Mila(no)

Não me identifico muito com Milão.
Acho graça, quase pitoresca, à forma cuidada com que os seus habitantes arregaçam as mangas de manhã.
Gosto especialmente, do cuidado que os homens têm em respeitar as tendências. É tão fora do mundo onde poiso os pés, que dou por mim a olhá-los, como se tivessem saltado das vitrines para a rua. É tudo muito composto, alinhado, asséptico, com os desvios medidos e os rotos bem calculados. Os meus piolhos nunca lhes achariam lugar.
O saco do pão fica bem com a risca do blazer, o cão combina com o chapéu. As conversas de rua parecem discretas. mas carregam o volume no vocabulário em voga. Só vale a pena dizer em voz alta, o que não fica bem no recato do silêncio. Adoro Itália, é um dos países que mais me seduz em toda a Europa. Mas Milão é uma montra que não faz jus ao recheio do país. Tem os seus apontamentos de estrondo e a sua pasta fresca, tem cantos de perdição que se escondem longe do olhar das montras. Mas ainda assim, tem muita montra. É uma cidade com o perfume urbano das essências trabalhadas. Falta-lhe oxigênio sobre a versão original.
Também não ajuda, que não seja menina de carregar sacos com logos, e de juntar os pés em excitação quando vejo aquela marca a fazer esquina. Gosto mais de restaurantes e mercearias, artigos de papelaria, lojas de viagens, artigos locais e roupa em 2ª mão. Sou mais trivial e económica nos souvenirs, trago ímans para o frigorífico, e mais de metade das recordações, aquelas que não cabem no cartão da máquina, ainda se passeiam nas entranhas do meu ser. Óbvio que é possível combinar as compras com a degustação. Mas não consigo imaginar-me a perder horas nos provadores, quando ainda há tanto “cabide” humano por conhecer.
Ciao Milano:)

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