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Estupidamente perfeito (ponto)

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Há muito tempo que dizia, já só de mim para mim, para que a descrença não causasse fissuras no sonho, que queria viver das palavras.
Que o meu corpo magro é um repositório imenso de substantivos, adjectivos, advérbios, pronomes e verbos.
Que sonho com os dias em que as palavras são a única refeição que me alimenta e a única a quem me dou.
Que quero uma janela embaciada pelo vapor do Outono, uma lareira acesa à escala de um Inverno profundo, uma manta felpuda sobre o par dos pés e um copo de tinto, sem pressa de virar uva outra vez.
Que quero escrever. Escrever muito e escrever tudo. Sem o assombro do tecto do tempo, das contracções do dinheiro e do vício secular da perfeição.
Que quero fazer das folhas dos meus cadernos, um encontro romântico, estupidamente perfeito, entre a memória intermitente e o presente.
E que quero que as minhas palavras alcancem a serenidade do papel, mas que se imponham, na certeza, que só assim se fazem ideia.
E queria muito que o cálculo acidental do meu português, o somatório ébrio das minhas palavras sãs, a culpa isenta da minha decisão mais inteira e o rebuscar dorido das minhas memórias, criasse “quiçá” um livro. O meu. O meu livro.
E assim anuncio que à excepção de alguns compromissos já assumidos e demais conspirações, e por tempo indeterminado, pouco mais farei que dar atenção aos mesmos caracteres, com que hoje escrevo este texto.
Agradeço desde já à Papelaria Fernandes que me lançou o desafio de viver prazerosamente soterrada entre blocos e canetas. Os mesmos que vou levar comigo nas minhas alienações, lado a lado, com os meus compêndios de inspiração, os meus dicionários, os meus livros sagrados, os amores da minha vida e as minhas reservas de tinto.
E que o resto seja apenas o rascunho permanente do que é estupidamente perfeito: a dedicação àquilo que se ama (ponto)

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* Cadernos NUUNA | Papelaria Fernandes | Lindos de morrer | Perfeitos para se escrever

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Não vivo sem…

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Não vivo sem tempo.
O tempo que vive acima dos ponteiros do relógio, aquela medida unitária que faz parelha com o destino que me compete cumprir.
O tempo dos meus sonhos, das palavras encavalitadas no bico da minha caneta, das imagens que projecto na lente para as minhas memórias futuras.
Não vivo sem sentir o vento a empurrar-me contra os obstáculos de que me faço vida.
Não vivo sem amor desprendido, sem abraços apertados, sem poder dizer aos que gosto o quanto me fazem falta e sem sentir a falta que me fazem os que gosto.
Não vivo sem o desembaraço primário de achar que a vida é uma aventura mascarada de rotina.
Não vivo sem Liberdade, a mesma que dá prazer ao pé descalço, a mesma com que vejo de mãos dadas o tempo fluir, a mesma que me acorda em sobressalto para me lembrar que posso ser tudo.
A liberdade que me engasga os deveres e me acorda os sentidos para todos os momentos de prazer.
Não vivo sem o presente, aquele que é o agora sem a culpa do que poderia ter sido, e sem os complexos de tudo o que já foi.
Não vivo sem canetas, blocos, máquinas, bonés e as bugigangas que se estendem sobre os meus membros com a aspiração de serem tentáculos de mim.
Não vivo sem o colo do copo de vinho onde naufrago a minha poesia, nas noites em que sonho ser escritor. Nem sem os livros que me amarram a 1000 vidas que não conheci.
Não vivo sem música, sem a pauta curvilínea dos acórdãos que fazem banda sonora onde me encontro, onde vou, onde sonho e onde me faço pessoa.
E não vivo sem viagens, aquelas que vão ao fundo de nós, dos outros e do mundo.
Não vivo sem pessoas, os cofres máximos de inspiração, transpiração, fontes com a mácula máxima da vida, cortesãos da minhas letras.
E não vivo sem gargalhadas porque são o compasso mais saudável de existir.

*Enquanto embaixadora da RVCA e a convite da Ericeira Surf & Skate lançarem-me o desafio de escrever sobre o tema “Não vivo sem” ‪#‎naovivosem‬ e traduzi-lo numa fotografia. Falta o presunto:)

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