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No epicentro do recreio

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Fui à escola das loiras à hora do almoço para entregar uma surpresa à Caetana e dar um beijo de saudades na Camila. Cheguei bem no epicentro do recreio, na debandada da hora do almoço. Eram tantas as crianças que não conseguia vislumbrar as minhas, era tanto o barulho que o meu cérebro não conseguia comandar os olhos numa busca e os meus membros estavam tão intimidados que não se queriam mexer. Ingénua, ainda pensei que se me quedasse muda e hirta ia ser descoberta pelas crias, amparada pelos seus abraços pujantes, sacudida pelos beijos da saudade. Passaram-se minutos e nada. Iniciei a busca ocular, movi o corpo por entre os seres pequeninos. De repente, pareciam-me todas loiras, todas elas. Vi uns adultos iguais a mim, quedos e hirtos mexendo o pescoço em cata-vento. Sorri como quem solidariza, não estou só, pensei. Passaram-se mais uns minutos quando ouvi uma voz. – Mãe!
O meu descodificador acusou um laço parental naquela voz, a minha cabeça virou-se e o meu coração deu sinais de impaciência. Uma já cá canta, pensei. Não, não pensei. Abracei-a com exagero, percebi-o no olhar das amigas e no desatar escorregadio dos braços. O recreio é o palco das crianças, demonstrações afectivas sim, mas devidamente enquadradas e com discrição.
Eu respeito. Muito. Também já fui miúda pequena e apesar da minha mãe não ser dada às visitas surpresa na hora do recreio, imagino o meu embaraço se fosse. Aquele abraço exagerado que a mãe aperta com culpa na semana que é do pai. Percebo-te.
Mas tinha saudades tuas. Disse “Olá” às tuas amigas com muita simpatia mas sem grande exagero. Sei bem, que tudo o que tu queres nesta idade é que tudo seja normal. Mãe normal com saudades normais. Despedi-me com um beijo normal, disse que te adorava, como faço normalmente. E parti em busca da cria menor. Quanto mais pequeno mais difícil. Como já estava com a maternidade em red light vi-te logo. Corrias como uma seta atrás de um menino. A tua gargalhada era tão boa que até parecia que os dentes de leite iam à frente do corpo. Estiquei o braço para te agarrar. Percebeste que era eu e travaste o passo. Voltei a descer e abracei-te com força as pernas. Já não fui a tempo de ser normal. E como faço normalmente, disse que estava cheiaaaaaa de saudades tuas. Sorriste sem grande reciprocidade de gesto, a tua cabeça vigiava o movimento dos teus pares. Estavas num jogo da apanhada, mas não para ser apanhada por mim. Dei-te um beijo grande e respirei o cheiro dos teus caracóis. Levantei-me e saí do recreio com um andar normal e um coração saciado. Quando estava quase a dobrar a esquina, oiço a voz da Cria grande: – Mãe!!
Vieste na minha direcção, abraçaste-me as pernas e quando ia curvar a cara para me aproximar da tua cabeça, olhaste-me nos olhos e disseste baixinho, mas com muita força: – Amo-te.
E eu sai do teu recreio anormalmente feliz.

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O Natal é uma “boa” palhaçada.

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O Natal é uma “boa” palhaçada.
E se assim não fosse, eu também acho que não gostaria muito do Natal. A verdade é que nunca fui grande fã de aglomerações familiares flatulentas. Já sofri na pele o desconforto do veludo e do tafta. Já me senti mais enfeite que criança. Já tive que dar muito beijinho molhado em tias emprestadas, e dizer “Obrigado” e “Se faz Favor” em “loop”, só para honrar os meus progenitores. Já abri muito presente sob o olhar inquisidor dos parentes afastados, e lancei sorrisos abertos, só para os encher de qualquer coisa feliz.
Já andei aos trambolhões entre casas e igrejas, com sapatos de sola escorregadia e dedos apertados. Já rosnei de inveja, da displicência com que me escolhiam os padrinhos e madrinhas, que nunca apareciam para a festa, nem deixavam presente. Já me cansei de andar de carro, entalada entre as minhas irmãs, e de lavar raspanetes por estar sempre amachucada.
Lembro-me bem, da tortura impaciente com que se dispunham pirâmides de presentes enormes, e me calhava sempre um embrulho pequeno esquecido lá trás. Já me enjoei de picar pinhão nas estantes, de ver filmes a Preto e branco, e de olhar para uma mesa carregada de comida, cheia de fome, como quem olha de fora para uma loja fechada.
Todos os Natais, eu acordava na esperança de não receber meias coloridas, caixinhas vazias e livros chatos. Deixei de rezar para que não me apertassem com golas de pierrot e vestidos xadrez, e tudo o que eu queria, era que deixassem brincar, com as cenas boas que me deram, antes de mandarem dormir. Como tudo nesta vida, eu aprendi que não tinha que ser rena para fazer parte do Natal.
E em surdina jurei, que quando crescesse, me vingaria num Natal que fosse inteiramente meu. Já reduzi muita palhaçada, mas o Natal será sempre assim, e faz parte, passar a vida a tentar fazer parte e arte. Eu encaixo, faço e engraxo, mas nunca mais calcei uns sapatos apertados.

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