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Toda a gente lê antes de dormir.

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Escrevi no meu Instagram – https://www.instagram.com/isaldanha/ – que cá em casa até perdoamos a sopa, mas que toda a gente lê antes de dormir.
É bem verdade.
Mesmo com os olhos tortos e um bocejo inscrito na cara, faço questão de lhes dar 15 minutos de leitura obrigatória, às vezes mais. Quero que poisem os tablets e os periféricos móveis, que descansem do Youtube e das dobragens detestáveis do Disney Channel, quero que sintam a textura do papel, as palavras alinhadas, o cheiro das folhas e sobretudo os mecanismos de imaginação, curiosidade e o enriquecimento semântico, que só um livro produz.
Deixo-as escolher as livros.
A Caetana só gosta de histórias que tenham um Q.I. de terror, já a Camila só quer ler livros onde haja beijos e muito amor.
Comprei a trilogia da “Escola do Bem e do Mal” para a Caetana, reza a sinopse: “No povoado de Gavaldon, a cada quatro anos, na décima primeira noite do décimo primeiro mês, dois adolescentes somem misteriosamente há mais de dois séculos. Na temida ocasião, os pais trancam e protegem seus filhos, apavorados com o possível sequestro, que acontece segundo uma antiga lenda: os jovens desaparecidos são levados para a Escola do Bem e do Mal, onde estudam para se tornarem os heróis e vilões das histórias dos contos de fadas.” O primeiro livro foi eleito um dos melhores de 2013 nos Estados Unidos e Best-seller do The New York Times.
A miúda não larga o calhamaço e hoje pediu-me para levar o livro para a escola.
E eu, que sempre sonhei ir buscar a minha filha ao recreio e encontra-la absorta a ler.;))
É desta que concretizo um fetiche maternal.
Um beijo maior nos livros. (No dia internacional dos beijos.)

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É com Amor que se vence o medo.

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Os dias regressam, as horas impõe-se, as rotinas exigem.
Mas há neste amanhecer dos dias seguintes uma culpa irresponsável, por continuar a viver, como se nada fosse diferente, sabendo que nunca mais será igual.
Não dormi bem à noite. Levantei-me.
Fui beijar-lhes as caras. Agarrei a mão do Pedro com força.
Ouvia tudo com muita nitidez.
Nunca a minha respiração me pareceu tão forte, como se me quisesse alertar da forma mais crua para a benção da vida.
Obrigado por me teres segurado a noite com um “Amo-te”.
É com Amor que se vence o medo.

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Assim está bom. Dizem

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Assim está bom. Dizem.
Não é só o malte que esborrata as unhas é a pressa de mexer as mãos.
Hoje não me quero mexer.
Quero poisar-me. Poisar o olhar nas vossas invenções, a minha boca nas vossa bochechas e os meus braços em cada parcela do vosso corpo. Hoje pintem a manta. A minha, a vossa, a nossa. Encham-me a casa de sentido, até que os sentidos se esvaziem das pressas.
Assim está bom. Dizem.
Assim é melhor. Sinto.
Hoje não me quero mexer.

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“P” DE PARA TI

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Acho que já esgotamos todos os ícones do chat, os corações, os entrelaçados, os casais, as línguas de fora com beijos, as flores. Fomos ao Viber e esgotamos os “I miss youi” os “i love you”, o rapazinho que chora e a menina que pede wifi.

Já fizemos todas as promessas que a distância ajuda a querer cumprir. Mandamos as fotos pirosas e as caras tristes, falámos ao compasso gago das falhas de wifi e à pressa quando havia rede. As seis horas de diferença horária fazem-me despertar-te do sono, e quando podes falar com calma já estou a dormir.
Mando-te fotos do paraíso e recebo as tuas fotos do escritório. Tudo com uma injusta calma de quem sabe que o segredo está na partilha.
Às vezes repito-me nos sonhos que tenho para nós.
E tu repetes-te comigo.
Já vendi a Saudade como adubo em poemas, mas a verdade, é que custa para caraças estar longe de ti. ‪#‎atevelhinhos‬

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Lá fomos nós para a escola de motorista

