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“Bem mais grande”

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Não te via há uma semana.
Já tens 10 anos.
Não é nada. Eu sei.
Mas não sei se sei tudo o que isso quer dizer.
Pareces-me sempre enorme, “mais grande” como já nem dizes.
Já falas com tanta certeza das coisas.
E já me gozas com piadas próprias.
Rimos juntas de coisas do saber e do que ninguém sabe.
Às vezes queria ser a tua amiguinha dos recados de papel.
Tenho muitas saudades do monopólio do destinatário.
Já tens 10 anos.
Não é nada. Eu sei.
Tens umas pernas compridas e umas ideias que as ultrapassam. Os teus cabelos já se mexem com coreografia e tu já te vestes como se fosses directa para o Instagram.
Escolhes os teus livros, as tuas roupas, as tuas amigas e as tuas ideias. Mas sei que se te dessem a escolher a progenitora me escolhias a mim.
E não tenho qualquer dúvida, que era a ti que te escolhia mesmo quando me sinto a competir com o mesmo mundo grande que te dei a descobrir.
Já tens 10 anos.
Não é nada eu sei.
E o meu amor por ti é sempre “mais grande” como já nem dizes.
Digo eu por ti que já sou “bem mais grande” que 10.

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Na minha alma #atevelhinhos.

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Pergunta a neta adolescente ao avô:
– Como é que o avô e a avó conseguiram ficar tanto tempo juntos? Responde o avô:
– Porque nós somos de uma geração, que quando as coisas avariavam nós mandávamos arranjar, não deitávamos fora.
O que é que terá mudado assim tanto no tempo, que nos tornou tão intolerantes aos erros dos outros?
O que é que acelerou de tal forma, que não nos deixa pousar com clareza nas coisas já conquistadas.
Porque é que leva tão pouco tempo a arder a paixão por tudo?
O que é que nos tornou tão mais enjoados, estupidamente acessíveis e intrinsecamente egoístas?
Quem nos fez presas fáceis do romantismo de chavão?
Porque é que quisemos ser tão parcos em demonstrações e tão fecundos na exigência ao outro.
Onde é que nos perdemos?
Como é que nos encontramos outra vez?
Dá para pedir para ver o filme do início?
Dá para voltar aquela fracção de segundo, em que uma avaria, não era mais que o despontar da graça preciosa daquele carácter. A pequena utopia que se encontra em quem se ama, e que não se quer nunca mudar, sob pena de estragar tudo.
Dá para reclamar para viver num tempo em que a construção da história é mais soberana que a vivência do momento?
Porque se der. É lá que me quero encontrar.
Sem medo, que uma ponta espigada do meu mau feitio não tenha conserto na tua emoção.
Carregada do meu jeito imperfeito de ser. Desejosa de descobrir nas tuas falhas os recantos da minha paixão.
E gravar a lacre na minha alma #atevelhinhos.

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CARTÃO DE CIDADÃO – EPISÓDIO 2

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CARTÃO DE CIDADÃO
EPISÓDIO 2: Quero um cartão de cidadã como deve ser!

