PLAY DEAD

Não gosto de baratas. Mas há uma coisa em que elas são mesmo boas, a encenar a morte. Colocam-se de carapaça no chão, de antenas inertes e patas encolhidas. Disseram-me os peritos em desbaratização que o faziam para evitar que o veneno ingerido subisse às vias respiratórias, prolongando o tempo de vida. Se soubessem a quantidade de vezes que me apeteceu fazer o mesmo, aqui mesmo, no chão desta casa que leva o melhor de mim.
Talvez tente, hoje não, que o chão não vê aspirador há dias e dias e eu estou de preto.
Ontem quando estava a regressar de um trabalho recebi um telefonema de uma amiga, uma dessas amigas fortes, que vai a tudo, com tudo o que tem. A conversa era leve, finalizada com uma proposta de um copo de vinho num final de um dia qualquer. Mas quando lhe atirei com a pergunta banal: Como é que está tudo contigo?, fiquei com a impressão que a chamada tinha caído, deixei de ouvir por uns segundos demorados. Acho que nunca a tinha ouvido chorar, mas lá estavam, as lágrimas, as palavras enrameladas e a culpa. A filha da mãe da culpa, que não se finge de morta mesmo quando o corpo que a carrega não aguenta mais. Do pouco que percebi entre as cortinas de choro, havia um emaranhado de vazios por preencher: Os filhos que vemos pouco, as amizades avulso e os amigos sem pulso, as consultas que estamos há semanas para marcar, a reunião na escola mil vezes adiada, a ressaca demorada, a paciência rara, o casamento estanque e as ondas da Nazaré, as relações no trabalho, os atrasos, os embaraços, os recebimentos, os extravios e os envios, o ginásio que não chegámos a pagar, a viagem que não chegámos a marcar, a irmã que estamos em falta e a falta que temos de nós. Ela não conseguia parar de falar, como aqueles trapos infinitos que saem da garganta do mágico. Eu percebo que ela não queira parar de falar, como se a única solução naquele momento fosse o afogamento por excesso. Eu percebo, porque também sei, que quando se inspira e se trava de repente, há uma percepção de desmaio e de tontura, que aprendemos a disfarçar de coisa feita. Não sei bem que vidas são estas, parecem as máquinas de lavar aos tombos na marquise. Mas ninguém parece sair ileso desta centrifugação. E ela diz a chorar, que é tudo demais. Que a escola reclama presença, que o educador se mostre ao educando, exímio no cumprimento do papel que assumiu por voluntária maternidade. Que mandam emails e notificações e passwords de acesso ao aluno virtual, duas vezes real. E que há festas, trabalhos de casa, trabalhos de grupo e experiências premeditadas para potenciar a participação generosa entre progenitor e cria. E também há fichas para assinar e testes para ver e livros para ler e corta-matos e falta de serras eléctricas para aliviar o peso de tudo isto.
Sabes? Sabes? Não tenho horas que cheguem para ser tudo o que me pedem para ser num dia. Nem sei ser tudo. E chora. Sou uma merda, diz. E vejo pessoas, como não as ver, que parece que chegam como polvos a todas as dimensões da vida. Que tomam pequeno almoço em família e está tudo feliz e tudo condiz. E as crianças vão aos “pulinhos” para a escola e não há migalhas, não vejo as minhas nódoas naqueles casacos, nem as canetas desbotadas naquelas mochilas. E os meus filhos não sorriem assim…ou sorrirão, e eu já não reparo. Mas eu sei que não sorrio. E se por azar me vejo reflectida num espelho qualquer, acho-me velha e feia, mil vezes envelhecida em cada manhã. E não há corrector de olheiras que disfarce o olhar vazio. Sinto-me baça Isabel, sinto-me baça.

(…To be continued)
#CRÓNICA 3 | MULHER

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