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Tradição anual

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Amanhã a Caetana faz anos e a Camila está de neura.
Sempre que entramos na semana que antecede a celebração dos anos da irmã, a Camila começa a dar o máximo para boicotar a efeméride. Todos os anos reclama que este ano quer ser a primeira a fazer anos.
Todos os anos lhe explico que não se altera a data de nascimento em função da nossa conveniência. Que ela nasceu no dia 3 de Outubro e que a Caetana nasceu no dia 17 de Setembro.
E que esses são factos que ela vai ter que aceitar.
Todos os anos antes do soprar das velas da irmã, a Camila inflama na maior birra dos tempos. A Caetana chama-lhe invejosa.
Eu penso, mas não lhe chamo nada porque não é de bom-tom insultar os filhos. Também não a encho de mimos porque não tenho o dever de compensar a sua existência tardia, nem assumo culpa alguma, por tê-la como segunda, no seu altíssimo e intocável estatuto de primeira.
Acho que se tornou uma espécie de tradição anual, fintar o amuo da Camila com o sorriso merecido da Caetana.
Dai a 15 dias, a Camila faz anos e não lhe denoto qualquer tipo de preocupação relativa ao estado de espírito da irmã.
Chamemos-lhe com ternura “mimo”. O mimo de quem ainda não atingiu a maturidade do “tu”. Para quem a singularidade do “eu” é o único pronome pessoal que lhe toca pessoalmente.
Amanhã sopram-se as velas dos dez anos e a Camila vai assistir na primeira plateia ao lado da irmã. Não a posso obrigar a estar esfuziante, mas posso ensina-la a tirar partido da felicidade alheia, assim como quem se cola ao “eu” alegre dos outros, tirando um “eu” bom para si.
E de pronome em pronome, ano após ano, chegaremos sem pressa ao nosso plural.

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