Blog Archives

“UMA CASA NUM ESCRITÓRIO”

13047889_1383488038343496_345942350876518880_o

Já há alguns anos que não trabalho por conta.
Trabalho para contas.
Não tenho que levar com as flutuações de humor do chefe, nem com as oscilações temperamentais dos colegas do lado. Mas passo a vida no banco on-line a conferir transferências. Não tenho que simular sorrisos amarelos para aquele cromo que insiste em projectar-se na tua sombra, fazendo luz das tuas ideias. Nem preciso de ir tirar um café para concluir uma conversa parva num chat do whatsapp, ou fugir para a casa de banho para mandar uma selfie atrevida. Mas também, não sei das últimas pelos últimos, nem tenho grupetas divertidas de corredor. E mais, não tenho que andar engomada porque a minha imagem só reflecte no espelho da minha casa de banho, não preciso de trocos para as maquinas de “vending” e posso enfrascar-me em cafés, contando que tenha cápsulas. Nos dias mais tenebrosos, posso manter o pijama, ouvir música melancólica aos altos berros e fumar um cigarrinho manhoso em frente ao ecrã. Mas há sempre o seu “q” de solidão em tudo isso. Tenho a sorte do meu trabalho implicar pessoas e saídas constantes. Tenho a minha assistente que trabalha escondida no computador à minha frente e a Fátima que passa cá umas horas a ajudar na lide da casa. De resto, só batem à porta por engano ou os correios. Já me passou pela cabeça alugar um escritório, partilhar um cowork, dividir um estúdio. No principio duvidei da minha capacidade em trabalhar em casa. Imaginei me a bezerrar no sofá, refastelada de livros, televisão ligada às 11h e torradinhas no prato ao alcance de um braço deitado. Mas isso era quase impossível, não tenho feitio sequer para permanecer na cama depois de acordada, mesmo quando estou no scroll do Instagram. Acordar é viver. E viver para mim, salvo a excepção dos prazeres confinados à cama, implica uma certa verticalidade. Depois de levar as miúdas à escola, arranco para o ginásio, do ginásio para o escritório e depois é obedecer à agenda dinâmica do dia. Não me levanto a meio da manhã para fazer tostas mistas e quando tiro um café bebo-o bem à frente do monitor. As pausas para o almoço têm o mesmo ritmo das cantinas das multinacionais, com a diferença que posso ir ao meu frigorifico sacar uma mini e desenrascar umas gomas da dispensa para a combustão dos açucares.
Mas acabo por ser muito disciplinada. E muitas vezes, rio-me com a Ângela (a minha assistente) pelo tempo que demoramos entre a vontade comunicada de ir à casa de banho e a hora que nos levantamos efectivamente para aliviar.
É a escola do tempo comprimido que comanda a agenda do dia.
E mesmo solta dos aguilhões dos patrões e dos olhares ambiciosos dos colegas menos colegas, acabo por me impôr um regime de horas de trabalho que ultrapassa na sua maioria as 8 horas obrigatórias por lei. Talvez aí, mais do que nunca se faça sentir a expressão “sentirmo-nos em casa”. Saber bater a porta do escritório torna-se imperativo e dominar a tentação de ir “teclar mais um bocadinho”, uma necessidade soberana. Sem fazer essa aprendizagem, corremos o risco de passar a viver num escritório em casa, em vez de vivermos num casa que tem um escritório.
*http://gerireliderar.com/uma-casa-num-escritorio/

Comentar

“Quando eu for mãe”

IMG_0692_6264

As minhas filhas têm diferentes opiniões sobre a maternidade. Entenda-se com isto que não me refiro à forma como as educo ou às questões motivacionais ou emocionais, que estiveram por de trás da sua origem, inquestionável, por razões eco-sistémicas de sobrevivência em família:)
Até porque posso assegurar que o Amor próprio cá por casa, supera o próprio Amor.
Quando falamos de maternidade e são mais elas que eu, é sempre sobre os filhos que elas desejam muito que eu tenha, e os filhos que elas um dia vão ter.
Quando se põe a fantasiar sobre os irmãozinhos e as maninhas usam grandes folhas A4, onde escrevem, em forma de tabela, os nomes dos meus futuros filhos. Partindo sempre do pressuposto generoso de que são gémeos.
A Caetana fala muitas vezes “quando eu for mãe” isto, “quando eu for mãe” aquilo. Imagina a casa, a dinâmica, o marido, as faces das crianças, os nomes, e quando está mesmo muito inspirada, fantasia-lhes o carácter e faz simulações in loco do que seriam as suas reacções às birras, pedidos ou questões, que os seus filhos, com inteligência suprema teriam para lhe colocar.
A Camila por outro lado, que reconhece o seu estatuto de criança, filha e mimada, nutre um profundo temor e respeito por esta santíssima trindade, afirma desde sempre, que não quer ser mãe ou ter filhos de qualquer espécie. É peremptória nesta conversa e não admite qualquer excepção, marketing ou diálogo em torno das virtudes de ser mãe.
Quando lhe pergunto Porque é que não quer ser mãe?
(Sem qualquer objecção à decisão, que entendo, faz parte do uso fabuloso de ser uma mulher livre).
Ela responde-me: – Dá muito trabalho.
Andava eu com medo de a traumatizar como mãe, quando ela já o antecipa no exercício de ser filha.
Toma lá sangue do meu sangue, é para aprenderes:)

