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Na minha alma #atevelhinhos.

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Pergunta a neta adolescente ao avô:
– Como é que o avô e a avó conseguiram ficar tanto tempo juntos? Responde o avô:
– Porque nós somos de uma geração, que quando as coisas avariavam nós mandávamos arranjar, não deitávamos fora.
O que é que terá mudado assim tanto no tempo, que nos tornou tão intolerantes aos erros dos outros?
O que é que acelerou de tal forma, que não nos deixa pousar com clareza nas coisas já conquistadas.
Porque é que leva tão pouco tempo a arder a paixão por tudo?
O que é que nos tornou tão mais enjoados, estupidamente acessíveis e intrinsecamente egoístas?
Quem nos fez presas fáceis do romantismo de chavão?
Porque é que quisemos ser tão parcos em demonstrações e tão fecundos na exigência ao outro.
Onde é que nos perdemos?
Como é que nos encontramos outra vez?
Dá para pedir para ver o filme do início?
Dá para voltar aquela fracção de segundo, em que uma avaria, não era mais que o despontar da graça preciosa daquele carácter. A pequena utopia que se encontra em quem se ama, e que não se quer nunca mudar, sob pena de estragar tudo.
Dá para reclamar para viver num tempo em que a construção da história é mais soberana que a vivência do momento?
Porque se der. É lá que me quero encontrar.
Sem medo, que uma ponta espigada do meu mau feitio não tenha conserto na tua emoção.
Carregada do meu jeito imperfeito de ser. Desejosa de descobrir nas tuas falhas os recantos da minha paixão.
E gravar a lacre na minha alma #atevelhinhos.

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– Ó mãe…

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– Os nossos bisavós são aqueles que já morreram?
Pergunta-me a Camila no carro.
– Nem todos os que morreram são nossos bisavós. Mas sim, os bisavós da Camila já morreram.
– Quem eram os meus bisavós? Insiste a Camila.
– São os avós da mãe e do pai. Respondi.
Não sei se as perguntas se ficavam por aqui. Mas quando falou nos bisavós bateu uma saudade das grandes do meu. Eu apanhei o isco e descosi sobre o tema, divagando, como se divaga em paixão na vida, quando alguém nos pergunta sobre alguém que amámos muito (e que já partiu).
– O bisavô da Camila, o meu avô, foi o homem mais importante da minha vida. O meu avô foi o meu pai verdadeiro. O homem que moldou o meu carácter, a pessoa mais boa que já conheci.
A única, cuja a ideia da ausência em vida já fazia doer. O avô foi o homem que me levou à igreja quando casei com o pai. O homem que ensinou à mãe o que é Amor, e que todos os dias me acorda para o lado bom da saudade. O homem que encheu as medidas do meu coração. Tenho muitas saudades do bisavô da Camila, mesmo muitas…
A Camila ficou calada. No silêncio do carro, ganhei consciência que me alongara na adjectivação porque a humildade não deixa na pobreza da linguagem aqueles que mais amamos.
Sorri de mim para mim. E quando já estava a estacionar o carro, a Camila pergunta a medo:
– Ó mãe…eu tenho que gostar das pessoas que não conheci?
– Não meu amor. Nem mesmo de todas a que conhece.

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