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Estupidamente perfeito (ponto)

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Há muito tempo que dizia, já só de mim para mim, para que a descrença não causasse fissuras no sonho, que queria viver das palavras.
Que o meu corpo magro é um repositório imenso de substantivos, adjectivos, advérbios, pronomes e verbos.
Que sonho com os dias em que as palavras são a única refeição que me alimenta e a única a quem me dou.
Que quero uma janela embaciada pelo vapor do Outono, uma lareira acesa à escala de um Inverno profundo, uma manta felpuda sobre o par dos pés e um copo de tinto, sem pressa de virar uva outra vez.
Que quero escrever. Escrever muito e escrever tudo. Sem o assombro do tecto do tempo, das contracções do dinheiro e do vício secular da perfeição.
Que quero fazer das folhas dos meus cadernos, um encontro romântico, estupidamente perfeito, entre a memória intermitente e o presente.
E que quero que as minhas palavras alcancem a serenidade do papel, mas que se imponham, na certeza, que só assim se fazem ideia.
E queria muito que o cálculo acidental do meu português, o somatório ébrio das minhas palavras sãs, a culpa isenta da minha decisão mais inteira e o rebuscar dorido das minhas memórias, criasse “quiçá” um livro. O meu. O meu livro.
E assim anuncio que à excepção de alguns compromissos já assumidos e demais conspirações, e por tempo indeterminado, pouco mais farei que dar atenção aos mesmos caracteres, com que hoje escrevo este texto.
Agradeço desde já à Papelaria Fernandes que me lançou o desafio de viver prazerosamente soterrada entre blocos e canetas. Os mesmos que vou levar comigo nas minhas alienações, lado a lado, com os meus compêndios de inspiração, os meus dicionários, os meus livros sagrados, os amores da minha vida e as minhas reservas de tinto.
E que o resto seja apenas o rascunho permanente do que é estupidamente perfeito: a dedicação àquilo que se ama (ponto)

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* Cadernos NUUNA | Papelaria Fernandes | Lindos de morrer | Perfeitos para se escrever

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VIAJAR COM CRIANÇAS #FILHASDAMÃE

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VIAJAR COM CRIANÇAS #FILHASDAMÃE
DESTINO: ÁFRICA

(São recortes do meu diário de viagens, são notas inscritas no meu caderno e imagens, que farão para sempre, parte do meu património de memórias)

Pergunta a Camila em Moçambique, a mesma pergunta que me fez há dois anos, quando tivemos duas semanas em São Tomé e Príncipe:
– Aqui também só há castanhos, mãe?
Explico-lhe as raças, as cores, os credos, as diferenças.
Deixo que os seus olhos pressintam as assimetrias de que é feito o mundo. Não há livros, nem filmes, que batam os créditos de uma viagem. São depósitos para a vida.
Não há nada mais lúcido que ver o mundo à nossa frente.
Correm descalças nas roças de São Tomé com os meninos da sua idade, partilham cocos partidos e gargalhadas de cabeça para trás. Desbravam o mato com catanas à procura de bichos pequeninos e regressam ao quarto cansadas, com pena de não viver na floresta densa.
Vêem os condomínios brancos em Joanesburgo, visitam impressionadas o museu do Apartheid, tapam os ouvidos quando ouvem perplexas os discursos de ódio racial, observam o tamanho reduzido da cela de Mandela, lêem as inscrições, os testemunhos. Depois comem um cachorro à pressa e embarcam num parque de diversões, andam com a cabeça à roda nas montanhas russas, dão festas às crias de leão, comida às girafas, passeiam elefantes pelas trombas. Percorrem extensões de bairros de lata perdidos na imensidão dourada das planícies rendidas ao sol, vêem carros de luxo em semáforos e homens descalços a pedirem trocos para limpar pára-brisas. Perguntam muito, perguntam “porquê?”. Questionam onde é que estão exactamente no mapa.
Quem são as pessoas, porque é que é tão diferente do sítio onde moram. Onde é que acaba o continente, o país e as diferenças?
Onde é que o mundo se faz igual?

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