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Aguenta coração.

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Aguenta coração.
A Caetana perguntou-me ontem ao jantar se eu estava desejosa que o pai chegasse. Confesso que até fiquei com medo que ela tivesse escutado algum desabafo, desses, que qualquer mãe com discernimento faz quando está pelos cabelos ou prestes a perde-los a todos:)
Disse que não percebia a pergunta. Perguntei-lhe, se estava a querer dizer que eu estava cansada das minhas filhas ou desejosa que o pai chegasse, porque também eu tinha saudades.
Fitou-me. Para não incorrer em conversas desanimadoras do desempenho do meu esforçado papel maternal (e paternal desde há uns meses para cá) rematei: – Eu não estou desejosa que o pai chegue, para me ver livre de vocês (mentirinha). Mas a verdade é que me vai descansar o coração saber que vamos pôr um fim nessa saudade. E sim, também eu tenho saudades do pai.
Um dos melhores amigos da mãe. E os amigos bons nós queremos por perto.
Contente com a minha resposta sorri. A Camila que até então observava, acaba de dar uma garfada no bife, engole e diz:
– Ó mãe, mas eu vou ficar o tempo todo com o pai, todo! Desculpa lá, mas a mãe tem nos o tempo todo, é injusto! Eu quero estar com o pai.
Olho para o Pedro que estava ao meu lado, suspiro, e sai-me um:
– Bitch…
Pergunta a Caetana do canto da mesa:
– Porque é a mãe está a chamar a Camila de Praia?
Meio embaraçada respondi: – Porque vocês às vezes são tão incertas como as ondas do mar.
E pus uma garfada à boca para lançar um parágrafo sobre a discussão.
Haja sempre lirismo em casa e muito amor, pensei.
E venha a mim a minha “bitch”, porque eu estou mesmo a precisar de férias:)

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– Às vezes não dou conta do recado.

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Liga-me uma grande amiga, estava cansada, talvez aflita.
Estava às compras no supermercado com os filhos, quando a filha lhe pede para segurar qualquer coisa na mão. Disse-me aflita, talvez mais cansada que aflita, que tinha perdido o que a filha lhe passara dois minutos antes para as mãos. Disse-me ao jeito do desabafo mais sincero:
– Às vezes não dou conta do recado. Foram só dois minutos e eu perdi o que ela me deu.
A miúda ficou chateada, talvez aflita, talvez mais chateada que aflita. A mãe ficou de rastos.
Tenho tantas falhas para a troca que não tive que procurar muito pelo equipamento do ballet que não levei no dia em que havia sarau, nem tive que puxar muito pela imaginação para me lembrar que cheguei atrasada ao colégio no dia a seguir à reunião de pais, em que falaram da pontualidade, nem tive que esgravatar para lhe contar sobre as vezes seguidas em que me esqueci de reforçar o lanche e elas se queixaram de fome, nem as vezes em que servi Estrelitas ao jantar, na vez dos brócolos, porque me esqueci de os cozer. Nem aquela vez que fingi que não havia trabalhos de casa porque não tinha energia para os fazer, nem as vezes que saltei o banho, porque não tinha paciência para lhes lavar os cabelos.
Disse-lhe só: – És uma mãe do caraças. Acredita que se não o fosses, não era a coisa que ela te deu que tinhas perdido. Era a memória do que perdeste.

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