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NÃO, NÃO ANDO A FAZER M*A.

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Hoje publiquei uma frase na cronologia do Pedro a dizer: “Saudades tuas”.
Recebi dois telefonemas: Uma amiga que perguntava se o Pedro estava fora e outra, que com ironia sarcástica (que só a a amizade longínqua permite) comentava: – Deves andar a fazer m*a para tanta declaração de amor.
Ri-me. Não. Respondi. Ando a “fazer bonito”. Estou crescida, rematei.
Sei que nunca fui pessoa de grandes declarações públicas de amor, com excepção honrosa ao sangue do meu sangue, nas pequeninas pessoas das minhas filhas. Mas o tempo passa, sabes. Vamo-nos tornando mais senhoras da nossa vida, proprietárias orgulhosas das nossas conquistas, soberanas no que sentimos, orgulhosas por dar, vaidosas de puder estender a partilha aos que gostamos. Ao principio, revia com desconfiança as frases, tudo parecia excessivo, meloso, até falso. Mas ao primeiro “Enter”, é como o lacre numa carta ida. Sabe tão bem, que chega a virar vício. Não me interessa quem diz que não ha pachorra para isso. O que já não tenho mais mesmo é pachorra para viver por menos. Não sei o dia de amanhã, nem me angustia que as palavras lançadas hoje possam perder sentido nas coisas que lho retiram. Hoje amo, hoje gosto, hoje sou e hoje sinto. E sem qualquer eminência que o passar do tempo condene o que o hoje dita, lanço-me sem filtros ao amanhã.
Não, não ando a fazer m*a. Repito.
A mesma com quem já feri, quem um dia esteve uns passos largos de confiança à minha frente.
E não me venham com histórias. Nada é mais falso que acreditar que a verdadeira juventude da vida esteja na rebeldia dos erros.
E se assim for, que venham daí todas as rugas da verdade. Porque hoje, tudo o que me parece excessivo é o que guardo sentido sem o dizer. “Saudades tuas”.

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O cabelo cresce loirinha

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Andaste a fugir à tesoura durante 6 meses.
Quando o pai cá esteve, passei-lhe a incumbência, mas a agilidade feminina levou a melhor e regressaste à mãezinha com o mesmo cabelo aciganado com que te entreguei ao pai.
Ontem cedeste aos meus argumentos e deixaste que eu te cortasse o cabelo depois de despejares dois quilos de máscara hidratante, que fez com que a Camila desse um duplo mortal na banheira logo a seguir.
Tinhas o cabelo miserável, mas tu achas que eu exagero na adjectivação e quando viste no chão os cinco dedos pareceu-te toda uma pata de elefante.
Rebentaste em lágrimas, agarraste as pontas molhadas entre os dedos e soluçaste, como se fosse um membro amputado e uma despedida para sempre. Não contente, disseste-me que te tinha arruinado o dia, a semana e a vida (quem sabe).
Sou mulher, minha menina, já chorei muita franja de escovinha cortada pela minha mãe, já saí do cabeleireiro com vergonha de me ver reflectida nas montras e já roguei pragas ao impulso colectivo das tintas de supermercado. Faz parte. O Pedro estava surpreendido com o nível da crise (tem dois filhos rapazes) com a grossura da lágrima e com o exagero da adjectivação, que é o melhor teste de ADN em matéria de crise:)
Foram 15 minutos de crise até que o mundo ficasse tão acetinado como a máscara que colocaste no teu cabelo, foram alguns duplos mortais na minha caixa torácica e até valeu abrir uma colheita especial de 2011 (sempre fomos boas nas boas desculpas).
O cabelo cresce loirinha e felizmente, nós também

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“Bem mais grande”

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Não te via há uma semana.
Já tens 10 anos.
Não é nada. Eu sei.
Mas não sei se sei tudo o que isso quer dizer.
Pareces-me sempre enorme, “mais grande” como já nem dizes.
Já falas com tanta certeza das coisas.
E já me gozas com piadas próprias.
Rimos juntas de coisas do saber e do que ninguém sabe.
Às vezes queria ser a tua amiguinha dos recados de papel.
Tenho muitas saudades do monopólio do destinatário.
Já tens 10 anos.
Não é nada. Eu sei.
Tens umas pernas compridas e umas ideias que as ultrapassam. Os teus cabelos já se mexem com coreografia e tu já te vestes como se fosses directa para o Instagram.
Escolhes os teus livros, as tuas roupas, as tuas amigas e as tuas ideias. Mas sei que se te dessem a escolher a progenitora me escolhias a mim.
E não tenho qualquer dúvida, que era a ti que te escolhia mesmo quando me sinto a competir com o mesmo mundo grande que te dei a descobrir.
Já tens 10 anos.
Não é nada eu sei.
E o meu amor por ti é sempre “mais grande” como já nem dizes.
Digo eu por ti que já sou “bem mais grande” que 10.

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As miúdas, as meninas, as mulheres das ilhas.

