos no mundo, porque não há maneira de termos força que chegue para nos rebelarmos dentro de nós.
Talvez seja esse o renascimento dos sentidos, o expoente máximo dos sabores, a viagem ao centro de nós.
E que seja aí, no precipício do fim, que a humanidade vislumbre o principio do “NÓS”, a vingança mais assertiva ao reinado do “EU”.

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Dias Duros

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Estes dias são duros. O sol brilha. O céu está lindo mas o dia é duro na mesma. O pai das loiras regressa a África em trabalho e a hora de despedida molha os olhos das minhas filhas.
Elas já sabem que agora é assim, e por tempo indeterminado a tristeza determina-se. Tento ser forte, mais um mês e estamos lá, à dobrar o cabo das tormentas, atrás da esperança que lhe ficou como nome. Hoje foi um dia duro.
Os braços não queriam largar. E ainda que eu lá estivesse como a representação de tudo o que ainda fica, pesava mais a saudade antecipada de tudo o que ia. As malas gordas à porta também não ajudavam, o olhar desviado do pai amigo, do pai aflito. O abraço que não quer apertar de mais nem desapertar de menos e o beijo que tem medo de se demorar sobre a lágrima. Devia ser a força, o esteio, o suporte seguinte, o colo eterno, mas quando o dia é duro, quando a água lhes inunda os olhos, e a voz treme nas coisas que quer salvar, eu acabo sempre, por me desmanchar um bocadinho. Agora já passou, vai passando, o avião já está no ar, vai voando, as saudades dissipam-se e os pés sobre a terra descobrem de novo o seu lugar.
O dia foi duro, sim.
Mas quem ama, sabe que o amor é mais.

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Há quem diga

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Há quem diga que eu tenho uma visão hiper realista da maternidade. Outras há que dizem que toda a gente tem.
Há quem não diga nada.
E há quem diga, por cima de quem diz o que sente, que a maioria mente.
Nos dias maus estou desvairada e arrependida.
Nos dias bons sou a mãe transversal de toda a cria.
Quando me falta a paciência digo mal até mais não.
Depois bebo um trago longo de tinto e toda eu sou perdão.
Culpa? Ninguém a tem. Nasce do ser diferente.
A única cena comum que temos com toda a gente:)

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Muda tudo Maria

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A minha Mariana nasceu ontem.
E tu Maria, sem que saibas, também.
Ainda não te consegui ver, nem falar.
Mandaste uma mensagem por Whatsapp com a fotografia cortada da miúda e desapareceste para dentro de ti própria, para esse casulo tão monopolizador quanto doce que são os primeiros dias de mãe.
E agora, perguntas tu?
E eu tenho quase a certeza que agora que a vês, já tens parte das respostas que querias para ti. Muda tudo Maria.
Perguntaste-me assim que soubeste que estavas grávida, como é que a vida muda? Toda a gente te dizia que era para melhor Maria. Mas tu estavas desconfiada que a conspiração feminina escondia umas tantas verdades. Muda mesmo muito Maria.
Mas não há nada que te possa acrescentar que não vás sentir.
A Mariana é como todos os filhos um Barco pirata. Vem com magia, traz cor e ritmo, histórias e fantasias, na proa o desejo e um convés carregado de tesouros e especiarias. Vai-te apaixonar, elevar e arrebatar. Sem que notes, vai-te levar o tempo, mascar-te as rotinas de amor, sacar-te liquidez a rodos, a troco de mimo, e tu vais deixar, como eu já deixei também e todas nós deixámos.
Quando deres por ti Maria, o tu que eras na singularidade é hoje um plural de vida, e tudo o que conhecias ganha uma forma diferente de ser. O melhor que muda é a força com que tu vais querer mudar tudo. E mesmo nos dias em que o Pirata pequeno parece o monstro Bojador, tu hás de amá-la acima de qualquer estrofe.
E o que sentes agora por esse ser pequenino que te era estranho, será talvez, a única sensação da vida que te vai ser permanente.
E o resto? O resto é resto.
E muda tudo Maria.

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– Ó mãe…

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– Os nossos bisavós são aqueles que já morreram?
Pergunta-me a Camila no carro.
– Nem todos os que morreram são nossos bisavós. Mas sim, os bisavós da Camila já morreram.
– Quem eram os meus bisavós? Insiste a Camila.
– São os avós da mãe e do pai. Respondi.
Não sei se as perguntas se ficavam por aqui. Mas quando falou nos bisavós bateu uma saudade das grandes do meu. Eu apanhei o isco e descosi sobre o tema, divagando, como se divaga em paixão na vida, quando alguém nos pergunta sobre alguém que amámos muito (e que já partiu).
– O bisavô da Camila, o meu avô, foi o homem mais importante da minha vida. O meu avô foi o meu pai verdadeiro. O homem que moldou o meu carácter, a pessoa mais boa que já conheci.
A única, cuja a ideia da ausência em vida já fazia doer. O avô foi o homem que me levou à igreja quando casei com o pai. O homem que ensinou à mãe o que é Amor, e que todos os dias me acorda para o lado bom da saudade. O homem que encheu as medidas do meu coração. Tenho muitas saudades do bisavô da Camila, mesmo muitas…
A Camila ficou calada. No silêncio do carro, ganhei consciência que me alongara na adjectivação porque a humildade não deixa na pobreza da linguagem aqueles que mais amamos.
Sorri de mim para mim. E quando já estava a estacionar o carro, a Camila pergunta a medo:
– Ó mãe…eu tenho que gostar das pessoas que não conheci?
– Não meu amor. Nem mesmo de todas a que conhece.

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Respirei Fundo, Só Isso.

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Não gosto de pôr demasiada pressão no último dia do ano. Há uma doce irresponsabilidade nas horas que achamos perdidas, que eu gostava seriamente, que continuasse a banhar o resto dos meus dias.
Estamos a 15 km da costa.
Hoje já fomos da terra ao Mar e do Mar à terra.
Já li os meus desejos para 2014, enquanto comia umas tiras de carne assadas na brasa junto à praia dos Aivados, já bebi um jarro de tinto da casa e comi uma mousse de chocolate. Já fui até praia do Salto brincar com as loiras, já tirei o instagram da praxe ao último pôr do sol. E não é que o criador se esmerou: acentuou os laranjas, reforçou os rosas, desenhou um set perfeito: uma maré baixa de prateados e pôs todas as poças da praia a reflectir o céu. Por uns minutos, as vozes enérgicas das loiras, enrolaram junto com a espuma do mar e eu consegui dar aqueles passeios solitários de 5 minutos à beira mar. Antes, eu achava coisa de velho melancólico, quando os via passar de mãos trancadas nas costas, passos arrastados a olhar o mar. Hoje, acho que já percebo. Um dos segredos da maturidade está sem dúvida na percepção do tempo. Não tive nenhum pensamento profundo nos 5 minutos que o criador fez reinar naquela praia, nas loiras à distância e no pôr do sol a enterrar no mar. Respirei fundo, só isso.
E tive a certeza que estou a crescer.

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