Chiado (o nosso)

Era pequenina mas lembro-me tão bem do olhar triste das pessoas grandes quando o (nosso) Chiado ardeu. Eu nem sabia bem localizar em que zona é que a cidade ardia. Mas já sabia que o que ardia era belo e era nosso. De outra forma nunca poderia perceber o contágio da tristeza, o luto das pessoas, a curiosidade, a troca assustada de palavras e a busca permanente por notícias novas. Lembro-me de ter ficado triste também. De me ter juntado sem saber bem, sem saber onde, aquela dor sem proprietário que era dor de todos nós. A partir desse dia, o Chiado ganhou um relevo especial para mim, o mesmo que me ensinou na vida que as melhores pessoas são as mais sofridas. Cada dia que regresso ao Chiado para fotografar, levo comigo a lembrança dessa vitória sobre a tristeza. E tudo o que arde agora em mim, é orgulho puro, por um dos cantos mais especiais da nossa cidade.

* Shooting Vintage Bazaar | Anna Westerlund

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