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Cada vez que regresso a São Tomé há um pensamento que regressa comigo. As miúdas, as meninas, as mulheres das ilhas.
É difícil comparar com as nossas miúdas, meninas e mulheres.
Aqui as crianças parecem mais crianças. São-no no estado puro de quem cresce descalço sobre a terra, de quem sorri sem medo para quem passa, de quem segue para a escola a pé, a rir com outras crianças, de quem mergulha nu no mar e participa sem queixume visível da vida em comunidade.
Parecem tão pequeninos para tanto e são mesmo.
Como eu quis, e não consegui, que na mesma idade as minhas miúdas andassem mais descalças, mas consegui que nadassem nuas em todas as praias, não consigo ainda, que vão para a escola sozinhas, mas já consigo que vão à mercearia comprar o pão e as frutas que faltam. Vou tentando, sempre que posso, fintar-lhes os vícios da cidade, das rotinas cómodas, das certezas sem fim. Ambiciono muito para as minhas miúdas, meninas.
Não lhes falta nada. Mas ainda lhes falta muito.
Esse muito que ainda lhes falta é o sacrifício. E nós hoje, ainda pouco fazemos por essa doutrina sã que criou tanto filho bom.
É uma luta quase inglória porque quando há não se retira. Quando se tem não se adia.
Um dos pensamentos que ganha força aqui é a certeza de que vos tenho que dar menos para vos saber dar mais.
E se algum dia tiver receio que me culpem por isso…
Invade-me a certeza que o vosso coração irá mais cheio por cada vazio meu.

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#NÃO AO MEDO

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#NÃO AO MEDO

Devia escolher esta imagem para ilustrar um momento mais feliz, mas não dá para sobrevoar o que está a acontecer…e continuar planando sobre o ar quente dos dias, só porque o bafo que nos sustenta teve a sorte aleatória da melhor hora, do local certo e da circunstância boa.
E não dá para querer cortar as asas de quem sonha voar para longe de um chão que não o deixa crescer, poisar sequer, ou semear.
E menos ainda, desconfiar de quem quer ser livre, só por quem nunca sentiu antes, a asfixia da liberdade.
Nestes dias, em que ficamos com poucas certezas, encontro na forma como as educo, a minha pista de descolagem.
A consciência da sua dimensão na dimensão do mundo. A importância das suas acções na condução do seu destino. A crença na humanidade. O amor aos outros. A luta pela liberdade. A defesa da igualdade. E o amor à terra. E se der para ir mais longe no meu vôo de mãe, quero muito, que os seus sonhos tenham a força de duas asas e que nunca tenham receio de se elevarem por aquilo em que acreditam.
Porque o céu não tem arame farpado, o sol não é uma estrela privada e o medo não ganha à força da Liberdade.

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As pessoas avisam-nos.

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As pessoas avisam-nos.
Mas ninguém põe a cabeça nos carris para saber quando vem o próximo comboio.
E assim, quando ainda pagava no guichet a comprar o bilhete da 1ª carruagem da infância, olho para ti e vejo-te com um telemóvel na mão a perguntar à entrada de um restaurante:
– Aqui há wifi?
Sorrio meio parva. Sinto o cabelo toda a esvoaçar, ao mesmo tempo que o comboio avança sobre a linha.
Não tenho a cabeça no carris, mas tenho o coração a querer agarrar o vento:
– Aqui há amor. (fuck it)

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Devo estar a envelhecer (bem).

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Às vezes fico olhar para ti de costas enquanto te afastas, a medir o comprimento das tuas pernas, o teu balançar, num “galanço” tão espontâneo, que se não fosse de mãe querida, era de homem descarado.
Às vezes dizes: – Ó mãe para!
Desculpa-me, por me deter muito tempo fixa no teu rosto.
Amnistia as minhas mãos por se demorarem a sentir o diâmetro pequenino dos teus braços. Perdoa-me se te pego ao colo e se elevo como uma criança pequena, só para ter a certeza que ainda me sobra força para te carregar.
É tão engraçado, porque eu sempre fui rabugenta com as contemplações demoradas de familiares, enquanto exprimiam as mesmas frases:
– Está tão crescida!
– Pareces mesmo a tua mãe.
– Vai ter o nariz do do pai.
– As mãos são iguais às da avó Margarida.
Sempre resmunguei, de mim para mim, que esse comportamento era revelador da idade avançada de quem o proferia.
E dizia para mim mesma, que quando crescesse nunca o faria.
Com o tempo, também eu aprendi, que envelhecer traz o custo dos caldos e das ramelas nas palavras. E se, quando era criança, eu condescendia, era porque havia em todos eles um universo de referências, que me pesava e me afligia. Por isso, quando dou por mim a observar-te de forma demorada e a exprimir de forma antiquada, não é só porque envelheço em caldos e em palavras, mas porque encontro no teu balançar de menina, a criança que eu já fui.

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Respirei Fundo, Só Isso.

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Não gosto de pôr demasiada pressão no último dia do ano. Há uma doce irresponsabilidade nas horas que achamos perdidas, que eu gostava seriamente, que continuasse a banhar o resto dos meus dias.
Estamos a 15 km da costa.
Hoje já fomos da terra ao Mar e do Mar à terra.
Já li os meus desejos para 2014, enquanto comia umas tiras de carne assadas na brasa junto à praia dos Aivados, já bebi um jarro de tinto da casa e comi uma mousse de chocolate. Já fui até praia do Salto brincar com as loiras, já tirei o instagram da praxe ao último pôr do sol. E não é que o criador se esmerou: acentuou os laranjas, reforçou os rosas, desenhou um set perfeito: uma maré baixa de prateados e pôs todas as poças da praia a reflectir o céu. Por uns minutos, as vozes enérgicas das loiras, enrolaram junto com a espuma do mar e eu consegui dar aqueles passeios solitários de 5 minutos à beira mar. Antes, eu achava coisa de velho melancólico, quando os via passar de mãos trancadas nas costas, passos arrastados a olhar o mar. Hoje, acho que já percebo. Um dos segredos da maturidade está sem dúvida na percepção do tempo. Não tive nenhum pensamento profundo nos 5 minutos que o criador fez reinar naquela praia, nas loiras à distância e no pôr do sol a enterrar no mar. Respirei fundo, só isso.
E tive a certeza que estou a crescer.

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