Comentar

Lá fomos nós para a escola de motorista

IMG_0487_6066

Comecei a segunda feira em grande.
A minha mão na mão papuda da Camila. Cabeça de mãe virada para trás, a acompanhar o andar lento, passado e elegante da Caetana que atravessa a passadeira como se pousasse para um anúncio da Donna Karan NY. Ela era madeixa alçada sobre a brisa à esquerda, ela era olhar atirado com desdém à direita e toda uma fila de carros à espera. Ela era a mãe desesperada com as calças de ginástica vestidas, um frio de rachar nos tornozelos e duas mochilas na mão. E o pigmeu da montanha a reclamar: – Não posso chegar atrasada…
Chegamos ao carro, despejamos as loiras e as mochilas lá para dentro. Entro no carro, rodo a chave e nada. Sem tempo para conjecturas sobre a mecânica ou o fim prematuro da viatura, sacam-se as loiras do carro. Abeiro-me da estrada e quando dou por mim, já a Caetana estava dois metros atrás a mandar parar um táxi, com o mesmo jeito nova iorquino da série: Dois dedos no ar, calcanhares levemente erguidos e gémeos em levitação. Entramos com as mochilas da Violetta, os cestos da comida e as loiras. Indiquei a direcção e lá fomos nós para a escola de motorista. No interior da viatura, a Caetana de perna cruzada elogia-lhe o conforto, enquanto a Camila passa as mãos pelo acento do motorista forrado a imitação de lã e diz:
– Que bonito mãe, que fofinho, temos que comprar um igual.
Chegadas à escola. Mochilas nas costas, um cesto em cada mão e um beijo rápido na testa: – Boas aulas filhas da mãe!
Aceno da Camila, resposta da Caetana: – Adeus mãe!
Vou dizer à professora que viemos de táxi.
E eu vim para casa chamar o reboque.

Comentar

Um canino vale o mesmo que um molar

IMG_0152

Tenho a sorte, muito trabalhada por ambos, de ter uma relação para lá de boa com o pai das minhas loiras.
Mas Custódia partilhada, é custódia partilhada. E ainda que falemos quase diariamente sobre os mais diferentes aspectos da educação das miúdas, há sempre situações imprevistas que nos escapam. E outras tantas, que parecem tão ridiculamente pequeninas que nem perdemos tempo a falar delas.
A fada dos dentes foi um desses assuntos. Espertas, as loiras garantem que os dentes que caiem em casa do pai valem 10 €, contra os 2€ por dente que se praticam cá em casa, independentemente da sua posição na boca. Um canino vale o mesmo que um molar. Assimilada esta realidade, percebo agora que a fada dos dentes do meu lar está em situação de precariedade, enquanto há uma fada e duas loiras sortudas que florescem lá para os lados do pai.
E também consigo estabelecer alguma relação causa-efeito, quando realizo, que de todos os dentes que as minhas filhas têm na boca, só dois é que caíram cá em casa. O mais engraçado é que quando a Caetana me liga toda contente para me dizer, que lhe tinha caído mais um dente (agora percebo o histerismo das minhas crias com a arqueologia da dentição) a Camila berrava qualquer coisa lá atrás.
Nisto, a Caetana dá um berro – Desaparece!!! Estou a falar com mãe ao telefone!
Contente e/por Incapaz de exercer qualquer reprimenda educativa à distância, pergunto-lhe o que é que a Camila tanto grita.
Responde a Caetana furiosa: – Ela é parva mãe!
Está a dizer que eu arranco os dentes só para ganhar dinheiro!
Esperemos bem que não.

Comentar