Blog Archives

Na mesma posição do “Até já”.

12238066_1257754860916815_9208702792441721063_o

Disseste-me que ias comprar pão quente. E eu prometi-te 8000 caracteres do livro que estou a escrever. O monte fica longe da senhora que vende o pão. Mas o meu corpo está encostadinho à lareira acesa.
Aos bocadinhos começou a chover lá fora.
Estou na mesma posição do “Até já”.
Tenho o portátil sobre os joelhos e as labaredas a namorarem-me o corpo. Tenho um copo de tinto junto a mim e as teclas escuras pintadas com letras à minha frente.
Acho que não te vais importar, se te disser que me perdi entre o estalar da madeira e as gotas da chuva que lambiam as janelas.
Acho que vais perceber se te disser que o meu corpo cedeu ao escorrega do calor e as mãos afastaram-se, com cuidado, das teclas com que se constroem as palavras que prometi escrever.
Quando chegares vou estar na mesma posição do “Até já”.
Vais perguntar-me pelos caracteres, com o pão quente debaixo do braço. E se eu for esperta, como o calor da lareira acesa, vou te puxar para o conforto de mim para quebrarmos juntos as promessas que te fiz.

Comentar

Um dia destes mudo-me novamente.

12238056_1255350911157210_1720640783606398697_o

Um dia destes mudo-me novamente.
Sinto saudades da Baixa e do rio.
Perdi-me de Alfama.
Onde acordo agora, chego a todo o lado, mas não vejo o rio.
Não vejo os barcos atracados, os navios a rasgar estrada, nem consigo que os olhos abracem a outra margem de mim.
Onde vivo, há muitas artérias e caminhos mas poucos lugares.
As pessoas têm pressas, até delas mesmas.
Onde habito, há demasiados escritórios e consultórios. Tenho um elevador que nos leva, mas poucas coisas há que me elevam.
Perdi-me de Alfama.
Onde as deito a noite cai deserta. Não há almas a passear nas ruas, nem namoricos sob a luz embaciada dos candeeiros.
Nem o canto rouco do bêbado conhecido.
Onde vivo há supermercados, farmácias e correios.
Mas ninguém nos conhece os gostos, as dores e as moradas.
Onde vivo se ficar doente, desço ao primeiro andar. Mas tenho a ingratidão das saudades, a chorar por uma constipação a olhar o rio.
Onde moro é tudo muito engomado. Tão contrário ao desapego de ti. Um dia destes mudo-me novamente.
Só porque tenho saudades do encosto entre as pessoas, das conversas de rua e de mim, ali.
Talvez me tenha perdido de Alfama.
Talvez isso me ajude a compreender o que se ausenta em mim.
É mentira se disserem que não gosto do aqui. Embalei tudo o que tinha.
E mesmo do rio, eu trouxe um bocadinho de sal para dar Tejo às minhas lágrimas. Maldição seria se a felicidade não fosse tão nómada como as coisas que mais amo neste vida.
Não desgosto de onde moro, só não te namoro da mesma forma e não me acostumo a viver sem ti.
*Shooting for Buenos Aires | http://www.buenosairesworld.com/

Comentar

Preciso de me encostar por quinze dias.

12034384_1238925672799734_2747411730560813630_o

Preciso de me encostar por quinze dias.
Eu, que nunca consegui ficar quieta no paraíso, já só sonho com água mole e areia amaciada.
Um trópico qualquer, onde eu possa despojar o meu esqueleto e praticar o desapego. Talvez esteja na hora de fazer rodar o globo. Impor-lhe a tirania do meu contra relógio e empacotar a roupa de algodão em montinhos finos.
Está na hora de fazer o marcador do livro galopar sobre as trincas da palinha ao sol. Derreter-me a ver o gelo fazer o mesmo no meu copo, e dormir sem o sobressalto da hora marcada e do atraso permanente.
Preciso mesmo de me encostar.
Antes que os “com licença” da vida me forcem a desviar.

*Shooting Milão | Cristina

Comentar

Corrente sanguínea em corta-mato

caetanaaa

Conheço-te melhor que a mim. E desde que vislumbro a tua personalidade que adivinho que o Erasmus seja apenas um pionés de partida, para essa alma errante. Sei que praticas o desapego até com quem gostas, e sei que esse passaporte aos pulos, e essa corrente sanguínea em corta-mato, está toda carimbada de amor. Ainda assim, podíamos adiar por uns anos este tipo de telefonemas:
– Estou mãe! Olá. Por acaso não viu aquela minha carteira preta?
– Oláaaaaa filhota mais querida do meu coraçãooooooo:))))
– Não ficou ai em casa pois não…?
– Então “moedinha número um” (como lhe chamo carinhosamente) não quer falar com a mãe?:)
– Okay. quero, quero. Mas agora estou a meio de uma coisa.
Ligo mais logo para conversar. Love you. (piiiiiiiiiiiiiii)

P.s: Love u 2.

Comentar