Hoje fui à loja do cidadão levantar os cartões de cidadão das minhas filhas.
Quando me acomodava na cadeira, sai-me literalmente, uma mulher por detrás do biombo e diz: – Você é a mãe da Caetana?
Percebi nesse momento que tenho que passar a andar com uma bandeirinha branca para enfrentar a tua adolescência.
Disse que sim, não havia hipótese de mentir, elas tinham nas mãos a minha documentação oficial, não dava para passar por Tia Irene.
A senhora ri-se e diz:
– Nunca nesta vida vamos esquecer a sua filha! Eu, as minhas colegas e toda a gente que teve com ela naquela fila, enquanto demorava 1 hora e meia a escolher a foto para o cartão.
Fiquei na dúvida se me devia desculpar, amenizar a imagem extravagante da loira, que insiste em não querer ver impressa num cartão oficial, uma imagem que não a traduz devidamente.
Pedi desculpa. Acrescentei: – Sabe, que sou fotógrafa, ela está habituada ao processo de selecção e edição das imagens.
A senhora continua: – O pai que vinha com ela, estava tão desesperado, que às tantas pisquei-lhe o olho, como quem diz, tenha paciência que isto já se resolve. A Caetana topou-me e diz-me com as mãos cruzadas sobre o peito: – Porque é que está a piscar o olho ao meu pai?
Ri-se, rio-me, rimo-nos e acrescenta: – Mas ela é mesmo muito bonita! Às tantas vira-se para o pai e diz: – Com tanta hora para vir tirar o cartão, porque é que viemos logo de madrugada quando estou cheia de olheiras? Ri-me, riu-se e rimo-nos de novo, encolhi os ombros, peguei no cartão e olhei a fotografia.
Responde a Senhora por detrás do biombo: – Essa nem está má! Mas havia lá melhores…
Imagino que sim. Mas melhor do que isto não há.
As minhas desculpas a todos os que sofreram com o atraso provocado pela minha loira e o meu sincero agradecimento à senhora do biombo, que diz que faz questão, que seja ela, daqui a 5 anos, a tratar-lhe da renovação.
Boa sorte!

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DUAS METADES INTEIRAS

Duas-Metades-Inteiras

Cresci numa casa de mulheres, parca em vestígios masculinos, excepção feita à figura mais proeminente da minha infância, o meu avô. A minha avó tinha duas irmãs, a minha mãe, a mesma justa equação. E nós éramos quatro. Debaixo do mesmo tecto, todas as hormonas, diferentes gerações em confluência.

Cresci a ver cabelos a serem penteados, vestidos nos estendais, mãos com anéis, livros de receitas abertos sobre as bancadas, músicas ouvidas em desatino, choros sofridos no vai e vem da paixão. Saturada do universo matriarcal, jurei a mim mesma quando ainda era adolescente, que se exercesse a maternidade, seria mãe de um homem. Não quis o destino quebrar a corrente e, sem ser tida nem achada, fui mãe de duas Marias.

Hoje rio-me com ternura desses tempos de criança. Nunca fui Maria Rapaz, não era o cor-de-rosa em atrofio que ansiava pela gestação de um macho, não era o histerismo pontual que me atirava para a conquista de um espaço mais azul, não era a falta de amor que pedia ao meu universo que se pontuasse com alguma masculinidade. Era a sensação pragmática de que havia um hemisfério a precisar da versão mais simples do ser mulher. Era um excesso de rímel traçado sobre as decisões, era muito salto alto, quando a vida pedia pé no chão.

Com distância, consigo agora perceber como me fiz mulher entre as mulheres. E como a confluência exagerada do meu universo permitiu que percebesse a importância do meu percurso na educação das minhas filhas. Hoje, sei-o na pele, a mesma onde sofri os embates, que ser mãe de uma rapariga é uma missão. E não o escrevo apenas por estímulo feminista, escrevo-o, porque demorei-me a adorar ser mulher. E criei as minhas filhas para que adorassem desde o primeiro dia. Queria que sorvessem, tudo o que era incrivelmente belo e singular no ser no feminino. Quis que nunca atribuíssem o monopólio das qualidades da força e da aventura ao ser no masculino. Quis que fossem coesas, duas partes completas, duas metades inteiras.

Dei-lhes os recursos, os atilhos, os folhos e o romance, mas descalcei-lhes os pés e o feitio, para que tocassem na terra de palmo inteiro e desbravassem sem medo o que não lhes era conhecido. Quis muito que respeitassem o corpo, sem o temer, que o sentissem sem vergonha ou escrúpulo antecipado, queria que a vergonha surgisse apenas quando o erro é flagrante e nunca adiante. Não quis masculinizar a culpa, nem criar ditadoras de um mundo de fantasia. São duas bonecas, pensei. Quero apenas que sejam rijas.

O futuro dir-me-á se lhes armadilhei o caminho ou se fui uma boa ceifeira, de uma colheita coesa, de duas metades inteiras.

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