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Sentir

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Dizes que não percebes porque é que ela não chora quando o pai vai embora. Dizes com voz ferida, que ela não sente. Que quem sente fala, que quem sente, diz. É difícil para mim explicar-te que há pessoas que sentem, mas não falam do que sentem, que choram por dentro, que gritam por dentro, mas que não mostram aos outros. A tua irmã é diferente de ti. Tem a mania que é durona, mas sente, tem a mania que é seca, mas chora. E acredita, que sente igual a ti, a falta que o pai lhe faz. Eu sou das que sente, mas já fui das que cala. Agora deixo o sentimento falar em voz alta, não o filtro, não o travo e não o encomendo. Mas já fui assim, durona. A última a deitar a lágrima. Como se no final fosse receber uma medalha de valentia. E já senti muita inveja de quem chorava com o corpo todo, quem enlameava a cara de lágrimas e não escondia o inchaço dos olhos cansados. Depois aprendi a disfarçar a dor com alegria, tornei-me palhacinha das minha emoções, aquilo que a tua irmã às vezes faz, quando não suporta o peso do que carrega.
Aí maquilha-se a tristeza de piada, exclamam-se frases de motivação, ergue-se o peito para a frente, levanta-se o queixo e desafia-se o medo de sentir.
Tu não. E eu também te adoro por isso, tu choras quando sentes e ris quando tens vontade. Mas não és melhor que ela por isso, és diferente. E nós precisamos uns dos outros, para não nos afundarmos todos num abraço que tem mais de peso que de bóia. Acho que temos sorte cá em casa. Para cada peso, haverá sempre duas medidas. E assim a saudade estará sempre de mãos dadas com um sorriso.

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Um dia destes mudo-me novamente.

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Um dia destes mudo-me novamente.
Sinto saudades da Baixa e do rio.
Perdi-me de Alfama.
Onde acordo agora, chego a todo o lado, mas não vejo o rio.
Não vejo os barcos atracados, os navios a rasgar estrada, nem consigo que os olhos abracem a outra margem de mim.
Onde vivo, há muitas artérias e caminhos mas poucos lugares.
As pessoas têm pressas, até delas mesmas.
Onde habito, há demasiados escritórios e consultórios. Tenho um elevador que nos leva, mas poucas coisas há que me elevam.
Perdi-me de Alfama.
Onde as deito a noite cai deserta. Não há almas a passear nas ruas, nem namoricos sob a luz embaciada dos candeeiros.
Nem o canto rouco do bêbado conhecido.
Onde vivo há supermercados, farmácias e correios.
Mas ninguém nos conhece os gostos, as dores e as moradas.
Onde vivo se ficar doente, desço ao primeiro andar. Mas tenho a ingratidão das saudades, a chorar por uma constipação a olhar o rio.
Onde moro é tudo muito engomado. Tão contrário ao desapego de ti. Um dia destes mudo-me novamente.
Só porque tenho saudades do encosto entre as pessoas, das conversas de rua e de mim, ali.
Talvez me tenha perdido de Alfama.
Talvez isso me ajude a compreender o que se ausenta em mim.
É mentira se disserem que não gosto do aqui. Embalei tudo o que tinha.
E mesmo do rio, eu trouxe um bocadinho de sal para dar Tejo às minhas lágrimas. Maldição seria se a felicidade não fosse tão nómada como as coisas que mais amo neste vida.
Não desgosto de onde moro, só não te namoro da mesma forma e não me acostumo a viver sem ti.
*Shooting for Buenos Aires | http://www.buenosairesworld.com/

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E AGORA? COMO É?

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Uma das minhas melhores amigas separou-se há umas semanas, nesse dia ligou-me a dizer que tinha consumado a decisão com uma conversa directa e assertiva. Não hesitou, não vacilou e a voz não lhe tremeu. O seu discurso emanava na velocidade o “cagaço” óbvio da decisão. Deixei-a falar, deixei a discorrer sobre os motivos, revendo-os, como se reforçasse para sí mesma a certeza da sua acção. Quando lhe começaram a escassear as palavras, quando a voz cansada se enramelou de dor, senti-a respirar profundo e soletrou: – E agora? Como é?…
Não gosto de conselhos vagos em situações difíceis. A amizade compadece-se das melhores verdades. E agora?
Agora vai ser difícil. Vai ser diferente. Mas vais conseguir. Como eu consegui.
Nos próximos tempos vais rever muitas vezes os motivos, vais ser atravessada pela incerteza de tudo o que deixas para trás. Vais ter medo. E vais te sentir irremediavelmente sozinha, mesmo quando tiveres rodeada de todos os que gostam de ti.
Mas tu estavas sempre tão bem disposta…?
Parecia eu sei. Mas sabes, convém fazer uma certa cerimónia com a dor. Dá-lhe espaço de manobra para o teu próprio crescimento, mas lembra-la sempre, que quem comanda o rumo das coisas és tu. E que a decisão que tomaste tinha como Norte, ser mais feliz.
Sabes que a separação, faz-me sempre lembrar o pânico que nos assalta quando mudamos de casa, e nos encontramos sozinhas entre os caixotes espalhados pelas divisões. Parece tão titânico o esforço, que a vontade de abraçar a nova morada é substituída por uma vontade súbita de ir dormir para um hotel. Os caixotes têm escrito o que contêm, foste tu que os arrumaste, lembras-te? Parecem muitos, demasiados e és só tu. Os teus braços e os teus olhos só alcançam o esforço de tudo o que há para fazer. Não faças nada hoje.
Deita-te entre os caixotes, no colchão improvisado da tua decisão. Amanhã quando acordares e começares a desembrulhar devagarinho, os despojos dessa guerra, parecer- te-ão as primeiras tábuas da ponte que mandaste construir. E devagarinho a ordem normal das coisas que conheces, dar-te-á a confiança que precisas para enfrentar o que ainda não conheces.
E agora?
Agora chora um bocadinho. Que não se muda uma casa sem se lavar o chão.

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