"Se um dia voltar a casar..."

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Se um dia voltar a casar, vou querer vestir-me de palavras.
Não há nada que bata um bom discurso.
Aliás, deliro até com os maus, desde que na tentativa haja depósito atestado a sentimento.
Poiso sempre a máquina, o olhar e delicio-me nas promessas encaixadas na voz tremida. Perco-me no embaraço comovido da noiva e do noivo. Procuro-lhes as certezas com que as farei minhas.
Imagino-me sempre a mim, de mãos ligeiramente suadas, à procura de um olhar âncora nas mesas e das tuas mãos.
Ensaio às palavras que direi: Aquela metáfora chave, aquele episódio, aquela manhosice nossa, que nos torna um par único num momento ímpar.
Dizem que “as palavras leva-as o vento”, eu levo-as todas para mim.
Todos os casamentos têm o seu protocolo, mas nem todos têm discurso. Aquele momento único que não é passível de ser fotografado de forma generosa, porque a força transparente das palavras, não as faz visíveis aos olhos da máquina.
Eu acho que em todas as celebrações se deviam trocar palavras. Ninguém devia ter medo das baboseiras que sente, num mundo tão carente de expressão. Não levamos quase nada daqui, uma delas é a fortuna acumulada, e outra são as palavras que ficaram por dizer. E o mais lixado é que as palavras também são gramática na relação. Senão se pontua na altura certa, corremos o risco de não fazer sentido mais tarde.
Ilan, o noivo da fotografia, ergue-se, falou alto de perto, e mesmo quando a voz lhe tremeu, tudo parecia tão bem edificado no que queria dizer, que me comovi. E mesmo nas palavras mais simples: “És a mulher que sonhei para mim.” Havia aquele depósito sem fundo de amor e de fé. O mesmo depósito com que se atesta o carro para uma viagem de sonho.
Tenho muitas vezes insónias, mas não conto carneiros, teço discursos, ergo-me, suo da alma e das mãos, e imagino-me assim, vestida com as palavras que não quero guardar para mim.
Falem sff.

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