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Comecei a segunda feira em grande.
A minha mão na mão papuda da Camila. Cabeça de mãe virada para trás, a acompanhar o andar lento, passado e elegante da Caetana que atravessa a passadeira como se pousasse para um anúncio da Donna Karan NY. Ela era madeixa alçada sobre a brisa à esquerda, ela era olhar atirado com desdém à direita e toda uma fila de carros à espera. Ela era a mãe desesperada com as calças de ginástica vestidas, um frio de rachar nos tornozelos e duas mochilas na mão. E o pigmeu da montanha a reclamar: – Não posso chegar atrasada…
Chegamos ao carro, despejamos as loiras e as mochilas lá para dentro. Entro no carro, rodo a chave e nada. Sem tempo para conjecturas sobre a mecânica ou o fim prematuro da viatura, sacam-se as loiras do carro. Abeiro-me da estrada e quando dou por mim, já a Caetana estava dois metros atrás a mandar parar um táxi, com o mesmo jeito nova iorquino da série: Dois dedos no ar, calcanhares levemente erguidos e gémeos em levitação. Entramos com as mochilas da Violetta, os cestos da comida e as loiras. Indiquei a direcção e lá fomos nós para a escola de motorista. No interior da viatura, a Caetana de perna cruzada elogia-lhe o conforto, enquanto a Camila passa as mãos pelo acento do motorista forrado a imitação de lã e diz:
– Que bonito mãe, que fofinho, temos que comprar um igual.
Chegadas à escola. Mochilas nas costas, um cesto em cada mão e um beijo rápido na testa: – Boas aulas filhas da mãe!
Aceno da Camila, resposta da Caetana: – Adeus mãe!
Vou dizer à professora que viemos de táxi.
E eu vim para casa chamar o reboque.

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No epicentro do recreio

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Fui à escola das loiras à hora do almoço para entregar uma surpresa à Caetana e dar um beijo de saudades na Camila. Cheguei bem no epicentro do recreio, na debandada da hora do almoço. Eram tantas as crianças que não conseguia vislumbrar as minhas, era tanto o barulho que o meu cérebro não conseguia comandar os olhos numa busca e os meus membros estavam tão intimidados que não se queriam mexer. Ingénua, ainda pensei que se me quedasse muda e hirta ia ser descoberta pelas crias, amparada pelos seus abraços pujantes, sacudida pelos beijos da saudade. Passaram-se minutos e nada. Iniciei a busca ocular, movi o corpo por entre os seres pequeninos. De repente, pareciam-me todas loiras, todas elas. Vi uns adultos iguais a mim, quedos e hirtos mexendo o pescoço em cata-vento. Sorri como quem solidariza, não estou só, pensei. Passaram-se mais uns minutos quando ouvi uma voz. – Mãe!
O meu descodificador acusou um laço parental naquela voz, a minha cabeça virou-se e o meu coração deu sinais de impaciência. Uma já cá canta, pensei. Não, não pensei. Abracei-a com exagero, percebi-o no olhar das amigas e no desatar escorregadio dos braços. O recreio é o palco das crianças, demonstrações afectivas sim, mas devidamente enquadradas e com discrição.
Eu respeito. Muito. Também já fui miúda pequena e apesar da minha mãe não ser dada às visitas surpresa na hora do recreio, imagino o meu embaraço se fosse. Aquele abraço exagerado que a mãe aperta com culpa na semana que é do pai. Percebo-te.
Mas tinha saudades tuas. Disse “Olá” às tuas amigas com muita simpatia mas sem grande exagero. Sei bem, que tudo o que tu queres nesta idade é que tudo seja normal. Mãe normal com saudades normais. Despedi-me com um beijo normal, disse que te adorava, como faço normalmente. E parti em busca da cria menor. Quanto mais pequeno mais difícil. Como já estava com a maternidade em red light vi-te logo. Corrias como uma seta atrás de um menino. A tua gargalhada era tão boa que até parecia que os dentes de leite iam à frente do corpo. Estiquei o braço para te agarrar. Percebeste que era eu e travaste o passo. Voltei a descer e abracei-te com força as pernas. Já não fui a tempo de ser normal. E como faço normalmente, disse que estava cheiaaaaaa de saudades tuas. Sorriste sem grande reciprocidade de gesto, a tua cabeça vigiava o movimento dos teus pares. Estavas num jogo da apanhada, mas não para ser apanhada por mim. Dei-te um beijo grande e respirei o cheiro dos teus caracóis. Levantei-me e saí do recreio com um andar normal e um coração saciado. Quando estava quase a dobrar a esquina, oiço a voz da Cria grande: – Mãe!!
Vieste na minha direcção, abraçaste-me as pernas e quando ia curvar a cara para me aproximar da tua cabeça, olhaste-me nos olhos e disseste baixinho, mas com muita força: – Amo-te.
E eu sai do teu recreio anormalmente feliz.

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